Novembro / 2002

Esta matéria é baseada em fatos reais

Cena de Britney Baby Mais Uma Vez

Por Bárbara Lopes


Se Platão e Oscar Wilde tivessem acompanhado a última Mostra BR de Cinema de São Paulo, estariam agora tomando um capuccino e discutindo: o filósofo grego ganharia bons exemplos para sua teoria de que arte é imitação (mimésis), e poderia se divertir perguntando ao irlandês se é mesmo a vida que imita a arte.

Isso porque a vida real ganhou espaço nas telas. Além dos documentários propriamente ditos, como Jogando Boliche Por Columbine ou Eu Me Lembro, que fizeram sucesso entre o público, outras sessões disputadas abrigavam A Festa Nunca Termina, 11 de Setembro ou Britney Baby Mais Uma Vez, reconstituições de histórias verdadeiras. Entre os filmes brasileiros, a situação fica ainda mais evidente: Madame Satã e Lara, os "baseados em fatos reais", e documentários elogiados, como Ônibus 174 e Edifício Master. (Ok, eu não estou esquecendo das honrosas exceções, como Spider e Fale Com Ela).

Eu arriscaria uma explicação: a realidade se torna uma forma de legitimar histórias que poderiam ser acusadas de absurdas ou gratuitas. Por exemplo, Britney Baby Mais Uma Vez, sobre o travesti que ganha um concurso de sósias da Britney Spears e é confundido a musa adolescente, certamente sofreria com o ceticismo do público (o usual "até parece") se não fosse uma reconstituição, ainda que com elementos ficcionais.

Mesmo sem estar na competição, A Festa Nunca Termina mereceria um prêmio especial de filas longas, tamanho foi o interesse do público. O filme, porém, ao reconstruir a cena musical de Manchester, nos lembra o tempo todo, através das intervenções do narrador, que aquilo é cinema, explicitando a presença de símbolos e o uso de metáforas.

A música pop dá lugar à tragédia em 11 de Setembro, Eu Me Lembro e Jogando Boliche Por Columbine. Aqui, a sensação é que a realidade é grave demais para ser deixada de lado. Jogando Boliche... é o cáustico documentário de Michael Moore sobre a relação dos americanos com as armas de fogo. Eu Me Lembro, do polonês Andrzej Wajda, é um dos cinco documentários do projeto Rompendo o Silêncio, de Steven Spielberg. O projeto tem como base os arquivos da Survivors of the Shoah Visual History Foundation, que reúne imagens e depoimentos de sobreviventes do Holocausto. 11 de Setembro é um mosaico de visões do atentado contra o World Trade Center - os episódios dos 11 diretores de nacionalidades diferentes variam do documentário à ficção, passando pela reconstituição.

Brasileiros
Duas biografias estão entre os destaques brasileiros: a da atriz Odete Lara e do malandro Madame Satã. Lara, de Ana Maria Magalhães, retrata a vida da loira, símbolo sexual dos anos 50. Voltando um pouco mais no tempo, aos anos 30, Madame Satã rendeu muitos elogios à estréia do diretor Karim Aïnouz e, ao ator Lázaro Ramos, o prêmio especial do júri. O filme se centra no período em João Francisco dos Santos passa a fazer seus espetáculos como transformista e mostra sua vida boêmia na Lapa.

Edifício Master parte da idéia que o cotidiano está recheado de casos interessantes, talvez mais interessantes que a própria ficção. O tema do documentário de Eduardo Coutinho são os moradores do enorme edifício de Copacabana, e suas histórias pitorescas. Já Ônibus 174 não é nada leve: o seqüestro do ônibus carioca em 2000 é ponto de partida para uma investigação sobre as causas da violência.

Por um lado, há o mistério sobre o que leva as pessoas a enfrentarem filas para ver coisas que poderiam ver fora das salas de cinema. Porém, é importante lembrar que por mais fiel que seja à realidade, o cinema, como qualquer arte, sempre será representação, sempre será uma forma de ficção. Oscar Wilde dá um sorriso malicioso. De que outra forma seria possível a um filósofo e um escritor que sequer conheceram a sétima arte discutirem a Mostra paulistana?

 

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