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04.08.03
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Rohmer e a revolução
Por
Fabio Diaz Camarneiro Também
nesse ano, Eric Rohmer, quase uma década mais velho que seus colegas
Truffaut e Godard, lançou, com muito menos pompa, seu primeiro
longa, O Signo Do Leão, história de um americano
radicado em Paris que passa da fortuna (no começo do filme, ele
pensa ter herdado os bens de uma tia rica) à mendicância
(quando, sem herança nenhuma, ele passa a morar nas ruas da Cidade
Luz). Em O Signo Do Leão, já se percebe o retrato
nostálgico da aristocracia decadente (o personagem principal é
apelidado de "Barão" por um outro mendigo), tema também
de A
Inglesa E O Duque, filme que, como o próprio Rohmer declarou
no Festival de Veneza de 2001, encerraria sua carreira.
A Inglesa
E O Duque é baseado em Ma Vie Sous La Révolution,
livro autobiográfico que Grace Elliot escreveu no início
do século XIX, narrando como os eventos da Revolução
Francesa a afetaram. Grace tinha sido amante do futuro Rei Goerge IV da
Inglaterra e também de Phillipe d'Orléans, figura importante
da Revolução (ganhou o apelido de "Egalitè",
ou "Igualdade") e também o "Duque" do título
do filme. O inusitado do filme (e do livro) é ver a história
da Revolução Francesa contada a partir de um ponto de vista
inusitado: o da aristocracia monarquista.
Para reconstruir
a Paris do final do século XVIII, Rohmer usou tecnologia digital
e inseriu quadros pintados em meio aos personagens. Apesar do tom ostensivamente
artificial, o resultado é incrivelmente realista. Ao invés
de buscar uma ilusão perfeita (ou certo "naturalismo"),
o diretor busca a convenção, o pacto com o espectador. Tudo
de acordo com os preceitos da nouvelle vague, que defendia trabalhos autorais,
realizados com linguagem inusitada e, de preferência, filmados nas
ruas. Em A Inglesa E O Duque, as "ruas" estão
em claro descompasso com a ação dos personagens. Rohmer
encena a Revolução Francesa como um "mundo em construção",
uma época de indefinição política e social.
Os personagens, que às vezes parecem "desligados" desse
cenário, representam as incertezas da Revolução -
e assim, o movimento da História se torna aparente.
Terror Por um lado,
Rohmer mostra que, se a vida de um nobre não vale mais do que a
de um popular, o contrário também é verdadeiro: a
vida de um plebeu não vale mais que a de um membro da nobreza.
Durante o Terror, momento mais violento da Revolução Francesa,
várias cabeças penderam das guilhotinas em nome do ideal
de "igualdade". A Inglesa E O Duque, assim, coloca-se
contra todos os regimes políticos de exceção - seja
o Terror da época de Robespierre ou os governos militares na América
do Sul. Por outro lado, Rohmer deixa clara a ambigüidade de Grace
que, permanecendo alheia ao movimento político ao seu redor, mantém
sua futilidade aristocrática.
Uma futilidade,
diga-se, extremamente complexa. O movimento dramático do filme
obedece a três partes distintas, representadas por três decisões.
A primeira, a cargo de Grace, é de foro completamente íntimo:
ela precisa optar entre entregar ou não o nobre Champcenetz. Ela
resolve ajudá-lo, não por convicção política,
mas por mera solidariedade. Num segundo momento, a decisão equilibra-se
entre o pessoal e o político: o Duque, que prometera a Grace não
participar da assembléia de julgamento do Rei Luis XVI, acaba comparecendo
e vota pela morte do soberano. No derradeiro momento do filme, com o Terror
já completamente instaurado, Grace está à sorte da
burocracia revolucionária, que precisa decidir se ela é
ou não uma traidora da Pátria - em outras palavras, se ela
merece ou não a guilhotina.
A Inglesa
E O Duque parte do particular (essa coisa "fútil",
que valoriza coisas tão díspares quanto a solidariedade
humanista e sachês de lavanda) ao político (onde as pessoas
acabam se tornando marionetes das forças que elas representam).
Robespierre, representação do político, absolve Grace
por saber que, apesar dela parecer suspeita, há coisas muito mais
importantes a serem decididas. O Duque, pressionado pelas forças
políticas, não só comparece a assembléia como
vota a favor da morte do Rei, também seu primo. O personagem do
Duque d'Orléans, aliás, muito bem representa esse embate
entre idéia e ação: sempre dividido entre sua vida
particular e sua vida pública (faz promessas pessoais a Grace e
também representa uma facção jacobina na Câmara),
ele quase obrigatoriamente precisa "trair" ora um, ora outro.
A interpretação de Jean-Claude Dreyfus, ao se valer do estereótipo
do aristocrata afetado, acaba dando ao Duque uma complexidade inesperada.
Rohmer, como em toda a sua obra, isenta-se de fazer julgamentos. Como
o filme tem o ponto de vista de Grace, todas as decisões políticas
são acompanhadas à distância. A frase do Duque ("você
não pode me julgar") ganha força e contundência,
permanecendo como um libelo político do diretor. Rohmer parece
querer dizer que Política (com maiúscula) é o jogo
de articulação de forças às vezes contraditórias
- e, nesse jogo, não há lugar para "futilidades".
Triple
Agent Autor mais
"clássico" que seus companheiros de nouvelle vague, Rohmer
tem predileção pela desdramatização das situações,
pelas tramas de fundo amoroso e pelo elogio velado aos valores "aristocráticos".
Em mais de cinco décadas dedicadas ao cinema, como crítico
e diretor, seu nome já está definitivamente marcado na História
- esse conceito às vezes estranho, que muitos conseguem perceber,
mas poucos já conseguiram registrar com a beleza de A Inglesa
E O Duque. |
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