![]() |
|
Abril
/ 2003
|
|
A
caverna de Soderbergh Imaginemos
um destes cativos desatado, obrigado a levantar-se de repente, a volver
a cabeça, a andar, a olhar firmemente para a luz. Não poderia
fazer tudo isso sem grande pena; a luz, sobre ser-lhe dolorosa, o deslumbraria,
impedindo-lhe de discernir os objetos cuja sombra antes via.
No Livro VII de A República, Sócrates explica para Glauco que existimos como prisioneiros de um mundo ilusório. Tudo que vemos a nossa frente não passa de sombras que tomamos como verdade. O único caminho possível rumo à liberdade seria o da ciência e do conhecimento. A partir desse famoso diálogo, professores de filosofia em todo o mundo ensinam "o mito da caverna". Platão defende que o único mundo "real" é o mundo das idéias, sendo nossa realidade nada além de uma ilusão mal feita. Essa concepção platônica de mundo mais tarde inspiraria o cristianismo e encontraria semelhanças com o budismo e outras correntes de pensamento orientais. Mas o que isso tem a ver com Solaris, novo filme de Steven Soderbergh, baseado no livro homônimo escrito por Stanislaw Lem em 1961 (agora relançado pela Relume Dumará, R$ 38) e anteriormente levado às telas pelo russo Andrei Tarkovski? A história se passa em um futuro não muito distante, quando o psicanalista Chris Kelvin (George Clooney) é enviado rumo a uma estação espacial, na órbita do planeta Solaris, para tentar descobrir as causas do estranho comportamento da tripulação. Ao chegar à estação, Kelvin começa a perceber que Solaris tem uma estranha influência sobre a mente das pessoas. Cada tripulante recebe um "visitante" - espécie de duplo criado a partir de uma memória. A "visitante" de Kelvin é sua falecida esposa Rheya (Natascha McElhone) que, ao aparecer pela primeira vez, é ejetada para o espaço pelo confuso Kelvin. No dia seguinte, ainda sem entender o que está acontecendo, ele encontra outra (ou seria a mesma?) Rheya em seu dormitório. Negando sistematicamente alguns clichês do gênero - cenas de ação, perseguições, batalhas estelares, monstros, aliens malvados - Solaris está muito mais próximo de 2001 - Uma Odisséia No Espaço (que obviamente inspirou a cena da chegada da nave à estação espacial) e, claro, da versão de Tarkovski, filmada em 1971. A discussão aqui é filosófica e, em última instância, está em jogo a velha questão platônica: nosso mundo é real ou vivemos uma ilusão? Diferentemente do filme de Tarkovski, de conotação fortemente política, Soderbergh realça a história de amor entre os personagens principais e apresenta em flashback a história desse romance (que não existia no filme de 71). A força desses trechos vem principalmente da dimensão trágica das histórias que, sabemos de antemão, terão um desfecho infeliz. Em Desencanto (Brief Encounter), de David Lean, uma pacata dona de casa vive um caso extraconjugal mas, ao final, acorda de seu "sonho" de volta à realidade. Ali também, de antemão, sabemos que o romance termina de forma infeliz. (Uma coisa bela no filme de Lean é a condescendência que o marido demonstra na cena final, quase como se dissesse que "sonhar é necessário, mas acordar é mais".) Solaris é uma fábrica de sonhos? Se for, por que acordar? A situação provocada pelo planeta é ambígua porque, ao mesmo tempo que Kelvin possui uma pulsão de morte (ele quer que o tempo pare para poder continuar sonhando com a felicidade reencontrada), há uma pulsão de vida (sua esposa "ressuscita") - e o maior mérito do filme de Soderbergh é conseguir mostrar tudo isso através de imagens. Os limites da apreensão do mundo, tema privilegiado pela filosofia e um dos temas centrais do livro de Stanislaw Lem, traduz-se através da pouca profundidade de campo. Em várias cenas, há muita coisa fora de foco. Na Terra, quando Kelvin está na rua ou no trem, o tempo e o espaço se tornam ambíguos. Durante todo o filme, entre uma cena e outra é quase impossível determinar o tempo que se passou na história. Isso porque Soderbergh abusa do "faux raccord", uma espécie de "corte fora de hora", que torna a montagem menos fluida, confundindo a percepção de tempo do espectador. Em determinado momento, o próprio Kelvin se pergunta: "Quanto tempo estive fora?" O mundo construído por Soderbergh torna-se cheio de "buracos" (no tempo e no espaço) que serão preenchidos pela imaginação do espectador. Ou, em outras palavras, pelos sonhos do espectador. O cinema é a arte perfeita para discutir os limites entre sonho e realidade pois, ao mesmo tempo em que é aquela que mais se aproxima do onírico, utiliza como matéria-prima a fotografia, registro fiel da realidade. O que vemos na tela é sempre real. Como disse Godard, "o cinema é a verdade a 24 quadros por segundo". (Mas o que vemos na tela também é sempre irreal e, anos mais tarde, o próprio Godard diria que "o cinema é a mentira a 24 quadros por segundo".) Rheya, portanto, é a representação da ilusão. Viver essa ilusão significa escapar do tempo e, no limite, da História. É tornar-se prisioneiro de um mundo onírico, em que tudo se limita ao prazer. Rheya é também arte em estado pleno: pensamento transformado em realidade. Viver essa arte seria abrir mão de toda a noção de sociabilidade, uma espécie de esquizofrenia estética particular - uma experiência muito próxima a viver no mundo contemporâneo, em que tudo se torna estetizado, o engajamento político é desencorajado, a busca desenfreada pelo prazer é o mote, as interpretações subjetivas valem mais que a precária "realidade". Ilusão ou realidade? (A pergunta lembra o Morpheus de Matrix oferecendo pílulas ao confuso Neo...) Segundo Platão, a escolha causa "grande pena". A verdade deslumbra e, num primeiro momento, confunde. Ou, como diria o marido traído no filme de David Lean, "sonhar é necessário, mas acordar é mais..." Ao final de Solaris, Kelvin toma sua decisão. Qual será a nossa? Leia também: |
Também
nesta edição:
Radiohead
revisita o passado e amadurece experimentações em Hail
To The Thief
Frida
e A Arca Russa tentam o impossível: levar as artes plásticas
ao cinema
Melancolia
e inadequação unem
Morrissey, Nick Drake Crepúsculo
Dos Deuses já escancarava lado podre de Hollywood em 1950
Atração
do Skol Beats, líder do Stereo
MC's fala sobre os 18 anos de carreira do grupo
Twee
pop injeta açúcar e ingenuidade na música e cria
"peste cor-de-rosa"
Livro
de Ernesto Sabato critica o racionalismo
e analisa crise do romance
Polanksi
afirma em Deborah
Colker dialoga com artistas plásticos no novo espetáculo
4x4
No
leito de morte, Timothy Leary conta
como escapar da ilusão do consenso
|