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Abril
/ 2003
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Polanski e os trilhos para lugar nenhum Por
Alex Antunes
Não é o velho e bom (ou seria o caso de dizer "jovem e mau") Polanski, anarquicamente cruel como nos tempos de Armadilha Do Destino (66), mortalmente angustiante como em O Inquilino (76), ou mesmo maduramente cínico como em Lua De Fel (92). Mas O Pianista tem lá o seu segredo "sórdido" (além de outros méritos cinematográficos evidentes): o filme honra aquilo que é mais importante para Polanski - o próprio Polanski. Essa é a diferença essencial entre O Pianista e outros dramas sobre o extermínio nazi, como A Lista De Schindler de Spielberg, por exemplo, ou mesmo A Vida É Bela de Benigni. Claro que um diretor, quando escolhe um "grande tema" realista e historicamente próximo (e o nazismo é justamente o núcleo traumático da experiência ocidental), está em algum nível falando de si mesmo, de sua visão de mundo e de sua capacidade de lidar com a esfinge da História. Assim, essa (aparente) segurança ao manipular um tema histórico recente (que provavelmente abrigará algo de ingenuidade e algo de oportunismo) fará do diretor em questão alguém mais responsável - pela própria "grandiosidade" do tema. E menos responsável - pelos limites do "politicamente correto" que um tema desses costuma autoestabelecer. A menos que se queira correr o risco da execração pública. Execração é algo que Polanski nunca temeu. Tocou com desassombro em complexos, desatinos, taras, neuroses e o próprio demônio que os alimenta em filmes morbidamente fascinantes como Repulsa Ao Sexo (65), A Dança Dos Vampiros (67), O Bebê De Rosemary (68), Macbeth (71), Chinatown (74) e os acima citados. Da década de 80 para cá, digamos que sobrou para dois americanos e um canadense - Brian DePalma, David Lynch e David Cronenberg - suprirem, a três, o que o tampinha polonês fazia sozinho em sua fase mais vigorosa (seguido à distância por uns obscuros Zulawski ou Borowkzyk). O seu primeiro longa (e único feito atrás da Cortina de Ferro) foi rodado não muito tempo depois de Polanski ter concluído a escola de cinema de Lodz. Mas nesse sensacional A Faca Na Água (62), protagonizado por um triângulo de atração e ódio em um veleiro, já ficava claro que na sua cinematografia os contextos políticos e/ ou culturais seriam pano de fundo para desgraças pessoais, narradas sempre com um gosto maldoso. Tragédias em que o narrador não se expressa com assombro diante da fatalidade, mas antes numa cumplicidade gozosa com o destino devorador. Com o filme, Polanski foi de cara notado pela imprensa americana: a revista Time estampou em sua capa uma foto de cena, ilustrando a matéria "O Cinema Como Uma Arte Internacional". Essa opção pelo foco fechado, usando a questão social mais como estopim dos embates individuais, pode também ser observada em um seu filme menor - apesar de ter Sigourney Weaver e Ben Kingsley no elenco. É A Morte E A Donzela, de 94, adaptação de peça do escritor chileno Ariel Dorfman. (O mesmo tema dos encontros fortuitos com ex-torturadores também move o sensual e perturbador O Porteiro Da Noite, 74, de Liliana Cavani, com Charlotte Rampling e Dirk Bogarde, e tem uma versão clube-do-bolinha em Ação Entre Amigos, 98, de Beto Brant.) Perfeitamente contemporânea da explosão, maturação e derrocada do pop (65-76), a primeira e principal fase de Polanski (anterior ao introspectivo Tess, 79) nunca se deixou contaminar pelos otimismos e exuberâncias da época. Globe-trotter, ele buscou dinheiro e locações na Inglaterra, França, Itália, Alemanha - e nos EUA, base de alguns de seus maiores sucessos e de todos os seus maiores problemas. Mas a visão predominante era sempre a desse misto de sobrevivente, enfant terrible, gênio da renascença e playboy internacional que Polanski se revelou. Mesmo seu único filme "solar" dessa fase (ou talvez de sempre), o destrambelhado e non-sense Que?, com Mastroianni e Sidne Rome, começa com uma tentativa (noturna) de estupro. É talvez o ponto de contato entre o cinema de Polanski e o festivismo sinistro (ou sinistrismo festivo) de Marco Ferreri (de Brinquedo Louco, Dillinger Está Morto e A Comilança). E foi também o dinheiro do produtor italiano Carlo Ponti torrado com mais malícia, exceto talvez por O Desprezo (63) de Godard.
Um casamento
e um funeral Em todos esses filmes, pontifica uma dama, ameaçada pela luxúria ou pela cobiça, real ou imaginária - a encantadora polonesa Jolanta Umecka em Faca, as irmãs Catherine Deneuve em Repulsa e Françoise Dorléac em Armadilha, Sharon Tate em Dança. Em O Bebê De Rosemary, é a vez da mais frágil e desamparada delas todas, Mia Farrow, ser ameaçada pelo próprio Satã, que a quer para mãe de seu filho. Era 1968, e um certo flerte do pop e do rock com o irracional e com o oculto (Stones, Zeppelin, King Crimson) encontrou em Polanski sua forma cinematográfica popular e contemporânea. Não foram poucos os místicos que viram no assassinato do filho de Polanski na barriga da mãe alguma espécie de acerto de contas - ou no mínimo um tipo de encrenca à procura da qual o polêmico cineasta parecia estar. Por outro lado, também pululam na vida de Polanski (a infância no gueto de Cracóvia, a fuga para o campo, a morte da mãe no campo de concentração e o reencontro com o pai ao fim da guerra, aos 12 anos, e a aproximação com o mundo das artes, como ator e depois realizador) indícios suculentos para interpretações psicanalíticas. Seu prenome, em francês, significa "romance". No próprio
território do cinema, esse Roman pode ser cotejado com mestres
em que a ironia corrige o humanismo, como Welles e Buñuel - com
algo do engenho de Hitchcock e Kubrick. Mas principalmente com aqueles
que, como ele, estavam atentos à expressão do espírito
da época (como causa e como efeito) no cinema. No caso, Ferreri,
mas também Nicholas Roeg (de Performance com Jagger, O
Homem Que Caiu Na Terra com Bowie, e Inverno De Sangue Em Veneza),
e Antonioni (que tem uma visão singularmente tortuosa da swinging
London em Blow-Up, com participação dos Yardbirds,
e do libertarismo hippie americano em Zabriskie Point, com trilha
do Pink Floyd. Já a cooptação dos Stones por Godard
em One Plus One pertence mais ao universo culto e articulado do
cineasta do que ao pop da banda). Seu terror (em Repulsa Ao Sexo, A Dança Dos Vampiros, O Bebê De Rosemary, O Inquilino) e seu policial noir (Chinatwon) se beneficiaram dessa percepção dupla-face, o olhar impiedoso sobre as motivações secretas, e a habilidade em brincar com os formatos industriais. (Até por isso foi triste ver um Polanski banal, quase um John Carpenter sem pegada, em O Último Portal, 99.) E é o que nos traz de volta ao assunto original, se considerarmos (com uma certa liberdade) o cinema sobre o holocausto como um "cinema de gênero" - toda uma galeria de vilões da Gestapo não nos deixa mentir... Um gênero cujo grande reformador não é, ao contrário do que se possa pensar, Roberto Benigni. Sem deixar de ser um filme hábil e curioso, A Vida É Bela é acrítico em relação à convenção de Bem (judeus, resistência, aliados) versus Mal (nazistas, colaboracionistas). Apenas a adoça com um "clown sagrado" e devidamente justificado pela defesa da inocência (o menino), porém ainda distante da liberdade corrosiva do Louco arquetípico. Arrisco dizer que, mesmo desta vez sem ser tão ostensivo, Polanski foi mais subversivo que Benigni ao plantar referências contraditórias dentro do dualismo padrão do conflito. Assim o relativizou e, principalmente, quebrou esse "magnetismo" para libertar o personagem do pianista, vivido por Adrien Brody, de uma trajetória lacrimosa. Claro que os elementos estão todos na biografia de Wladyslaw Szpilman da qual o roteiro é adaptado, mas a escolha da história e as ênfases são perfeitamente polanskianas. Redenção
sim, honestidade não E conclui, ao final: "Então, podemos voltar à questão inicial, sobre o quanto de esperança e otimismo sobra dessas redenções. Acredito que muito pouco (...) Não só a mancha continua lá como o mundo parece caminhar para outra guerra e as intolerâncias crescem. Entre a morte heróica e o colaboracionismo inescrupuloso, a sobrevivência honesta é a exceção. O que sobra é o cinema de Polanski e a música de Chopin. A arte". Bárbara está certa, claro (e, como sabemos, o filme ganhou Oscars redentores para direção e melhor ator). Mas penso que há dois ou três pontos a acrescentar. Primeiro, o dúbio papel do feitor judeu colaboracionista, que salva uma vez a vida do irmão de Wladyslaw, Henryk, e finalmente a do próprio Wladyslaw. Isso depois de ter sido por eles desprezado e hostilizado. Numa estranha e irônica exibição de poder, ele os livra com a expressão de quem diz: "Eu os salvo de vocês mesmos". Um benfeitor certamente, mas (ou ipso facto) completamente dominado pelo pensamento nazista. Segundo, a motivação igualmente obscura do oficial alemão, que milagrosamente também resolve poupar Wladyslaw. Quando ele flagra o judeu escondido na mansão abandonada, ele o põe à prova uma única vez, como a Esfinge: se o fugitivo é pianista mesmo, ele que toque. O famélico e animalizado Szpilman se transmuta em ser humano novamente - ou, mais do que isso, num ser superior - ao mero toque do teclado. A pergunta foi corretamente respondida - mas que pergunta foi essa? Porque um bom pianista deveria escapar? Um mau pianista seria morto? A imagem do quepe repousando sobre o tampo do piano (que foi parar no cartaz do filme) resume essa tensão, que não é entre raças, nem mesmo classes, mas entre castas. Mais um benfeitor; mais um nazi autêntico. Finalmente, o ser humano que põe em risco mais direta e conscientemente a vida de Wladyslaw é exatamente aquele que era suposto protegê-lo. O guardião que não só o abandona à própria sorte, trancado, doente e sem comida, como ainda usa o nome do pianista para juntar uns trocados. Um ex-colega fanfarrão, técnico da rádio de quem o (aéreo? esnobe?) Szpilman não consegue se recordar. Serão as bombas alemãs dirigidas contra a resistência do gueto de Varsóvia que afinal libertarão o pianista (miraculosamente, como sempre) da morte certa no ventre da sua cela "amiga". Finalmente, se posso discordar de algo no texto citado, é apenas do termo "honesto", no trecho "entre a morte heróica e o colaboracionismo inescrupuloso, a sobrevivência honesta é a exceção". Szpilman não é propriamente honesto nem desonesto; ele é possuído, para o "bem" ou para o "mal", pelo frio e pela fome, como o é pela atração sexual no começo da história, ou pelo nobre espírito da música. O gênio de Szpilman é pré (ou pós) moral. Quando nota singelamente que o nome Szpilman é "adequado" para o pianista (soa como spiel-mann, traduzível como Homem-Que-Toca em alemão), o oficial nazista está tratando desses estranhos determinismos, desses trilhos para o nada. Desse homem sozinho e desidentificado entre as ruínas da guerra que ele não fez, cujo olhar eternamente perdido (ainda que febrilmente intenso) não consegue achar seu lado com clareza. Está tratando da aceitação das (várias) mortes simbólicas para evitar a (única) morte física - o que faz alguém maior, não menor. Está tratando de alguém como o próprio Polanski, enfim. Alguém cuja vida é um Roman. |
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