03.03.04

O inferno da pobre menina rica

Por Katia Abreu

Todo dia ela faz tudo sempre igual: acorda tarde; passa horas escolhendo a roupa com que vai sair; almoça com amigos em um restaurante carérrimo; emenda um passeio e umas comprinhas pelos Champs-Elysées; volta para casa; se monta e vai pra algum clube moderninho com suas amigas, atrás dos bons-partidos da cidade; segue para um after-hours, depois para uma festinha íntima na casa de algum amigo, onde termina a noite completamente bêbada e drogada, trepando com algum ex, com algum amigo ou com um "passante" qualquer.

Todo dia, tudo se repete e ela não vê nada de errado nisso. Não há nada com o que ela tenha que se preocupar, exceto esconder as olheiras da noite anterior ou tomar um remédio para curar a ressaca. Não há nenhum conflito, a não ser o de horários entre ela e seus pais, que não chega a ser um problema. Tudo na vida d'Ella estava bem, até o dia em que, observando uma vitrine Baby Dior, ela cai em prantos, por conta do aborto que havia feito pela manhã. A partir de então, algo muda na cabeça d'Ella, que tornara-se Hell por escolha própria ("Resolvi então me rebatizar para mim mesma e para aqueles que entenderão"). Hell subitamente toma consciência da vida que leva e passa a encará-la com cinismo e uma certa melancolia.

Lolita Pille, a autora, confunde-se com Hell, a personagem, e o mérito de Lolita/Hell não está em chocar a opinião pública com seu romance. Como toda a história semi-autobiográfica, a mais-valia do texto está na intensidade com que é escrito, no fato de as palavras representarem uma torrente de emoções/acontecimentos, tal tivessem sido vomitadas sobre o papel. Quem é que vai se chocar ao saber que as noitadas daqueles jovens eram regadas a muita cocaína, champanhe e sexo? É mais fácil se compadecer com a crise de choro que Hell tem diante das roupinhas de bebê, ainda que isso seja bem piegas.

O grande lance de Hell também não é conduzir o leitor pelas ruas e lugares descolados de Paris, porque a história de Lolita poderia ter acontecido em qualquer outra metrópole. Lolita podia ser uma patricinha paulistana. Pensando melhor, patricinha, não. Uma camilinha (pra usar um termo em voga), já que ela não faz muita questão de manter qualquer pose de boa moça, como é costume das meninas ricas por aqui. Hell não apenas enfia o pé na jaca quase que diariamente, como o faz em lugares como o Queen, que pela descrição dada, tem mais a ver com a Alôca, onde a putaria e as drogas correm soltas, do que com a Disco, onde se encontram os bem-nascidos paulistanos.

O tédio, que boa parte da crítica creditou ao livro, é o verdadeiro ponto de Hell. Não é a narrativa que é tediosa, mas a vida que a heroína leva. Hell deixa isso evidente em seu texto. Lolita, assim como sua personagem, é uma "patricinha esclarecida". Mesmo tendo fugido de boa parte das aulas do colégio, ela leu (e cita) Bataille e Baudelaire, por exemplo. Hell é niilista, pessimista, quase uma existencialista ("O sentimento que se sente e é tomado como felicidade quando se está apaixonado, quando se teve sucesso em alguma coisa, é uma liberdade condicional antes de conhecer a pena: o ser amado não se parece com nada, o que você conseguiu não serve para nada. Isso não a faz feliz, mas consciente.")

Hell arrisca provocações: "Eu gostaria de avisar, mesmo assim, que nós pagamos impostos; (...) que o Estado nos despoja para que as crianças de vocês possam ir à escola. Deixem, então, a gente em paz". Mas não chega a levantar debates sobre a luta de classes. Os pobres servem apenas de interlocutores a ela, ou aparecem como paisagem em seus passeios pela cidade. Os pobres trabalham, se ocupam, não devem ter uma vida vazia como a dela, deve pensar. Este talvez seja o maior pecado de Hell: tomar para si o sofrimento de uma existência medíocre.

Talvez ela não saiba que de tédio todos os que têm consciência do quão sem sentido é a vida sofrem. Talvez ela não saiba que a única coisa que a torna diferente de boa parte dos outros entediados seja o fato de ela ter um cartão de crédito sem limite, que ela pode usar para comprar o que bem quiser ou para enfileirar quantas carreiras de cocaína sentir vontade. Que ela pôde escolher continuar nessa vida de "não-tenho-mais-o-que-fazer-vou-encher-a-cara-todo-dia", enquanto a maior parte das pessoas têm que se preocupar em como vai pagar as malditas contas no fim do mês. Talvez a felicidade apenas tenha sido sepultada para ela no acidente em que seu amor morreu. Ou talvez Hell esteja certa quando afirma que "Se os ricos não são felizes, é porque a felicidade não existe". De todo o modo, Hell não julga ninguém e, portanto, não merece ser julgada. Ela sabe que não vai ser feliz e faz sua escolha.

Hell - Paris 75016
Lolita Pille
Editora Intrínseca

 

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