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08.01.04
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Feliz Natal, a guerra acabou
Por
Igor Kupstas
Os 30 minutos extras de A Sociedade Do Anel são dedicados aos fãs dos livros de Tolkien. O filme já era o mais comprido (no sentido figurado) da trilogia. Em termos hollywoodianos, é um ultraje uma produção de ação levar mais de hora e meia para finalmente apresentar o grupo do título. A narrativa ganha detalhes, conhecemos melhor o reino dos Elfos, vemos Galadriel entregar presentes aos aventureiros e, o melhor de tudo, a cena de luta contra o Troll da Caverna, em Moria, tem mais detalhes. A abertura, com Bilbo escrevendo em seu livro e descrevendo o estilo de vida bucólico dos Hobbits, é tão meigo quanto desnecessário para quem conheceu a obra unicamente através do cinema.
Já me arrisco a dizer que a versão com 45 minutos a mais de As Duas Torres, literalmente o mais longo, é a única a ser considerada. O Duas Torres original é uma produção fascinante visualmente, mas cheia de brechas, cortes esquisitos e momentos desperdiçados.
Faramir, que segura Frodo sem motivo na versão original, ganha vida, ou ao menos justifica sua existência na produção. Um flashback de cinco minutos o mostra ao lado do irmão, Boromir (aquele que é morto no fim de Sociedade), quando este resgatou a cidade de Ithilien. O diálogo entre os irmãos, o descaso do pai, regente de Gondor, e a decisão de Faramir, ao fim do filme, de soltar Frodo, concede o toque sentimental que o reino humano precisava. Faramir enfim se prova superior em espírito ao seu irmão, Boromir, que tentou roubar o Anel. Além disso há mais momentos dos Hobbits Pippin e Merry, dos Ents, e do astro do filme, Gollum. É dose aguentar 223 minutos, por melhor que seja a cadeira, mas, mesmo assim, vira o melhor da trilogia. Provavelmente o diretor Peter Jackson foi obrigado a encurtar a obra às pressas durante seu lançamento comercial.
Tive nestes dois dias uma sensação inédita. Todos na sala conheciam os longas. Ansiavam por momentos diferentes, mas a essência era a mesma, familiar. Era como uma sala de estar gigante, em que bons amigos reviam algum clássico, quando você junta sua turma e se lança desafios bestas, como assistir a todos os Sexta-Feira 13 num dia. Os fãs, durante o intervalo de 15 minutos improvisado, se esticavam, compravam pipocas, iam ao banheiro. Como se a mãe Cinemark sugerisse uma pausa no vídeo e o momento do lanche. Havia uma camaradagem suave, um riso antes da piada, um sentimento de missão cumprida. Gente dublando falas também não faltou. Batismo feito, estavam prontos para o fim. O fim? Acabou mesmo? Não haverá um IV? Que tal um O Mago Branco Contra-Ataca? Não. Não teremos caça-níqueis, não teremos mais fins de ano baseados em Tolkien.
O interessante é pensar como Peter Jackson, o diretor de filmes trash Neozelandês, reacendeu uma chama há muito perdida. A trilogia O Senhor Dos Anéis e todo o seu marketing levaram as matinês de volta ao cinema. Matrix falhou, decepcionou, foi ambicioso demais. Matrix foi exatamente como aquele pulo de Neo, "WOW"; grande demais para as pernas. Senhor Dos Anéis foi até além das matinês. Nós nos enganamos nas matinês, queremos que haja um próximo capítulo, queremos que seja mais superficial, contínuo, eterno. Acabou. E acabou bem, por sinal, já que O Retorno Do Rei é excepcional, coeso, fascinante e emocionante.
O equilíbrio de qualidade e dedicação, o elenco perfeito, uma adaptação do texto original feita sem medo e as datas ao final do ano concederam aos filmes da obra de Tolkien uma união automática. O mesmo fanatismo cinematográfico que outras sagas tiveram e possuem até hoje, mas que suaram mais a camisa para tanto.
Claro que esta áurea foi cercada de produtos colecionáveis e ansiedade. Óbvio que os 50 anos de sucesso dos livros de Tolkien favoreceram o processo. Mas quanta coisa não poderia ter dado errado? E, quantas vezes, novamente trazendo Neo à tona, não nos prometeram filmes, sensações, novidades e sagas que fizessem alguma diferença em nossas vidas no cinema? Ame ou odeie, não importa. É valioso e justo reconhecer que Senhor Dos Anéis conseguiu penetrar no nosso calendário por mais de três anos. No mundo do tudo para ontem, O Senhor Dos Anéis foi, merecidamente, elevado ao cerimonial.
Esperamos três anos por um Star Wars, mais do que isso para os Indiana Jones e tantas outras megaproduções. Senhor Dos Anéis, mesmo não sendo minha trilogia favorita entre tantas outras franchising gringas, me acompanhou nos primeiros anos da minha vida profissional, quando pude ver os 28 minutos exibidos em Cannes, em uma cabine especial em São Paulo. Vi Duas Torres com os amigos, na estrada, no retorno do reveillon de 2002 para 2003. Muitos outros colegas e parentes fizeram o mesmo, arriscaram uma sessão no cinema do litoral, do campo, ou rapidamente correram para uma sala de exibição depois da pausa no cotidiano. Quantos outros não fizeram do Natal uma data diferente para ver o fim a coroação do Rei?
O Senhor Dos Anéis, no cinema, acima de tudo, mereceu a honra de estar no meu ano novo, entre a minha família e no meu Natal. Tenho certeza de que para muitos o sentimento é o mesmo. Feliz Natal, a guerra acabou. Que pena. A sala de estar está vazia e sem pretendentes à vista.
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