Março / 2003
Capa do livro

Esquerda volver


Por Fabio Diaz Camarneiro

Em 1º de janeiro de 2003, 14 anos e três eleições após sua primeira candidatura, Luis Inácio Lula da Silva foi empossado Presidente da República. O país viveu um arroubo de nacionalismo que há tempos não se via: ser brasileiro passou a ser, mesmo que por alguns instantes, motivo de orgulho.

Pouco mais de um mês depois, os discursos do Presidente Lula no Fórum Social Mundial em Porto Alegre e no Fórum Econômico Mundial em Davos consolidaram sua posição como um dos grandes líderes de esquerda no cenário internacional. O jornal francês Le Monde chamou Lula de "professor".

Mas essa "esquerda" concebida por Lula é muito diferente daquela imaginada por Italo Calvino. O escritor italiano (nascido em Cuba) filiou-se ao Partido Comunista Italiano aos 22 anos. Afastou-se do PCI em 1957, com uma carta publicada em 7 de agosto em L'Unita, o jornal oficial do Partido. Naquela época, o partidão vivia uma de suas mais graves crises, quando vieram a público os crimes cometidos por Josef Stalin na União Soviética.

Em 1953, Calvino participou como escrutinador (uma espécie de fiscal) durante as eleições nacionais. Ele ficou responsável pela seção do Cottolengo, um dos hospícios mais famosos da Itália. Quando alguém não bate bem da cabeça, os italianos logo tascam: "manda pro Cottolengo!"

A experiência marcou Calvino a ponto dele ter ficado meses sem conseguir escrever sobre o assunto. Apenas 10 anos mais tarde aparecia La Giornata Di Uno Scrutatore, agora publicado no Brasil, na tradução de Roberta Barni.

Amerigo Ormea é um membro do PCI que vai trabalhar como escrutinador no Cottolengo, onde grande parte dos eleitores precisa de ajuda no momento do voto: uma "ajuda" que notoriamente acaba se revertendo em votos para o Partido Democrata Cristão. A função do escrutinador seria, a princípio, evitar esse tipo de fraude e garantir que os votos representem unicamente a vontade do eleitor - desde que, claro, ele tenha condições de manifestar essa vontade.

Mas Amerigo não é um comunista como manda o estereótipo. Após alguns instantes dentro do Cottolengo, as freiras, o comunismo, o sufrágio, tudo começa a perder o sentido. Por que votar se todos já sabem o resultado? Por que exigir que uns poucos votos dentro de um hospício sejam considerados inválidos, se isso não mudará nada no curso das eleições? Avança-se um pouco mais, Amerigo faria eco com Winston Churchill: "a democracia não é a melhor forma de governo da qual dispomos, é apenas a menos pior".

A alienação de quem mora dentro do Cottolengo parece cada vez mais a alienação de quem está do lado de fora. O hospício, pensa Amerigo, "poderia ser o único mundo no mundo se a evolução da espécie humana tivesse reagido diferentemente a algum cataclismo pré-histórico ou a alguma epidemia... Hoje, quem poderia falar de deficientes, idiotas, deformados, num mundo inteiramente deforme?"

E será que o mundo não é inteiramente deforme? Como disse Sartre, "o inferno são os outros". Uma das coisas mais difíceis no convívio social (e político) é saber respeitar as diferenças. Como pensar em um mundo melhor se "o mundo" termina sempre elegendo os políticos menos honestos, as figuras mais corruptas e despreparadas?

Enquanto o dia do sufrágio passa, Amerigo cada vez mais duvida das razões de seu trabalho. Mas aprende, entre outras coisas, a encarar com respeito e admiração a dedicação estóica das freiras que trabalham no Cottolengo. Apesar disso, ele não se furta a fazer uma ressalva: enquanto elas praticam o bem para poucas pessoas, o comunismo prega um bem maior, geral, coletivo.

Essa tensão entre público e privado é um dos temas principais do livro. Amerigo tem uma namorada que lhe guarda uma surpresa. Após essa revelação, o protagonista repensa esse "bem-estar do mundo" como algo distante e inatingível. Ele é arremessado aos pensamentos mais mesquinhos e cotidianos ou, nas palavras do narrador: "Como poderia agora voltar para as leituras, para as reflexões universais?"

Calvino parece querer dizer que o fim de todas as utopias (que pensam o mundo em termos abstratos, feitos às vezes da mais bela poesia) está exatamente onde começa a realidade. Longe de pregar uma atitude apolítica ou alienada, O Dia De Um Escrutinador mostra que talvez sejamos todos loucos e só nos resta o dia-a-dia em seus aspectos mais comezinhos.

Assim também Lula, deixando de lado os sonhos comunistas, tenta apenas construir um país mais justo dentro de todas as limitações: os problemas herdados do governo anterior (desemprego alarmante e altas taxas de juros), o endividamento externo, a suscetibilidade aos mercados internacionais, as pressões políticas internas e a crescente miséria do país.

Nas eleições de 2002, o Brasil mostrou que sim, que apesar de tudo um voto faz a diferença. Mas o que Calvino tenta nos lembrar é que escolher um número e apertar a tecla "confirma" é ainda muito pouco. O que os comunistas demoraram a entender é que política não se faz com a cabeça nas nuvens, mas com os pés no chão. Ou, talvez, com um olho nas nuvens e outro em terra firme; pensando o universal sem jamais negligenciar o que é individual.

O Dia De Um Escrutinador, Italo Calvino
Tradução: Roberta Barni. Companhia Das Letras, 96 p. R$ 21.

 

Também nesta edição:

Bizarre, Monstro e midsummer se unem e prometem sacudir o mercado independente

Ian Svenonius (ex Make Up) fala sobre Weird War e usa a acidez como ferramenta política

Com 13 indicações ao Oscar, Chicago mistura a magia dos musicais à lógica MTV

Inglaterra assiste da arquibancada a nova onda de rock americano

O show e o álbum Frantic confirmam a volta ŕ melhor forma de Bryan Ferry

Instituto inventa na produção e nas fusões de hip hop com outros ritmos

Cat Power se liberta aos poucos da melancolia em seu disco mais recente

Ativista do movimento Stop The War defende uso da música como arma

Novo disco do Massive Attack parece dizer que o trip hop morreu

Adaptação é metalinguagem sobre a batalha entre o artístico e o popular

O Pianista redime Polanski e a História, mas será que um final feliz basta?

João César Monteiro deixa lições de genialidade e ousadia no cinema