Março / 2003

João César Monteiro (1939 - 2003) - A morte de um gênio


Por João Rosas


Monteiro no cartaz de As Bodas De Deus

Lisboa é uma cidade mais triste sem João César Monteiro. Não me lembro que tempo fazia no dia 3 de fevereiro, talvez estivesse vento, mas sei que a meio da tarde houve uns segundos em que tudo ficou silencioso, como se a cidade tivesse parado durante esse espaço de tempo. Isso aconteceu, estava eu na biblioteca da Cinemateca Portuguesa, à janela, a fazer uma pausa na minha consulta sobre a obra do realizador japonês Yasujiro Ozu. Sobre a mesa deixara aberto o livro de Paul Schrader sobre o transcendente no cinema de Ozu, Bresson e Dreyer. A palavra "transcendente" remete, neste caso, para uma qualquer metafísica fílmica, algo da ordem do não palpável e do indefinível que perpassa os filmes daqueles autores como um fantasma omnipresente. Quem já tenha visto Viagem A Tóquio de Ozu, Journal D'Un Curé De Campagne de Bresson, ou a Jeanne D'Arc de Dreyer, perceberá sem dificuldade toda a dimensão que a palavra "transcendência" adquire nesses filmes.

Quem tenha visto um filme de João César Monteiro, passou pela mesma experiência. Em janeiro de 1996, disse ele ao jornal Público: "O cinema não tem consolo. Porque é película, e a película nem sequer é tão saborosa como um gelado. É uma matéria físico-química, mais salgada do lado da emulsão porque tem ácidos - isto quando se põe a língua. Não sei se dá saúde. Mas não traz felicidade". O seu cinema foi sempre o combate entre essa materialidade da película e uma espiritualidade lírica levada ao limite, sob a forma de um romantismo extremo, entenda-se, surrealismo. A última fase da sua obra, iniciada com As Recordações Da Casa Amarela em 1989 (Leão de Prata no Festival de Veneza) é a mais conhecida do grande público. Esse filme marca o nascimento de João de Deus, o seu alter-ego provocador da pacata sociedade portuguesa. A sua faceta de agitador de consciências foi sempre a que chamou mais a atenção dos media e do público, que viam nele uma pequena oportunidade de escândalo, dando-lhe voz como se de um louco se tratasse. Por trás dos palavrões e da provocação moral, contudo, escondia-se o César Monteiro que admirava Murnau ao ponto de criar um alter-ego que, apesar de não ser vampiro, só nos pode fazer lembrar Nosferatu. Escondia-se um poeta que foi capaz de escrever alguns dos argumentos mais belos que o cinema falado em português há de conhecer, com um domínio da palavra pouco usual em homens de imagens. Por entre duas asneiradas, citava Breton, Strindberg ou Hölderin e cuspia para o chão. Como escreveu Jorge Leitão Ramos (crítico de cinema do jornal Expresso) a propósito da sua morte: "Era um homem impossível e doce, de uma cultura sem tamanho, gostava de gatos, de arroz malandrinho com peixe frito, de Carpaccio, de Rilke, de bagaço e de Mozart". Quando alguém morre, é costume seguirem-se os elogios à pessoa falecida. A propósito de César Monteiro, ninguém sabe muito bem o que dizer, pois nunca ninguém o compreendeu na sua totalidade.

Assim aconteceu com A Bacia De John Wayne (1998), dos seus últimos filmes aquele em que a espiritualidade e o poético mais foram capazes de ultrapassar a barreira física da película. Branca De Neve* (2000), por seu turno, o seu filme de ecrã negro a partir do conto de Robert Walser, foi a vitória da materialidade, que impôs os seus próprios limites e encurralou o realizador num beco onde só as imagens do céu eram permitidas. Por entre vitórias e derrotas nesse eterno combate, César Monteiro foi construindo uma obra singular que o tempo tratará de elevar, com toda a justiça, ao nível da de Manoel de Oliveira, povoada por planos inesquecíveis como aqueles que surgem em As Bodas De Deus, um a citar precisamente Nosferatu de Murnau (com João de Deus a trepar pelas grades de uma cela) e outro, Pickpocket de Bresson.

A sua morte é, pois, uma perda não só para o cinema português, mas também mundial, e a intemporalidade dos seus filmes virá prová-lo. Resta-nos agora esperar que o seu desaparecimento possibilite trazer à luz do dia as suas primeiras obras, há muito arredadas dos circuitos de distribuição e exibição. O espólio é apetecível e inclui títulos como Quem Espera Por Sapatos De Defunto Morre Descalço (1970), que lançou Luís Miguel Cintra (um dos actores fétiche de Oliveira) no cinema, Veredas (1977), Silvestre (1981), considerada a primeira das suas obras-primas e o filme onde se veio a revelar a actriz Maria de Medeiros (que viria a participar em Pulp Fiction de Tarantino), ou ainda as curtas-metragens Sophia De Mello Breyner Andresen (1968) ou Passeio Com Johnny Guitar (1995). Além destas obras, César Monteiro deixa ainda um filme acabado, por estrear (terminou de montá-lo por alturas de novembro passado), Vai E Vem, um último consolo para aqueles que, como eu, ainda têm dificuldade em aceitar a morte de um dos maiores cineastas contemporâneos, alguém que não só filmou, como pensou e escreveu sobre cinema (na revista O Tempo E O Modo), contaminando-o de uma vida e de um pulsar que tornam cada palavra e cada plano essenciais.

Lisboa vai sentir saudades dele. A Praça das Flores, onde morava, já não é a mesma sem a presença do grande João César Monteiro nos cafés, a olhar as raparigas adolescentes, a fumar como se de cada cigarro dependesse a respiração seguinte. João César já não respira mais. Só nos resta agarrar tudo quanto deixou atrás de si. Como disse o também cineasta João Mário Grilo: "Temos que aprender a ressuscitá-lo. Ele deixou os filmes para isso. São bocados de vida. Só os génios conseguem fazer isso. Cada vez que aparece um grande artista há uma possibilidade de as pessoas poderem aprender a ser melhores".

Longa vida a João César Monteiro, e que eternamente subsista a sua lição.

Filmografia:
Quem Espera Por Sapatos De Defunto Morre Descalço (1970)
Que Farei Eu Com Esta Espada? (1975)
Veredas (1977)
Silvestre (1981)
À Flor Do Mar (1986)
Recordações Da Casa Amarela (1989)
O Último Mergulho (1992)
A Comédia De Deus (1995)
A Bacia De John Wayne (1998)
As Bodas De Deus (1999)
Branca De Neve (2000)
Vai E Vem (2003)

 

* Em Branca De Neve, Monteiro cobriu as lentes com um pano. O resultado é um filme todo com a tela preta, exceto por umas poucas imagens, e apenas as vozes dos atores. A provocação custou-lhe acusações de desperdício de dinheiro público (com os cenários e figurinos). [N. da E]

 

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