Dezembro / 2002

Mix Brasil se firma como um dos grandes eventos do gênero

Cena do documentário sobre Hedwig
And The Angry Inch

Por César Maturano


A 10º edição do Festival Mix Brasil de Diversidade Sexual, que ocorreu entre os dias 12 e 24 de novembro em São Paulo, focalizou produções relacionadas à visão que as religiões têm da homossexualidade. Dentro deste perfil estavam dois longas-metragens: The Devil In The Body Water (2002), do canadense Joe Balass, documentário que revela a reação dos habitantes da capital católica à simultaneidade de dois eventos, a procissão do Jubileu do Papa e a Parada do Orgulho Gay, em Roma; e, Trembling Before God
(2001), do rabino americano Sândi Simcha Dubowski, documentário que rompe com idéias pré-concebidas sobre fé, sexualidade e fundamentalismo religioso. Feito a partir de histórias íntimas de judeus hassídicos e ortodoxos que são gays, o filme retrata o dilema de conciliar a devoção ao judaísmo com as restrições bíblicas que proíbem a homossexualidade e foi assistido por uma enorme platéia e premiado como o melhor documentário desta edição.

As produções da norte-americana Laura Nix também foram destaque dessa 10º edição. A jovem cineasta apresentou o longa The Politics Of Furs e e o documentário Whether You Like It Or Not The Story Of Hedwig. O primeiro, inspirado em As Lágrimas Amargas De Petra Von Kant, de Fassbinder, é um melodrama lésbico que explora a relação de poder dentro do relacionamento de uma atraente executiva da indústria fonográfica com uma espécie de versão feminina de Sid Vicious. Para mostrar sua devoção, a poderosa e sexy executiva tenta tornar sua nova namorada em uma estrela do rock, que, ao se rebelar contra o domínio da executiva, acaba com a sua frágil ordem de vida.

Já o documentário examina o fenômeno Hedwig And The Angry Inch, desde sua origem em 1994, no clube Squeezebox de Nova York, até a estréia do filme em 2001. Depoimentos do ator-escritor John Cameron Mitchell e do compositor Stephen Task revelam as origens de Hedwig e as rivalidades do elenco da peça que foi assistida por personalidades como David Bowie, Lou Reed, Boy George e Madonna. Nix contou as difilculdades para fazer The Politics Of Furs - que levou três anos e estourou todos os seus cartões de crédito - e enfatizou também a sua atração pelo underground e pelo rock'n'roll.

Também se destacaram o melodramático Luster (2001), do norte americano Everett Lewis, uma versão gay para Alta Fidelidade e o longa-metragem do chinês Lawrance Ah Mon, Spacked Out (2000) é uma espécie de Ken Park adaptado para o cotidiano de quatro garotas que vivem em Hong Kong. Já a documentarista Kristiene Clarke - que dirigiu a primeira série gay da BBC, Gaytime TV apresentou três produções: A Verdade Sobre O Sexo Gay, A História Da Masturbação e Armistead Maupin.

Eventos paralelos
O Festival Mix Brasil de Diversidade Sexual englobou, nesta décima edição, além das produções de cinema e vídeo, uma ampla gama de eventos que ocorreram simultaneamente: palestras e debates, teatro, shows, festas diversas, exposições de arte, etc.

O evento Mix no Minhocão, projeção realizada embaixo do Elevado Costa e Silva, paralisou o Centro de São Paulo. Foram exibidos os filmes Não Perca A Cabeça, de André Luiz de Luiz, Na Cama Com King, de Paola Prestes, Equê De Vuitton, de Dácio Pinheiro, Cindy B, de Patrícia Colli, A Mona Do Lotação, de Eduardo Mattos e Daniel Ribeiro, Rasgue Minha Roupa, de Lufe Steffen, e o videoclipe TV, da cantora Laura Finocchiaro. André Fischer nomeou este como sendo um verdadeiro "evento antropológico".

Outro adendo ao festival foi o espetáculo teatral multimídia Dama da Noite. Texto adaptado de um conto escrito por Caio Fernando Abreu em 1986, que fala dos prazeres e das dores, dos amores e da solidão de uma geração e de uma época que aparentemente ainda anda rodando por aí. Sob a direção e atuação arrebatadora de Gilberto Gawronski. O espetáculo começa ao som de "It's Oh So Quiet" da cantora islandesa Björk e o ator adentrando ao palco e se colocando ao lado de um telão, que exibia um vídeo idealizado por Vica Nabuco, com projeção de imagens caóticas de multidões rodando em círculos freneticamente em alta velocidade - e ele perguntando para a platéia e para si mesmo numa manifestação loser: "Vocês fazem parte desta roda? Eu não!" E termina o espetáculo homenageando os artistas que morreram em decorrência da aids.

O público era eclético como propõe o evento que tem a palavra "diversidade" como definidora. Assim, era comum ver profissionais ligados ao entretenimento formando longas filas para assistir ao badalado Show do Gongo, com apresentação de Marisa Orth, no Cinesesc; enquanto, a sessão do Programa 3, Homofilmes de Andy Warhol, encontrava-se quase que vazia. Obviamente, o público que lotava o auditório do Cinesec para assistir ao Show do Gongo, também não compareceu ao substancial debate no Centro Brasileiro Britânico, realizado pelo The British Concil, sobre "Divesidade sexual na mídia", com a participação de especialistas como Jess Search, Sean Kaminsky, Beth Carmona e Cid Torquato.

 

 

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