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11.01.04
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Sganzerla anti Sganzerla Por
Fabio Diaz Camarneiro *
Orson Welles desembarcou no Rio em 1942, parte dos esforços da Política de Boa Vizinhança entre Brasil e EUA. Em uma festa no Cassino da Urca, que reuniu a nata da sociedade artística e política da então capital federal, o diretor de Cidadão Kane chamava o país de "my Brazil".
Welles filmou o Carnaval carioca, a mineira Ouro Preto e jangadeiros em Fortaleza para o que seria It's All True, filme encomendado pelo estúdio RKO. Mas, na verdade, o intuito secreto dos produtores americanos era afastar Welles dos EUA para, à revelia do diretor, remontar e lançar seu segundo longa-metragem, Soberba (título brasileiro para The Magnificent Ambersons).
Welles chegou no Brasil festejado. Era o garoto prodígio que, com apenas 26 anos e após uma retumbante carreira no teatro (com suas montagens de Shakespeare) e no rádio (a famosa adaptação de A Guerra Dos Mundos), realizou Cidadão Kane, o maior marco da história do cinema mundial. Ao deixar o país, cinco meses mais tarde, o fracasso de Soberba nas bilheterias e os incidentes nas filmagens de It's All True terminaram por fazer de Welles um pária indesejado pela indústria cinematográfica.
Esta é uma terra de fracassados.
O Bandido Da Luz Vermelha, outro fracassado. Com "26 anos e 26 mortes", o personagem do primeiro longa de Rogério Sganzerla, lançado em 1968, define-se como "uma besta". O Bandido Da Luz Vermelha, "um filme de cinema de Rogério Sganzerla", um faroeste sobre o Terceiro Mundo. Filme-mosaico, colagem pop sobre uma São Paulo quase mítica. Como se o Ferdinand do Pierrot Le Fou de Godard encontrasse o Hank Quinlan de Welles em A Marca Da Maldade. Encontro furtivo em um depósito de lixo qualquer chamado "Brazil".
Sganzerla rendeu-se ao humor das chanchadas, com seus personagens caricaturais e de grande fama popular. Rendeu-se ao pendor antropofágico ao misturar, no caldeirão de O Bandido Da Luz Vermelha, Cinema Novo e rock and roll, Acossado e Cidadão Kane (novamente a dobradinha Godard / Welles), delírio e realidade, Terceiro Mundo e cinema.
O filme foi um divisor de águas entre o Cinema Novo e a geração que o sucedeu. A relação de paternidade de Sganzerla com Glauber Rocha fica explícita, em O Bandido, no uso do mesmo toque de candomblé de Terra Em Transe (1966). Mas, enquanto Glauber e seus pares acreditavam no país, imaginando que um dia "o sertão vai virar e o mar virar sertão", Sganzerla e sua trupe entendia o Brasil como uma terra de fracassados.
Poucos meses depois do lançamento de O Bandido, o governo do General Costa e Silva decretou o final da partida. O AI-5 foi a derrota final, o golpe de misericórdia. Sganzerla estava certo: o Terceiro Mundo realmente estava prestes a explodir - e a única solução possível era esculhambar. Essa esculhambação, grito desesperado por liberdade, manifestou-se em uma série de filmes "sujos", repletos de lixo, sobras de uma geração morta. Realizados principalmente no começo dos anos 70, ficaram conhecidos como "Cinema Marginal".
O fracasso não tem fim.
Logo depois de O Bandido e A Mulher De Todos, Sganzerla foi para o Rio e se associou a Julio Bressane na produtora Belair. Em três meses, a produtora realizou seis longas. Entre eles, Sem Essa Aranha, de Sganzerla, montado em longos planos-seqüência e com a participação de Jorge Loredo, o Zé Bonitinho, e dos músicos Luís Gonzaga e Moreira da Silva. Depois, com a situação do país cada vez mais preta, Sganzerla achou melhor esculhambar em outros idiomas e partiu para o exílio.
De volta ao país, Sganzerla retornou à obsessão: a passagem de Welles pelo Brasil. Entre as décadas de 80 e 90, o diretor fez um curta (Linguagem De Orson Welles) e dois longas (Nem Tudo É Verdade e Tudo É Brasil) sobre o tema. No fim do ano passado, coroando sua carreira e às vésperas do lançamento em DVD de O Bandido Da Luz Vermelha, Sganzerla terminou outro longa sobre Welles, O Signo Do Caos.
O filme é construído sobre repetições - como o próprio cinema brasileiro que, à parte todas as suas "ressurreições", insiste em voltar à estaca zero. O Signo Do Caos é, portanto, o anticinema, o filme contra todos os filmes que estão por aí. É a provocação necessária, gritando em alto e bom Dolby Stereo que esculhambar é preciso, viver não é preciso.
Na primeira parte do filme, em belíssimo preto e branco de influência expressionista, um inspetor do governo interdita as imagens de Welles apenas por elas não mostrarem o Brasil utópico de tons aquarelados imortalizado na canção de Ary Barroso (e, diga-se, nem o Brasil utópico e socialmente mais justo sonhado pelo Cinema Novo). Na segunda parte, colorida, Sganzerla denuncia a falta de personalidade dos nossos cineastas. A festa em que os bacanas entornam garrafas de champanhe é a comemoração de nossa mediocridade, o fascínio pelo borbulhar dos prêmios em festivais de cinema de segunda categoria.
O Signo Do Caos se autoproclama o "antifilme de Rogério Sganzerla". Mas no Brasil, o antipaís, terra de fracassados crônicos, ele é o filme possível, marco inaugural de uma cinematografia. Explosão em forma de cinema que teve início com as fagulhas deixadas por Welles em sua passagem por aqui.
No fim da vida, lutando contra um câncer, parece que finalmente Sganzerla tinha alcançado o reconhecimento merecido. Poucos perceberam que o Terceiro Mundo já explodiu. O que nos resta - e não precisamos de mais nada - é a lucidez caótica do cinema de Rogério Sganzerla.
* Publicado originalmente na edição impressa da B*Scene
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