Dezembro / 2002

O olhar homoerótico de Andy Warhol

Cena de My Hustler

Por César Maturano


Filmes de Andy Warhol, raramente exibidos fora do circuito acadêmico norte-americano e europeu, foram uma atração à parte na 10ª edição do Festival Mix Brasil de Diversidade Sexual, que ocorreu entre os dias 12 e 24 de novembro, em São Paulo. A mostra paralela Homofilmes de Andy Warhol, composta de sete produções sessentistas bastante representativas da cinematografia de Warhol (cerca de 50 filmes), foi apresentada em quatro programas sobre a curadoria de Roy Grundman, entre os quais foram exibidos os longas-metragens My Hustler (1965), Vinyl (1965), Screen Test (1965), Bike Boy (1967) e os curtas-metragens Blow Job (1964), Haircut (1963) e Mario Banana (1964).

Homoerotismo, minimalismo e pop-art
Andy Warhol parece tratar nessa primeira fase de sua produção cinematográfica dos primórdios da obsessão da cultura americana na década de 60 com a masculinidade e a homossexualidade. Os tópicos predominantes nas produções selecionadas são os chamados teasers sobre bofes e filmes criados a partir de um roteiro engraçado e dramático e subvertidos pela presença de artistas absurdos "descobertos" em Nova York.

Roy Grundmann, curador da mostra, um dos principais especialistas na obra de Warhol e professor titular da Boston University, apresentou cada uma das sete produções antes de cada sessão e também respondeu a questões levantadas pela platéia ao término de cada projeção. "As pessoas devem apreciar esses filmes pela sua beleza visual", atenta Roy Grundmann, já no Programa 1 - composto por Blow Job (1964) e My Hustler (1965).

Embora os filmes tenham sido produzidos com recursos escassos — com câmera 16 mm, freqüentemente em preto-e-branco, com imagens paralisadas (como fotos) e às vezes sem som, o cineasta Andy Warhol esteve sempre "preocupado com a elegância das imagens e o seu visual", enfatiza Grundmann.

As produções dessa primeira fase tinham temas únicos, eram mudos e alguns chegavam a ter um longo tempo de duração, onde curtas viravam médias-metragem. "Esses filmes de Warhol são minimalistas, mas também apropriados aos temas populares de suas obras, como a pop art", argumenta Grundmann.

O clássico Blow Job (1964) representa bem essa fase. Durante 36 minutos, a câmera paralisada de Warhol foca o rosto de um belo rapaz que está, supostamente, recebendo sexo oral. Grundmann explica que "o ator se assemelha muito com James Dean ou às vezes com qualquer adolescente rebelde ou até mesmo com Cristo, que são figuras que se transformaram em símbolos da cultura pop".

Também representativos, desse mesmo período minimalista, estão os curtas-metragem : HairCut # 1 (1963, 16 mm, 24 min.), no qual o fotógrafo Billy Name aparece numa intensa alusão homoerótica representada pelo corte de seus cabelos; e Mario Banana (1964, 16mm, 4 min.), que mostra Mario Montez, um conhecido performer da cena alternativa de Nova York, usando uma bela peruca enquanto come uma banana de modo bem sugestivo.

Estudos da personalidade humana
Nas produções imediatamente posteriores, Andy Warhol passou a fazer filmes mais focados nas pessoas, indicando como poderia ser estafante sentar em frente a uma câmera e fazer uma performance sem script ou falas. "Essas produções são interessantes como estudos da personalidade humana", afirma Grundmann.

My Hustler (1965), revela Grundmann, exacerba um olhar etnográfico, mostrando uma conexão entre Fire Island e o Brasil, sugerida no olhar do observador estrangeiro, alheio, atento e estudioso, fazendo alusão aos relatos de Levis-Strauss sobre o nosso país. Desse modo, o michê ao ser observado em Fire Island é dissecado por esse olhar. O curador escancara ainda mais a conexão, atentando para o fato de que "é comum ver nos passeios de Fire Island, assim como em Copacabana, não as mães empurrando os carrinhos de seus bebês, mas os gays arrastando seus carrinhos de compras", exacerbando a obsessão com relação ao mercado dos corpos.

É bastante perceptível esse mesmo olhar investigador da personalidade humana, também no filme Screen Test (1965); no qual Mario Montez é submetido a inúmeras perguntas humilhantes feitas por uma voz em off, como se estivesse participando de um teste para uma produção hollywoodiana. O ator, ao ser dirigido pela voz em off, incorpora papéis tão bizarros quanto patéticos - representa uma pessoa que odeia a todos, por exemplo, para na seqüência representar o oposto: uma pessoa amada e admirada por todos; imita animais; faz o diabo, ou melhor, come o próprio pão que o diabo amassou. Essa talvez seja a produção mais hilária dentre as exibidas, nas quais Warhol faz experimentos com o gênero comédia.

Em Vinyl (1965), Warhol enfoca um dos temas que mais o interessa, o sadomasoquismo. O filme é uma espécie de adaptação homoerótica do livro Laranja Mecânica, de Anthony Burgess. O olhar do pesquisador continua presente e investigador, examinando o prazer e a dor, o fetiche e a violência, num misto de drama e comédia.

Em Bike Boy (1967), Warhol mescla documentário e ficção, em cenas de homoerotismo puro, filmando o ciclista Joe Spencer em diversas situações do cotidiano: tomando banho, vestindo-se, visitando a Factory e conhecendo muitas de suas personalidades - o que chega a criar um certo desconforto ao ciclista-personagem. "Os primeiros minutos que mostram ele tomando banho são a mãe de todos os comerciais de Calvin Klein", frisa Grundmann, revelando que as produções de Warhol sempre reconheceram e nunca tiveram vergonha de mostrar a beleza viril dos rostos e dos corpos de seus atores, nunca omitiram o voyerismo sempre sugestionado, o olhar platônico com o qual se observa o belo, a beleza masculina.

Warhol e o underground
Em 1965, o já consagrado artista plástico e um dos grandes mentores da Pop Art fez novas investidas no campo das artes. Desta vez, fazendo sua incursão no cinema alternativo e produzindo a mais vanguardista e influente banda do underground nova-iorquino de todos os tempos - Velvet Underground.

Para promover seus filmes, ou melhor, para divulgar o então iniciante grupo liderado por Lou Reed e John Cale, o cineasta organizava inúmeros happenings em discotecas e cinemas antigos para que as suas películas fossem projetados sobre os músicos durante os shows. Quem não conhece o álbum da banana - The Velvet Underground & Nico - assinado e produzido por Andy Warhol?

Warhol soube como ninguém trazer do seu talento publicitário os elementos necessários para produzir e atrair os olhares para a sua produção artística, que mesmo underground, soube chegar ao mainstream. Talvez tenha inventado o que hoje denominarmos de artista multimídia - artista plástico, cineasta, publicitário, produtor musical. O que Andy Warhol não foi?

 

 

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