03.12.03

A miséria da tecnologia

Por souzalopes

Os sararimen (do inglês salary man, na apropriação fonética japonesa; assaliariado das grandes corporações) de plantão nas páginas de “crítica literária” não respeitam muito a literatura de ficção científica, que, para eles, parece algo distinto da “literatura propriamente dita”. Por isso, pouco escrevem sobre ela, e quando o fazem é sempre e somente para elogiar, não distinguindo autores nem atentando para o que seria o principal em literatura: a qualidade do texto. Esses sararimen, parece, gostam mesmo é de filmes de f-c, principalmente aqueles de superlativas bilheterias e superlativos elogios dos sararimen estrangeiros. Nossos sararimen não gostam mesmo da leitura. Para sorte da midiocridade, o livro Neuromancer é escrito como roteiro de cinema; e um dia, com certeza, vai virar filme.

O autor, William Gibson, e outros de sua turma consideraram ultrapassada a “velha” f-c, que, especulando diversos futuros, estaria deixando de lado os temas dos tempos novos e nossos. Veio então a temática por eles chamada cyberpunk, junção de cibernética com punk. A palavra cibernética, é bom lembrar, vem do grego kybernitké, “a arte do piloto” ou “a arte de governar”, e foi adotada para denominar a ciência que se ocupa dos sistemas de comunicação e controle de organismos vivos ou aparelhos mecânicos. A palavra punk vem do inglês, provavelmente da gíria londrina, tirada do inglês quinhentista, quando significava “prostituta” ou “bobagem”. Nesse nosso tempo anterior ao de Neuromancer, punk também é o movimento contestador, com marcante presença neoanarquista, que faz questão de se apresentar publicamente (cabelos, roupas etc.) em estilo totalmente discordante do padrão socialmente vigente.

Toda literatura decerto sempre refletirá algumas das condições da época em que é escrita. A literatura de f-c procura também as condições da época que é descrita. Quase sempre se ocupa de projeções e especulações sobre os avanços da ciência e das tecnologias praticadas (ou somente vislumbradas) nas épocas dos escritos. Há também uma f-c que se liga ao “fantástico” – e, nesse caso, o próprio Jorge Luiz Borges, por exemplo, também poderia ser rotulado de autor de ficção científica.

A partir de Jules Verne (Viagem Ao Redor Da Lua), instaurou-se o tema das navegações espaciais e dos contatos – amistosos ou belicosos – com civilizações extraplanetárias, neste e noutros planetas. Depois das explosões de Hiroshima e Nagasaki, e durante todo o período “da guerra fria”, a f-c muito especulou sobre as conseqüências de uma guerra em que humanos insanos arruinariam ou destruiriam o planeta com armas atômicas. O tema já não é hoje tão recorrente, como diriam o sr. Osama Bin Laden e seus (e)leitores. Isaac Asimov explorou com muito sucesso um novo mote na f-c: a robótica. (Robô vem do checo robota, trabalho forçado, palavra introduzida pelo escritor checo Karel Capek.) Em Eu Robô, Asimov imagina robôs criados à imagem e semelhança do homem (como, na cultura judaico-cristã-islâmica, o homem com relação a seu deus), e “cria” as três leis da robótica, que obrigariam a máquina a uma rígida ética que a proibiria ferir um ser humano ou permitir que este fosse ferido por outro humano ou por um outro robô. Asimov imaginava o robô “ético”, dotado de inteligência artificial e de poderes superiores aos dos humanos, contidos porém pelas três leis da robótica e pela constituição norteamericana.

Gibson não traz a épica das viagens espaciais e a utopia robótica de Asimov (ou a distopia das guerras entre humanos e robôs e/ou andróides). Se, na ficção de Asimov, o robô é semelhante àquele “bom selvagem” de Rosseau – talvez um tanto confuso, mas sempre purificado pelas três leis da robótica –, na f-c cyberpunk, o óbvio: (a) ciência e tecnologia não se limitam nem se guiam por padrões éticos; e (b) não há qualquer necessidade de robôs com forma humana.

A inexistência de limitações éticas à ciência já é bem conhecida e provada. E também fica claro que nem os humanos nem as inteligências artificiais necessitariam de máquinas à imagem e semelhança do corpo humano. Muito pelo contrário, por meio da chamada “realidade virtual”, a máquina inteligente não necessitaria de um corpo mecânico antropomorfo, porque o próprio ser humano, ao conectar-se à máquina, já fornece seu próprio corpo e sua própria imagem, a ser até explorada e manipulada pela máquina no mundo virtual.

A máquina não teria mesmo necessidade de assumir concretamente e no mundo real a forma humana. Poderia até assim fazer, no mundo virtual, para, até invadindo o mundo real, apresentar-se aos humanos. No mundo concreto e real, é o ser humano quem acrescenta mecanismos ou acessórios cibernéticos ao seu corpo. Em Neuromancer, os penduricalhos dos punks de hoje são substituídos por chips implantados no corpo humano, com diversas funções. A personagem Molly tem lentes implantadas que contam com relógio digital e lhe permitem enxergar no escuro. A mesma personagem tem garras metálicas retráteis em cada dedo das mãos (como o Wolverine dos quadrinhos).

Na época em que se passa Neuromancer, a inteligência artificial já se terá tornado realidade. É relembrado o “paradoxo” de Turing, o criador da máquina virtual que deu origem à informática moderna. Segundo ele, uma máquina poderia ser considerada inteligente se fosse capaz de conversar com um ser humano, durante certo tempo, sem que este a identificasse como máquina. Isso me faz lembrar o lusitano Luiz Leal, que, depois de esbravejar durante uns bons vintes minutos com uma secretária eletrônica – que apenas pedia que ele deixasse recado e se negava a fornecer-lhe o endereço – ao ser informado de que estava discutindo com uma máquina, concluiu: ”mas como é burra!”. O sábio lusitano provou que a inteligência artificial existe; mas é burra, porque conversa com um humano sem reconhecê-lo como tal.

Uma outra especulação trazida em Neuromancer é a manipulação do corpo humano, por engenharia genética, cirurgias plásticas e técnicas de transplantes e implantes de órgãos e/ou chips e outros acessórios. O tráfico de drogas, órgãos, glândulas etc é atividade cotidiana. As clínicas médicas, legais ou ilegais, prolongam a vida saudável de quem possa pagar, e operam transformações no corpo humano que causariam inveja às equipes que atendem Michael Jackson.

Naquele mundo, até a morte física é virtualmente revertida. A personagem Armitage tem corpo humano no mundo real, mas não é exatamente um ser humano – é um sofisticado computador implantado num cérebro humano já inutilizado. Um dos amigos do protagonista Case é Linha Plana, assim chamado porque, quando conectado ele à máquina, seu eletroencefalograma não apresentava qualquer oscilação, resumindo-se à linha reta indicativa de morte cerebral. Linha Plana sobrevive numa programação cibernética, e, ao final, pede a Case que o delete. Case, conectado, teve também seus momentos de “linha plana”. E nenhum leitor poderá afirmar se ele sobreviveu em carne e osso ou somente ou muitamente nos secretos circuitos cibernéticos.

Apesar de várias referências a guerras e segredos militares, no mundo de Neuromancer não existe o Estado, exceto como apêndice das grandes corporações (entre elas, e talvez a maior delas, a máfia japonesa Yakuza) que dominam os negócios do planeta.

Não há qualquer diferença entre negócios legais ou ilegais. Prevalece a lei mafiosa: o traidor ou devedor é punido. E nada mais. Aquilo que chamamos “política” limita-se às ações subversivas de grupos minoritários como os Panteras Modernos (alusão e homenagem aos antigos “black panthers”) e os “dreadlocks”(rastafaris). Povo, mesmo, não existe. As cidades são gigantescas. Tóquio abarca imensa área. No território norteamericano, há o Sprawl, que compreende todo o leste dos EUA, de Boston a Atlanta, incluindo Nova Iorque e Washington.

Os mundos real e virtual convivem, sem que seus “habitantes” humanos sequer percebem com clareza em qual deles estão, num determinado momento. De qualquer forma, qualquer dos mundos de Neuromancer é sórdido, cruel e violento. Nenhuma fumaça de ética, exceto nos Panteras e nos Rastafaris. Toda a ciência e a tecnologia avançadas servem somente à desgraçada miséria da condição humana. Como diria Drummond, quando todo esse progresso chegar, felizmente estarei morto.

NEUROMANCER / William Gibson;
trad. Alex Antunes – São Paulo:
Aleph, 2003.
R$ 39,00

 

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