Abril / 2003

Telas na tela

Por Bárbara Lopes

Salma Hayek, protagonista e
produtora de Frida

Fazer um filme sobre um quadro é como escrever um texto - este, por exemplo, - sobre um filme (ou qualquer outra combinação possível entre formas de arte). Uma tentativa patética, que, se tudo der certo, não conseguirá repetir o impacto que a obra original é capaz de produzir. Afinal, se fosse possível traduzir em outro meio uma determinada obra, ela não precisaria existir.

A princípio, a relação entre cinema e artes plásticas deveria ser um pouco mais fácil. O cinema guarda semelhanças com as pinturas, só acrescentando-lhes elementos, certo? Porém, a sétima arte corre o risco de, na verdade, retirar esses elementos, roubar a possibilidade do apreciador induzir o som e o movimento presentes (pela ausência) na obra. Mesmo evitando esse prejuízo, a leitura de um quadro envolve a proximidade física, luzes, texturas. O objeto sintetiza em um quadro o que um filme expressa na sucessão de centenas de quadros. Fazendo uma analogia, pintura é poesia, cinema é prosa.

Existem, evidentemente, pontos de contato. Alguns filmes são muito plásticos, como há romances poéticos. Andy Warhol, artista plástico, se aventurou no cinema, enquanto o cineasta Federico Fellini chegou a trabalhar como desenhista. Correntes estéticas das plásticas influenciaram e foram influenciadas pelo cinema, caso do expressionismo alemão e o surrealismo. Mas não estamos falando de influências ou da adoção de técnicas exógenas. Nem de uma obra como ponto de partida, como inspiração. Trata-se, sim, de quadros como tema de filmes.

Talvez por isso, tanto Frida quanto A Arca Russa em seus melhores momentos pareçam aqueles vídeos educativos criativos que a BBC e outros produzem, em que se tenta, com maior ou menor sucesso, tirar proveito das possibilidades da soma de imagem em movimento e som para pelo menos chamar a atenção para aqueles objetos mudos e estáticos e ricos em significados e sensações.

A diferença é que A Arca Russa é um filme sobre a arte e mais de três séculos da história de um povo, tema que evidentemente extrapola a tela grande e os 96 minutos de projeção. Já Frida é um melodrama sobre uma mulher manca, com um casamento complicado, a quem aconteceu ser pintora. Uma historinha quase vulgar, que às vezes se torna pequena demais.
O Hermitage, cenário de A Arca Russa

Alexander Sokurov abre o baú da cultura russa usando o recurso do plano-seqüência, um desses truques que continuam nos impressionando, por mais que saibamos como funcionam. Para conseguir registrar os 96 minutos sem cortes foi utilizada uma câmera digital, que se move por cerca de três mil figurantes, ensaiados por sete meses. O pretexto é o passeio de dois fantasmas, a câmera/narrador e um diplomata francês do século 19, pelo Hermitage, de São Petersburgo. Antes residência de inverno dos czares, hoje o palácio abriga um museu com representantes importantes da pintura européia e russa de várias épocas. Algumas obras - Da Vinci, Rembrandt, - são comentadas, "explicadas" pelos visitantes, que se perdem por salas e épocas, que vêem de Pedro, o Grande (1672-1725) a jovens contemporâneos. Esse "perder-se" serve de metáfora tanto para a apreciação artística quanto para os (des)rumos da História. Excelente, para um guia interativo.

Em Frida, a diretora Julie Taymor se debate com casamento, infidelidade e companheirismo. (Ironicamente, tanto a diretora quanto a produtora/protagonista/"dona do projeto", Salma Hayek, têm seus companheiros no filme. Julie Taymor escreveu com o marido Elliot Goldenthal a trilha sonora que ganhou o Oscar. E o senhor Salma Hayek, Edward Norton, foi consultor de roteiro e faz uma participação como Nelson Rockfeller.)

O filme retrata desde a adolescência de Frida Kahlo, quando ela sofre o acidente que deixaria seqüelas permanentes (somadas às da poliomelite que ela teve quando criança), até sua morte, aos 47 anos, em 1954. Frida começou a pintar enquanto convalescia de seu acidente, e a força de seus quadros impressionou o muralista Diego Rivera, com quem se casaria. Mesmo já sabendo dos inumeráveis casos de Rivera, Frida se exasperava com a infidelidade do marido, enquanto mantinha seus próprios relacionamentos extra-conjugais, boa parte deles com mulheres. Ao lado de Rivera, Frida vai ganhando reconhecimento como pintora e participa do movimento político da época - ela era militante da Juventude Comunista, entusiasta da Revolução Mexicana. Um de seus affairs mais famosos é com Leon Trotsky, quando ele se refugia no México da perseguição de Joseph Stalin. As dores físicas, resultado do acidente e de mais de 30 cirurgias e outros tratamentos, o tumultuado casamento com Rivera, um aborto espontâneo, seu orgulho da "mexicanidade", tudo isso parece explicar o expressionismo, as cores fortes, a intensidade de suas telas. O que não deixa de ser verdade, mas é muito raso para entender o fascínio que a artista provocou em gente como o escritor André Breton e o pintor Pablo Picasso.

Por isso, o melhor de Frida são os momentos em que a narrativa abandona as tentativas de explicar sua arte através de sua biografia (algumas vezes com um irritante excesso de didatismo) e se entrega à obra em si. São as passagens oníricas, em que quadros ganham vida e cenas se transformam em pinturas. Um terço da obra de Frida Kahlo é dedicada a auto-retratos, que mesmo fugindo da idealização a colocam como protagonista realmente de sua história. Fora de sua obra, o filme repete o mesmo erro da notícia sobre sua morte no jornal The NewYork Times: "Frida Kahlo, esposa do famoso pintor Diego Rivera, foi encontrada morta hoje".

O paradoxo é este: Frida é tanto melhor quando tenta fazer o impossível, transformar quadros em cinema. Assim como em A Arca Russa, é a ambição que é recompensada. Mas, afortunadamente, as homenagens não fazem jus aos homenageados.

 

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