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30.07.03
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O controle remoto matou Aristóteles
As Panteras Detonando não tem evolução dramática, seus personagens são caricatos, a história é pífia e o clímax final, risível. Por isso mesmo, o novo filme do charmoso trio de detetives é uma espécie de obra-prima "avant la lettre". Para começar, por que diabos As Panteras precisaria de itens - abundantes nos manuais de roteiro disponíveis no mercado - tais como "evolução dramática" ou "profundidade psicológica"? Se o controle remoto tornou Aristóteles obsoleto, o diretor McG resolveu criar um filme-colagem, um mosaico de fragmentos reunidos em um pacote de duas horas de duração. McG, parodiando o Chacrinha, realizou um filme em que nada se cria e tudo se copia. Praticamente todas as imagens de As Panteras Detonando são pastiche de outras. Mais de quatro décadas após François Truffaut e seus companheiros da revista Cahiers du Cinema defenderem a "política dos autores", McG responde com o "desprezo dos não-autores". Esse estilo assumidamente kitsch e declaradamente auto-referente já se insinuava em filmes como Zoolander (Ben Stiller, 2001) e na obra do australiano Baz Luhrmann - Romeu + Julieta (1996) e Moulin Rouge (2001). A diferença entre o decadentista Luhrmann e o pop McG é que, enquanto o primeiro parece sempre lamentar o fim de uma era - seus filmes têm a aparência adoentada de um moribuindo e seus personagens estão desde as primeiras cenas condenadas ao fracasso -, o diretor de As Panteras Detonando carnavalescamente marca o início de uma "dramaturgia" liberta dos parâmetros aristotélicos. O Homem Que Copiava, filme do brasileiro Jorge Furtado que narra as desventuras amorosas de um "operador de fotocopiadora", também assume a colagem como método. Furtado ainda manifesta certa unidade em seu filme, uma lembrança ao monumento aristotélico, enquanto McG faz um filme que mais lembra uma TV em incessante zapping. Engraçada coincidência que o nome do diretor (nascido Joseph McGinty Nichol) lembre o "McGuffin" de Hitchcock - truque utilizado pelo mestre do suspense para manter a platéia atenta a seus filmes. Segundo Hitchcock, o "McGuffin" é o mistério resolvido apenas no final do filme, a pergunta que mantém os espectadores grudados em suas cadeiras. Com um bom "McGuffin", o filme estaria livre para tratar de outros assuntos "paralelos" e, quase sempre, muito mais interessantes do que a descoberta da identidade do assassino ou coisa parecida. Hitchcock, por saber esconder suas preocupações autorais sob as convenções de um gênero (o suspense), foi aclamado por Truffaut e seus colegas como "o maior diretor de cinema de todos os tempos". O diretor e crítico francês estava preocupado em como um verdadeiro "auteur" coloca seus temas de interesse em um filme ao mesmo tempo em que agrada às demandas dos produtores e da platéia. Se estivesse vivo, Truffaut ficaria de cabelo em pé procurando qualquer característica "autoral" em As Panteras Detonando. Encontraria nada além de três letras: "McG", que transforma sua câmera na máquina fotocopiadora de Furtado. No mundo da cópia e da reciclagem, autoria e estilo não importam mais. Ou antes: a autoria não obedece mais a uma identidade intelectual, mas a um simples impulso, muito semelhante àquele que leva alguém a zapear freneticamente em frente à TV. O mesmo impulso que leva alguém a reunir em um mesmo CD suas músicas prediletas - e que ninguém ache estranho encontrar, como na trilha sonora de As Panteras Detonando, Bon Jovi ao lado de Prodigy e Dick Dale; Edwyn Collins ao lado de uma versão acelerada de "Saturday Night (It's Alright For Fighting)", clássico de Elton John. McG sabe que sua atitude pode desagradar grande parte da crítica cinematográfica, há décadas viciada na teoria de autor dos franceses. Mas ele parece não importar. Seu filme começa como um James Bond que abandonou os bem cortados ternos para ir ao shopping center mais próximo tomar um banho de loja nas últimas novidades da moda jovem. Depois, o público entra em um liquidificador que mistura Cantando Na Chuva com Cabo Do Medo, A Noviça Rebelde com propaganda de cigarro, Flashdance com as coreografias de Matrix, O Exterminador Do Futuro com Missão Impossível. Tudo muito bem mexido e servido em uma taça multi-colorida, devidamente decorada com os glúteos de nossas protagonistas (interpretadas por Cameron Diaz, Drew Barrymore e Lucy Liu). Quem gosta de jogos de salão terá diversão garantida tentando identificar as fontes em que McG bebeu. O final do filme, no telhado, lembra desde o anúncio de Susan Alexander em Cidadão Kane a famosa seqüência de Blade Runner. Quando as panteras deslizam por cordas sobre a cidade, poderiam cruzar com o Homem-Aranha de Sam Raimi. Seamus O'Grady (personagem de Justin Theroux) é obviamente inspirado no Max Cady de Cabo Do Medo (e do original de 1961, O Círculo Do Medo), e o "Homem Magro" (Crispin Glover) faz parte de uma geração de vilões que nasce com o Cesare de O Gabinete Do Doutor Caligari. Passando também por canais de esportes e pela comédia escrachada, McG resume em seu filme o que é ver TV. Até o "momento nostalgia", espécie de "vale a pena ver de novo" está lá, quando Jaclyn Smith, uma das panteras da série original, aparece em uma ponta. As Panteras Detonando não é um filme fechado, com tema único e desenvolvimento uniforme, mas uma experiência parecida com uma montanha-russa de imagens. Assim como uma feira de diversões - local que há um século abrigava as primeiras exibições públicas do cinematógrafo -, assistir a As Panteras equivale a um passeio aparentemente sem roteiro traçado (em ambos os sentidos da palavra "roteiro": caminho a ser seguido ou calhamaço de páginas que contém a história e os diálogos de um filme). O estilo camaleônico de McG talvez esteja muito mais próximo do século XXI do que a "unidade de ação" aristotélica. Trocamos a unidade pelo fragmento; a emoção pela pura sensação. As Panteras Detonando é pós-modernidade em alta voltagem. Como um transeunte que caminha a esmo por um parque de diversões ou um espectador preguiçosamente refestelado em sua sala de estar, cotrole remoto à mão, o público de As Panteras não terá uma experiência "única", mas caleidoscópica. McG criou o flanêur de cinemateca, que caminha entre rolos e rolos de filme, abrindo as latas a esmo, despreocupadamente lendo os rótulos das latas. Assim como um passeio num parque ou uma tarde de zapping, essa experiência pode ser perfeitamente esquecida semanas após ter acontecido. A quem não gostar da mistura perpetrada pelas panteras, resta sacar o controle remoto e trocar de canal. Mas que ninguém diga desconhecer o prazer de andar a esmo nesse parque de diversões ou nos interiores de um aparentemente inesgotável acervo de imagens. Durante a caminhada, quem encontrar Aristóteles, por favor, diga que o mundo manda lembranças. |
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