22.01.04

Caixa postal

Por Juliana Monachesi

"Otto, segundo me consta, hoje já é outro dia. Domingo de tarde, um domingo sem-vergonha, se oferecendo. Do correio, hoje, eu esperava alguma coisa de vocês aí, e o domingo trouxe só uma carta: valete de copas. Escrevi ao Etienne, ando esperando resposta, sabe se ele recebeu? O Hélio me escreveu uma carta que me deixou emocionado. Preciso escrever a ele. Vocês aí existem, estão ainda junto de mim, e uma carta como essa do Hélio é quase ele em carne e osso de tanto que ajuda e comove a gente." É Fernando Sabino escrevendo para Otto Lara Resende em carta datada de setembro de 1944. O escritor mineiro, autor de O Menino No Espelho e O Encontro Marcado, contista e cronista primoroso, denuncia em sua correspondência as agruras de todo epistológrafo: as longas esperas, o prazer de encontrar o envelope em seu nome, o desgosto de esperar pelo carteiro em vão, o convívio com as cartas mais queridas: relê-las inúmeras vezes, carregá-las feito emblemas no bolso do paletó cinza.

Sabino revela também a cobrança constante de que é alvo o correspondente, embrenhando-se em subterfúgios de amante (das letras e dos amigos), em demonstrações de amor ao ofício de escrever cartas: "Ottinho, meu nego: esta carta está interrompida há uns quatro ou cinco dias. Chegou o momento de eu te pedir desculpas pelo que você qualificou de minha 'desonestidade epistolar'. (...) Ando feito doido aqui: (...) como você vê não tenho cabeça para nada e escrevo diariamente dezenas de cartas para você sem botar no papel", explica-se em maio de 1945. Em junho do mesmo ano, inicia assim outra carta ao amigo: "Querido Otto, recebi hoje pela manhã outra carta sua. Foi tão bom que resolvi não ir trabalhar para te responder". Cartas Na Mesa, livro da correspondência ativa de Fernando Sabino aos conterrâneos Hélio Pellegrino, Otto Lara Resende e Paulo Mendes Campos desde 1943 (quando o autor tinha apenas 20 anos) até 1982 (ao Hélio), 1988 (ao Paulo) e 1992 (ao Otto), engrossa a lista de títulos dedicados à reunião de cartas trocadas entre grandes nomes da cultura.

Nos últimos anos, para mencionar apenas alguns, surgiram edições da correspondência de Clarice Lispector, entre Tchékhov e Górki, entre Tchékhov e Suvorin, entre Oscar Niemeyer e Carlos Sussekind, o segundo volume de cartas de Carl Gustav Jung, além de relançamentos, como o da correspondência de Drummond ou Cartas A Theo, de Vincent Van Gogh. As novas publicações seguem uma avalanche de lançamentos, em 2001, que trouxe desde o colossal Mário de Andrade-Manuel Bandeira até o singelo Cabral-Bandeira-Drummond. No mercado editorial internacional não é diferente, a correspondência Hannah Arendt-Martin Heidegger e Thomas Mann-Adorno foram grandes acontecimentos da literatura epistolar que repercutiram por aqui.

A próspera dedicação de editores e leitores à correspondência alheia, acompanhada do aumento de estudos acadêmicos de fôlego sobre o gênero literário, parece o último suspiro pré-capitulação ante o invento hediondo de Bill Gates: bilhetinhos apressados e mal escritos que alcançam os destinatários praticamente em tempo real. De modo quase tão apocalíptico é que anunciam a empreitada de seu livro Prezado Senhor, Prezada Senhora - Estudos Sobre Cartas as organizadoras Walnice Nogueira Galvão e Nádia Battella Gotlib: "Uma palavra sobre o sinal de alerta que, salvo engano, está na origem deste livro. Tal sinal parece ser a ameaça constituída pelo correio eletrônico, que, ao que tudo indica, fará cair em desuso a carta, esse objeto tão precioso e de tamanha fortuna, tanto para os estudos literários como para um certo estilo de elegância, como Spitzer argumentou à propósito da ilustração no 'bilhete rococó' de Voltaire".

Epístolas libertinas
A carta já ameaçou sair de moda outras vezes, basta ver o declínio dos romances epistolares desde o século de 19. Durante o século 18, o romance estruturado em correspondências trocadas pelos protagonistas era comum: Relações Perigosas (1782), de Choderlos de Laclos, Os Sofrimentos Do Jovem Werther (1774), de Goethe, marco do romantismo alemão, e Nouvelle Héloise (1761), de Rousseau, são alguns exemplos. É verdade que Drácula, a saga gótico-vitoriana de Bram Stoker, data de 1897, mas aí já estamos diante de apropriações metalingüísticas, assim como romances contemporâneos valem-se do gênero epistolar para reinventar o romantismo, como Possessão, de A.S.Byatt (transposto para o cinema por Neil LaBute), e o recente Cartas A Um Sedutor, da nossa pornógrafa maior Hilda Hilst.

Na introdução à edição brasileira de Cartas Persas (1721), de Montesquieu, um romance epistolar de fundo político (assim como Cartas Chilenas (1789), de "nosso" Tomás Antônio de Gonzaga), Renato Janine Ribeiro aponta na estrutura dos romances em forma de cartas um prelúdio à "obra aberta", tão cara à literatura do século 20, na medida em que "expõem uma mesma história segundo diversos prismas. (...) Em vez do narrador onisciente, que durante tanto tempo dominou o romance, temos uma sucessão de agentes que conhecem cada qual apenas a sua parte, o que dá ao leitor a chance de viver mais de dentro a história". O gosto pelo fragmentário talvez explique o interesse pelos livros de correspondência real de escritores famosos, em que uma história repleta de hiatos vai se tecendo ao longo das páginas, tanto do ponto de vista da crônica de costumes quanto do aspecto da vida e dos devaneios ensaísticos dos autores.

Assim é que, desde a famosa correspondência de Madame de Sévigné, marquesa na França do século 17, passando pelas cartas do marquês de Sade enviadas da prisão, confinado que esteve de 1777 a 1790, ao De Profundis (1951), de Oscar Wilde, cartas de amor e ódio endereçadas a Bosie, as mensagens pessoais dirigidas a indivíduos específicos destinam-se também a um público mais amplo. Na intensa troca de afagos e insultos, opiniões e análises literárias, notícias e bastidores, por carta, entre Sabino, Lara Resende, Pellegrino e Mendes Campos, por exemplo, é o panorama de um geração da literatura brasileira que se lê, com as inclinações políticas, as perturbações da alma (eram, os quatro "cavalheiros do apocalipse", geralmente melancólicos nas cartas) e as escolhas estéticas em debate ali diante do leitor.

Também no volume da correspondência entre os escritores russos Antón Tchékhov (1860-1904) e Máximo Górki (1868-1936), apesar de restrito a um período bastante mais curto (entre os anos de 1898 e 1902) do que aquele abarcado pela edição de cartas de Fernando Sabino, é possível acompanhar a construção de um pensamento literário que transita pela reinvenção do conto e da dramaturgia, pelas mãos de Tchékhov, e pela eclosão de um realismo socialista, pelas de Górki. Nas cartas, os autores debatem do marxismo à recepção estética, dos percalços da vida de escritor à miséria humana: "No último ato de Vânia [Tio Vânia (1897), peça de Tchékhov], quando o doutor, após uma longa pausa, fala do calor na África, eu comecei a tremer de êxtase diante de seu talento e de medo pelos homens, pela nossa vida incolor e miserável. Como aqui o sr. golpeou a alma com força e com que precisão! Seu talento é enorme. Mas, escute, o que o sr. pretende conseguir com tais golpes? O homem ressuscitaria com isto? Somos gente deplorável, sem dúvida, gente 'aborrecida', sombria, abominável. E é necessário ser um monstro de virtude para amar, lamentar e ajudar a viver estes desprezíveis sacos de tripas que somos. Entretanto, de qualquer forma, as pessoas são de causar pena", escreveu Górki em novembro de 1898.

Há os conselhos do escritor mais velho ao principiante, fazendo ecoar as Cartas A Um Jovem Poeta, de Rilke. Górki envia a Tchékhov seus contos e pede uma opinião sincera, que este, vendo em Górki um verdadeiro talento, não constrange-se em fornecer: "(...) na minha opinião falta-lhe contenção. O sr. é como o espectador num teatro que manifesta seu entusiasmo de maneira tão desenfreada, que impede a si e aos outros de ouvirem" (dezembro de 1898); "Outro conselho: ao fazer a revisão, corte, onde puder, os atributos dos substantivos e dos verbos. Você coloca tantos atributos que a atenção do leitor dificilmente se orienta e ele se cansa. (...) Isso não entra logo no cérebro, e a literatura deve entrar imediatamente, num segundo. Depois, ainda uma coisa: você é um lírico por natureza. O timbre de sua alma é macio. Se você fosse compositor, evitaria escrever marchas. Xingar, alvoroçar, insultar, fustigar com fúria, isto não é peculiar ao seu talento. Daí você compreenderá o meu conselho de não poupar, na revisão, 'filhos de uma cadela', 'cão' e 'matilha de patifes', que se vislumbram aqui e ali nas páginas de Jizn [revista para a qual ambos escreviam]" (setembro de 1899).

No ensaio "Carta E Literatura" que precede a edição da correspondência Tchékhov-Górki, a organizadora Sophia Angelides (especialista em literatura russa) fala da leitura coletiva de que são freqüentemente objeto as cartas de escritores (como Sabino muitas vezes comenta em suas cartas aos amigos, contando da roda de literatos para quem leu determinada carta em voz alta) e sobre o espaço de experimentação de linguagem em que se constituem: "As cartas são lidas não apenas pelos destinatários e são avaliadas como produções literárias nas cartas de resposta. Essa observação é confirmada no artigo de Alekséiev, onde se lê que as cartas de Púchkin, Viázemski, A.I. Turguêniev e de seu grupo literário, não raro eram escritas com intenção de uma publicação futura, lidas em voz alta e passadas de mão em mão nos círculos íntimos. Elas continham comentários da vida social, exposição de idéias, de sentimentos, de convicções políticas, enfim, eram extremamente diversificadas. Por outro lado, constituíam muitas vezes uma espécie de campo experimental para inovações estilísticas e para o exercício da linguagem oral, desenvolta, viva e sonora".

Passar de mão em mão uma carta, ou passar de mão em mão esse livro do Sabino... as cartas criam cumplicidades silenciosas. Mas também prescindem de cúmplices, como no filme de Moretti que nos ensina quão catárticas sãs as cartas escritas e nunca enviadas.

 

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