13.10.03

Quem é malandro, quem é mané?

O encontro de Nando e PQD

Por Babi Lopes e Katia Abreu

O grande trunfo de Seja O Que Deus Quiser, o novo filme de Murilo Salles, é a subversão de estereótipos, não só pela caracterização dos personagens, mas por mostrar que filmes-para-adolescentes-com-a-estética-MTV não precisam ser idiotas. Na trama, o músico PQD (Rocco Pitanga, irmão da Camila), morador do Complexo do Alemão no Rio de Janeiro, vem a São Paulo para explicar o mal-entendido que fez com que uma VJ da MTV (Cacá, interpretada pela ex-VJ Ludmila Rosa) o denunciasse à polícia. Em São Paulo, o carioca se torna uma espécie de refém tanto de Nando (Caio Junqueira), irmão da VJ, quanto do acaso.

Comecemos pelos padrões clássicos de paulistas e cariocas. Ao invés de sérios, trabalhadores e CDFs, os paulistanos do filme são jovens clubbers, hedonistas, individualistas, irresponsáveis. Já o carioca é comportado, não usa drogas e reluta em participar dos esquemas propostos (assaltos, seqüestros) pelo filhinho-da-mamãe Nando. É ele que quer a todo custo arranjar dois mil reais para comprar "pastilhas". (A propósito, um outro tipo de comprimidos - o famigerado Lexotan - é a compulsão da mãe de Nando e Cacá, vivida por uma impagável Marília Pêra.) È o menino de classe média quem bola o esquema que vai colocar PQD em mais enrascadas no final da história. É também ele quem vai tentar capitalizar em cima disso depois.

Os papéis de bandidos e mocinhos, malandros e manés são trocados. O morador do morro chega a ser ingênuo, enquanto Nando pensa o tempo todo em bussiness. Até mesmo uma pacata senhora, quando abordada em uma tentativa-de-assalto-brincadeira mostra seu lado violento, sacando uma 38 e atirando nos supostos bandidos, sem traumas.

Os personagens não têm moral, exceto PQD que passa todo o tempo tentando ficar de fora ou se livrar de problemas criados pelos outros. Não há culpa em Cacá, quando ela deixa o marido (ou algo que o valha) em São Paulo e trepa com PQD. Não há crises no relacionamento aberto e promíscuo de Nando e Ruth (Débora Lamm), jovens muderrnos. Não há desespero na mãe naturalmente histérica quando recebe a notícia de que o filho foi seqüestrado. Mais um filme a se juntar a Amarelo Manga e O Invasor, para citar dois exemplos, na galeria do novo cinema nacional - urbano, pertubador e sem redenção.

Mesmo sem pretender retratar com exatidão a realidade (a narrativa tem estrutura de fábula), fica a sensação de familiaridade. Em parte porque Seja O Que Deus Quiser foi quase todo filmado em locações. Como o diretor Murilo Salles disse em entrevista à Folha de S.Paulo, "o morro do Alemão é o morro do Alemão, a MTV é a MTV e o Bingo Augusta é o Bingo Augusta". A música se encarrega de fazer a transição do subúrbio carioca (funk) para o caos paulistano (drum'n'bass). Assinada pelo Instituto, a trilha sonora inclui ainda uma versão nervosa de "Rua Augusta", com vocais de Funk Buia do Záfrica.

Por não mascarar o cinismo e a falta de escrúpulos dos personagens e nem procurar justificá-los, Seja O Que Deus Quiser passa incólume pelo risco de ser um filme "descolado", sem, ao mesmo tempo, se deixar tentar pela "denúncia social". Mesmo quando a turminha de São Paulo parece exagerada, caricata e afetada demais, não deixa de ser verossímil. Quem conhece a night paulistana já viu tipos assim - pode perguntar para a Erika Palomino.

 

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