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Dezembro
/ 2002
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Desde os primórdios até outro dia
Por Juliana Zambelo
Por isso, é principalmente para essa turma e as seguintes que Dias De Luta - O Rock E O Brasil dos anos 80 tem maior importância. Ele conta e explica o começo da história, todo o movimento de estouro do rock brasileiro durante os anos 80, pedaço do caminho que é essencial conhecer para entender melhor não só a música pop feita atualmente no país como também adquirir uma noção mais abrangente e embasada das estruturas que as rádios e gravadoras moldaram para si desde então. E para aqueles que viveram ativamente o período, a obra serve para esmiuçar detalhes e colocar os acontecimentos em novas perspectivas. Escrito pelo jornalista Ricardo Alexandre, que atualmente edita a revista Frente, Dias De Luta narra uma história com características clássicas: a ascensão e queda de uma geração, o fim da inocência, a dissolução de idealismos frente à realidade. Ele retrata desde os antecedentes da montagem de uma armação metafórica e literalmente frágil chamada Circo Voador, onde bandas como a Blitz deram seus primeiros passos, até a ressaca, o famoso vazio do início dos anos 90, quando apenas um pequeno punhado de grandes bandas conseguia sobreviver no mainstream, tropeçando no que sobrou de uma década: os escombros do excesso de exposição, dos choques de egos e de outros dramas do sucesso. O livro dá quase uma visão panorâmica desses dez anos. A atenção é voltada mais para a integração e a convivência do que para as peculiaridades. Os capítulos dedicados a uma única banda são, em geral, curtos. Enquanto isso, assuntos como o movimento punk paulista ou o Rock in Rio ganham mais páginas. O que, no entanto, não impede que Alexandre aponte as especificidades de cada cena, principalmente as diferenças entre São Paulo e Rio de Janeiro. A melhor qualidade de Dias De Luta é não falar de pop rock como evento isolado. Ele lança mão de explicações políticas, econômicas e comportamentais para inserir a música no seu contexto, no seu tempo. Mas sem se alongar demais nem abusar da paciência do leitor. O resultado é que tudo fica mais claro e mais completo. Contudo, o livro começa dando corda ao idealismo e acaba compactuando com a inocência, mostrando a primeira fase desse movimento quase sem levantar problemas ou fazer críticas. O primeiro depoimento que vai contra o pop carioca, por exemplo, aparece apenas na página 141, com Marcelo Nova. Como se - algo muito improvável - não existissem discordâncias na primeira metade da década. Outro problema é que, apesar do esforço, nem tudo consegue ser explicado. A extinção dos compactos pela indústria fonográfica brasileira continua sendo um capítulo nebuloso. Além disso, pequenos erros de informação têm sido apontados pelas pessoas envolvidas. Nada que prejudique as boas análises, mas não deixam de ser erros. Comparando à outra obra já lançada sobre o mesmo tema, o livro BRock, de Arthur Dapieve, de 1995, Dias De Luta é maior, mais abrangente e profundo, porém é menos poético. Como na abordagem de um dos pontos mais delicados, a morte de Cazuza, onde Dapieve é capaz de levar o leitor às lágrimas, enquanto a Alexandre faltou um toque mais emocional. Provavelmente uma escolha pelo maior distanciamento, que cabe a cada um julgar se é a de sua preferência. Dias De Luta também se diferencia por não dar preferência às bandas que se consolidaram como parte da "primeira divisão". Titãs e Legião são tratados com o mesmo cuidado e respeito que artistas indispensáveis para aquele momento, mas que são hoje pouco lembrados, como Leo Jaime, João Penca & Seus Miquinhos Amestrados e Gang 90 & as Absurdettes. Dias De Luta é um livro que estava esperando para ser escrito. Mas não é definitivo. Não encerra o assunto porque não deixa de ter escolhas e olhares muito pessoais. E também porque essa é uma história que ainda não acabou. Afinal, mais uma vez o RPM se reuniu e o Capital Inicial é hoje a banda mais popular do país. Dois fatos que certamente merecem entrar na próxima versão dessa odisséia. |
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