Novembro / 2002

Quem tem medo do Vampiro?

Capa do livro
O Vampiro de Curitiba

Por Carlos Lopes



Em época de Halloween é muito comum lembrarmos de figuras lendárias e enigmáticas como lobisomem, bruxas, duendes e monstros. Quando chega essa época eu acabo lembrando de uma figura enigmática também e que também é conhecida como Vampiro, mas o Vampiro de Curitiba.

Dalton Trevisan é um dos escritores brasileiros mais injustiçados pelo público e mais aclamado pela crítica. Já passou pelas mãos da maioria dos críticos literários de nossa época como Álvaro Cardoso Campos, Massaud Moisés, Bertra Waldman, Antônio Cândido, Alfredo Bosi, entre outros. Todos com grande admiração pela sua obra.

Já escreveu mais de 25 livros, a maioria de contos, dois de Hai Kai - ou o que ele mesmo chama de mini-contos - e um romance. Já ganhou vários prêmios Jabuti, com Cemitério de Elefantes ou Novela Nada Exemplares, por exemplo, e já virou filme com A Guerra Conjugal. Seus livros já foram publicados em várias línguas, inclusive o árabe. Daí você pode pensar: Com tanto gabarito, como eu não conhecia Dalton Trevisan ainda?

A resposta é simples. Ele mesmo não quer ser conhecido. Isso é privilégio para poucos. Dalton sempre teve um cotidiano de reserva e obscuridade que fez dele e de sua literatura um mito. É sabido que de sua casa ele não sai. Quantas entrevistas vocês viram de Dalton Trevisan? Quantas matérias? Apenas duas que eu conheça. Uma que a Folha de São Paulo tentou fazer em 1997 e outra que a revista Época realizou em 1998. Todas unilaterais, ou seja, nenhuma palavra de Dalton a respeito, apenas fotos.

Sabe-se que ele tem um hábito vampiresco que ainda dá pistas de sua existência. Todos os dias vai à livraria de um amigo na Rua 15 de Novembro, em Curitiba para comprar alguns livros. Essa é a única hora que o vampiro mostra a cara.

Mas, para falar a verdade, isso não importa pois, como já disse, apenas serve para mitificar ainda mais sua obra. O que importa é o conteúdo de suas pequenas e atordoantes narrativas. Se você quiser saber o que acontece na casa ao lado da sua, com aquele vizinho que não troca nem oi com você, ou com aquele casal que vive brigando e soltando ofensas e palavrões pela rua, leia qualquer um de seus contos.

Mas não pense que vai encontrar Alices, Julias, Márcias ou Andrés, Ronaldos e Ricardos. Em 99% dos contos os personagens são João e Maria, as incógnitas que acabam tendo tanta personalidade que revelam nossa particularidade e se tornam universais. O ambiente não é a casa da burguesia, mas sim o casebre da periferia onde animais e homens têm as mesmas manias e vivências.

Mas onde está o Vampiro? O vampiro na verdade é o livro. Seus dentes o conto, suas garras, a linguagem. Quem procura o vampiro é o leitor que se vicia e se deixa morder a cada linha lida e como um animal enfurecido se reconhece naquele mundo de embriaguez e podridão.

 

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