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Quem
tem medo do Vampiro?
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Capa do livro
O Vampiro de Curitiba
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Por
Carlos Lopes
Em época de Halloween é muito comum lembrarmos de figuras
lendárias e enigmáticas como lobisomem, bruxas, duendes
e monstros. Quando chega essa época eu acabo lembrando de uma figura
enigmática também e que também é conhecida
como Vampiro, mas o Vampiro de Curitiba.
Dalton Trevisan é um dos escritores brasileiros mais injustiçados
pelo público e mais aclamado pela crítica. Já passou
pelas mãos da maioria dos críticos literários de
nossa época como Álvaro Cardoso Campos, Massaud Moisés,
Bertra Waldman, Antônio Cândido, Alfredo Bosi, entre outros.
Todos com grande admiração pela sua obra.
Já escreveu mais de 25 livros, a maioria de contos, dois de Hai
Kai - ou o que ele mesmo chama de mini-contos - e um romance. Já
ganhou vários prêmios Jabuti, com Cemitério de
Elefantes ou Novela Nada Exemplares, por exemplo, e já
virou filme com A Guerra Conjugal. Seus livros já foram
publicados em várias línguas, inclusive o árabe.
Daí você pode pensar: Com tanto gabarito, como eu não
conhecia Dalton Trevisan ainda?
A resposta é simples. Ele mesmo não quer ser conhecido.
Isso é privilégio para poucos. Dalton sempre teve um cotidiano
de reserva e obscuridade que fez dele e de sua literatura um mito. É
sabido que de sua casa ele não sai. Quantas entrevistas vocês
viram de Dalton Trevisan? Quantas matérias? Apenas duas que eu
conheça. Uma que a Folha de São Paulo tentou fazer em 1997
e outra que a revista Época
realizou em 1998. Todas unilaterais, ou seja, nenhuma palavra de Dalton
a respeito, apenas fotos.
Sabe-se que ele tem um hábito vampiresco que ainda dá pistas
de sua existência. Todos os dias vai à livraria de um amigo
na Rua 15 de Novembro, em Curitiba para comprar alguns livros. Essa é
a única hora que o vampiro mostra a cara.
Mas, para falar a verdade, isso não importa pois, como já
disse, apenas serve para mitificar ainda mais sua obra. O que importa
é o conteúdo de suas pequenas e atordoantes narrativas.
Se você quiser saber o que acontece na casa ao lado da sua, com
aquele vizinho que não troca nem oi com você, ou com aquele
casal que vive brigando e soltando ofensas e palavrões pela rua,
leia qualquer um de seus contos.
Mas não pense que vai encontrar Alices, Julias, Márcias
ou Andrés, Ronaldos e Ricardos. Em 99% dos contos os personagens
são João e Maria, as incógnitas que acabam tendo
tanta personalidade que revelam nossa particularidade e se tornam universais.
O ambiente não é a casa da burguesia, mas sim o casebre
da periferia onde animais e homens têm as mesmas manias e vivências.
Mas onde está o Vampiro? O vampiro na verdade é o livro.
Seus dentes o conto, suas garras, a linguagem. Quem procura o vampiro
é o leitor que se vicia e se deixa morder a cada linha lida e como
um animal enfurecido se reconhece naquele mundo de embriaguez e podridão.
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