04.08.03

Rohmer e a revolução

O duque afetado de Jean-Claude Dreyfus

Por Fabio Diaz Camarneiro

A nouvelle vague francesa teve seu "ano zero" em 1959, quando os jovens críticos da Cahiers du Cinéma lançaram seus primeiros longas-metragens. Acossado (Jean-Luc Godard), Os Incompreendidos (François Truffaut) e Hiroshima Mon Amour (do documentarista Alain Resnais, estreando na ficção) foram exibidos no Festival de Cannes, Truffaut voltou para casa com a Palma de Ouro, e Resnais, com o prêmio da crítica. Para Godard, sobrou a fama de "enfant terrible" do cinema mundial.

Também nesse ano, Eric Rohmer, quase uma década mais velho que seus colegas Truffaut e Godard, lançou, com muito menos pompa, seu primeiro longa, O Signo Do Leão, história de um americano radicado em Paris que passa da fortuna (no começo do filme, ele pensa ter herdado os bens de uma tia rica) à mendicância (quando, sem herança nenhuma, ele passa a morar nas ruas da Cidade Luz). Em O Signo Do Leão, já se percebe o retrato nostálgico da aristocracia decadente (o personagem principal é apelidado de "Barão" por um outro mendigo), tema também de A Inglesa E O Duque, filme que, como o próprio Rohmer declarou no Festival de Veneza de 2001, encerraria sua carreira.

A Inglesa E O Duque é baseado em Ma Vie Sous La Révolution, livro autobiográfico que Grace Elliot escreveu no início do século XIX, narrando como os eventos da Revolução Francesa a afetaram. Grace tinha sido amante do futuro Rei Goerge IV da Inglaterra e também de Phillipe d'Orléans, figura importante da Revolução (ganhou o apelido de "Egalitè", ou "Igualdade") e também o "Duque" do título do filme. O inusitado do filme (e do livro) é ver a história da Revolução Francesa contada a partir de um ponto de vista inusitado: o da aristocracia monarquista.

Para reconstruir a Paris do final do século XVIII, Rohmer usou tecnologia digital e inseriu quadros pintados em meio aos personagens. Apesar do tom ostensivamente artificial, o resultado é incrivelmente realista. Ao invés de buscar uma ilusão perfeita (ou certo "naturalismo"), o diretor busca a convenção, o pacto com o espectador. Tudo de acordo com os preceitos da nouvelle vague, que defendia trabalhos autorais, realizados com linguagem inusitada e, de preferência, filmados nas ruas. Em A Inglesa E O Duque, as "ruas" estão em claro descompasso com a ação dos personagens. Rohmer encena a Revolução Francesa como um "mundo em construção", uma época de indefinição política e social. Os personagens, que às vezes parecem "desligados" desse cenário, representam as incertezas da Revolução - e assim, o movimento da História se torna aparente.

A turba carrega a cabeça de uma princesa,
tendo ao fundo cenários pintados e digitalizados

Terror
O ideário da Revolução Francesa incensava os direitos individuais do homem: os nobres não são mais importantes que a plebe. Mas Rohmer, politicamente um conservador, evita tomar o partido dos populares, sempre retratados com tons cômicos ou grotescos. Os guardas que prendem Grace em sua casa não devem nada às clássicas duplas cômicas: o idiota gordinho e o magrelo igualmente idiota. Em duas outras oportunidades, populares ameaçam Grace, quando ela encontra a turba ensandecida que carrega a cabeça decapitada de uma princesa e, na prisão, quando os outros presos a amedrontam. Mesmo nessas situações, o filme mantém o ponto de vista da aristocracia e jamais desce ao nível da plebe. Ao mesmo tempo, Grace, mesmo nas piores situações, jamais esquece sua origem, seja para ceder o lugar a uma pessoa mais velha, seja para (com ares de futilidade) mostrar que sua empregada conseguiu, na prisão, entregar-lhe um sachê de lavanda.

Por um lado, Rohmer mostra que, se a vida de um nobre não vale mais do que a de um popular, o contrário também é verdadeiro: a vida de um plebeu não vale mais que a de um membro da nobreza. Durante o Terror, momento mais violento da Revolução Francesa, várias cabeças penderam das guilhotinas em nome do ideal de "igualdade". A Inglesa E O Duque, assim, coloca-se contra todos os regimes políticos de exceção - seja o Terror da época de Robespierre ou os governos militares na América do Sul. Por outro lado, Rohmer deixa clara a ambigüidade de Grace que, permanecendo alheia ao movimento político ao seu redor, mantém sua futilidade aristocrática.

Uma futilidade, diga-se, extremamente complexa. O movimento dramático do filme obedece a três partes distintas, representadas por três decisões. A primeira, a cargo de Grace, é de foro completamente íntimo: ela precisa optar entre entregar ou não o nobre Champcenetz. Ela resolve ajudá-lo, não por convicção política, mas por mera solidariedade. Num segundo momento, a decisão equilibra-se entre o pessoal e o político: o Duque, que prometera a Grace não participar da assembléia de julgamento do Rei Luis XVI, acaba comparecendo e vota pela morte do soberano. No derradeiro momento do filme, com o Terror já completamente instaurado, Grace está à sorte da burocracia revolucionária, que precisa decidir se ela é ou não uma traidora da Pátria - em outras palavras, se ela merece ou não a guilhotina.

A Inglesa E O Duque parte do particular (essa coisa "fútil", que valoriza coisas tão díspares quanto a solidariedade humanista e sachês de lavanda) ao político (onde as pessoas acabam se tornando marionetes das forças que elas representam). Robespierre, representação do político, absolve Grace por saber que, apesar dela parecer suspeita, há coisas muito mais importantes a serem decididas. O Duque, pressionado pelas forças políticas, não só comparece a assembléia como vota a favor da morte do Rei, também seu primo. O personagem do Duque d'Orléans, aliás, muito bem representa esse embate entre idéia e ação: sempre dividido entre sua vida particular e sua vida pública (faz promessas pessoais a Grace e também representa uma facção jacobina na Câmara), ele quase obrigatoriamente precisa "trair" ora um, ora outro. A interpretação de Jean-Claude Dreyfus, ao se valer do estereótipo do aristocrata afetado, acaba dando ao Duque uma complexidade inesperada. Rohmer, como em toda a sua obra, isenta-se de fazer julgamentos. Como o filme tem o ponto de vista de Grace, todas as decisões políticas são acompanhadas à distância. A frase do Duque ("você não pode me julgar") ganha força e contundência, permanecendo como um libelo político do diretor. Rohmer parece querer dizer que Política (com maiúscula) é o jogo de articulação de forças às vezes contraditórias - e, nesse jogo, não há lugar para "futilidades".

Triple Agent
Desde O Signo Do Leão até agora, Rohmer mantém uma obra extremamente coerente. Sua carreira estaria muito bem encerrada com A Inglesa E O Duque, mas a boa notícia é que Rohmer mentiu: aos 83 anos, ele está terminando um novo filme, Triple Agent, com lançamento previsto para o final do ano. Com Serge Renko (um dos juízes de Grace em A Inglesa E O Duque) e Katerina Didaskalu (de O Capitão Corelli) como protagonistas, a trama mostra um general tzarista refugiado em Paris durante a época da Guerra Civil Espanhola, em 1936.

Autor mais "clássico" que seus companheiros de nouvelle vague, Rohmer tem predileção pela desdramatização das situações, pelas tramas de fundo amoroso e pelo elogio velado aos valores "aristocráticos". Em mais de cinco décadas dedicadas ao cinema, como crítico e diretor, seu nome já está definitivamente marcado na História - esse conceito às vezes estranho, que muitos conseguem perceber, mas poucos já conseguiram registrar com a beleza de A Inglesa E O Duque.

 

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