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Dezembro
/ 2002
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It's
alive!
Por
Fabio Diaz
Camarneiro Uma parada
obrigatória para quem tentar responder essa pergunta é a
caixa que a Continental acaba de lançar no Brasil. A Classic
Monster Collection traz 8 DVDs com os clássicos que, nos anos
30 e 40, praticamente inventaram o filme de terror. Os dois melhores filmes
da caixa são Frankenstein e sua continuação,
A Noiva De Frankenstein (1935). Os outros são Drácula
(1931), A Múmia (1932), O Homem Invisível
(1933), O Lobisomem (1941), O Fantasma Da Ópera (1943)
e O Monstro Da Lagoa Negra (1954).
Não
bastasse isso, a Warner também lançou outro clássico
do terror: A Maldição De Frankenstein (1957), filme
produzido pela inglesa Hammer, com Christopher Lee no papel do Monstro
e Peter Cushing como o Doutor Victor Frankenstein. E quem procurar nas
bancas de jornal pode encontrar a versão em DVD de Drácula,
com o mesmo Lee.
Univesal
Pictures Filho de
pais surdos-mudos e um expert em maquiagem, Chaney era um dos mais expressivos
atores do cinema mudo, tendo recebido a alcunha de "homem de mil
faces". Dado o sucesso de seus filmes na Universal, o chefão
Carl Laemmle Jr. resolveu apostar na linha "filmes soturnos com personagens
monstruosos". O próximo passo seria adaptar Drácula,
livro de Bram Stocker que já tinha servido de inspiração
para o clássico alemão Nosferatu (1922).
A escolha
do intérprete do famoso Conde parecia óbvia: Lon Chaney.
Mas Chaney acabou morrendo, aos 47 anos, vítima de um câncer
no pulmão, e obrigou o diretor Tod Browning a procurar alguém
que pudesse substituir "o homem de mil faces". O escolhido foi
um ator húngaro, com forte sotaque, com um currículo de
quase 40 filmes feitos em seu país natal, na Alemanha e nos EUA:
Bela Lugosi.
Lugosi, além
do sucesso instantâneo, teria de carregar até o túmulo
a imagem do Príncipe das Trevas. No caso, literalmente: ao morrer,
em 1956, o ator foi enterrado com as roupas do Conde Drácula.
Após
Drácula estourar nas bilheterias, Laemmle começou
a preparar seu próximo filme, Frankenstein. Para o papel
principal, ele queria o novo astro do estúdio: Bela Lugosi. Mas
os testes de Lugosi como a Criatura não agradaram ao produtor,
que acabou se decidindo por um ator inglês de 44 anos, até
então conhecido apenas por alguns papéis secundários.
Nas mãos do diretor James Whale e do especialista em maquiagem
Jack Pierce, Boris Karloff se transformaria em um dos maiores ícones
do cinema - e em outra estrela no monstruoso firmamento da Universal.
Nascia a
Criatura. Que, apesar da fama alcançada, pouco tinha da personagem
do romance que Mary Wollstonecraft Shelley publicara em 1818.
Mary Shelley Durante o
verão de 1816, o casal Shelley, o poeta Lord Byron e John Polidori,
um médico amigo dos Shelley, estavam hospedados às margens
do Lago Genebra quando, reza a lenda, resolveram criar uma espécie
de concurso para espantar o tédio: quem conseguiria escrever a
história mais horripilante?
Naquela mesma
noite, acordada por um pesadelo em que se misturavam eletricidade e ressuscitação
de cadáveres, Mary Shelley percebeu que tinha encontrado a história
capaz de vencer o desafio. Nascia a Criatura. Dois anos mais tarde, em
1818, Frankenstein, Ou: O Prometeu Moderno apareceu em primeira
edição, com três volumes. Mary Shelley tinha apenas
20 anos.
Tão
logo o livro saiu, o personagem caiu no gosto popular. Em 1823, os londrinos
já podiam assistir a uma peça, de autoria de Richard Brinsley
Peake, baseada nos personagens de Frankenstein. A própria
Mary Shelley, depois de ter assistido a essa adaptação,
teria feito algumas modificações no livro, como por exemplo
introduzir o termo "galvanização" nas descrições
das experiências de Victor Frankenstein. Era apenas o começo
da carreira do Monstro, que ainda não era conhecido pelo nome Frankenstein.
No livro, ele é apenas "a Criatura" mas, com o passar
do tempo, o nome do criador passou a servir tanto para o criador como
para a criatura.
James
Whale Luiz Nazário
aponta ainda várias outras diferenças entre o livro e o
filme de Whale. Em Da Natureza Dos Monstros, o crítico paulista
aponta o caráter reacionário da obra de Whale. Enquanto
no livro a sociedade era uma ameaça para o indivíduo "diferente",
no filme acontece o contrário: é o "diferente"
que ameaça a ordem da sociedade e, portanto, deve ser destruído.
Tudo é
ainda um pouco mais estranho, lembra Nazário, se lembrarmos que
James Whale era homossexual declarado e chegou a ser vítima de
preconceito dentro da própria indústria cinematográfica,
como mostrado em Deuses E Monstros (1998), cinebiografia dos últimos
dias de vida de Whale, com Ian McKellen no papel do diretor de Frankenstein.
Reacionário
ou não, é inegável que o gênio de Whale é
a maior razão para a longevidade de Frankenstein. Enquanto
o Drácula de Tod Browning - à parte o carisma de
Lugosi e a fotografia do alemão Karl Freund - é um filme
na melhor das hipóteses "correto", "Frankenstein",
mais de 70 anos após seu lançamento, mantém intacto
seu fascínio.
Para chegar
a esse resultado, Whale usou e abusou do expressionismo alemão
dos anos 20. Os cenários grandiloqüentes de Frankenstein
lembram os de Metropolis (1925). A imagem do Monstro, manifestação
do que há de horrendo no homem, poderia fazer par com Nosferatu
(1922) ou O Golem (1915). Tudo bastante diferente do livro de Mary
Shelley, que só seria adaptado com fidelidade em 1994, pelas mãos
de Kenneth Brannagh (que também interpretava o doutor) e com Robert
De Niro no papel da Criatura.
A Noiva
De Frankenstein
No lançamento
de A Noiva De Frankenstein, em 1935, a Universal já era
um grande estúdio: uma major. Tudo devido aos "monstros dos
ovos de ouro" de Carl Laemmle Jr., que não paravam de aparecer.
Um ano após Drácula e Frankenstein,
Karloff fez o papel principal em A Múmia, dirigido por Karl
Freund, uma espécie de "elo perdido" entre o expressionismo
alemão e os filmes de terror da Universal.
Antes de
emigrar para os EUA, Freund tinha trabalhado em marcos do expressionismo
como Metropolis, de Fritz Lang, e Berlim - Sinfonia De Uma Metrópole
(1927), de Walter Ruttmann. Após a ascensão do nazismo,
ele deixou a Alemanha e acabou sendo contratado no estúdio de Laemmle.
(Ele também um descendente de alemães.) Resultado: Freund
foi responsável pela fotografia do Drácula de Tod
Browning e acabou ajudando a definir o estilo de fotografia que se tornaria
uma das marcas registradas da Universal durante os anos 30. (E que, nos
anos seguintes, seria a marca de todo o cinema noir.)
A outra marca
registrada da Universal era seus atores. Bela Lugosi, após ter
perdido o papel do Monstro em Frankenstein, ainda teria ótimos
desempenhos em outros filmes do estúdio - mas agora em papéis
menores. Ele acabaria contracenaria com seu rival Boris Karloff
em O Filho De Frankesntein, terceiro filme da série, desta
vez sem James Whale por trás das câmeras. Em O Filho,
Lugosi interpretava Igor, o ajudante corcunda do Doutor Frankenstein que,
tendo aparecido pela primeira vez nesse filme, praticamente deve toda
sua fama ao carisma de seu primeiro intérprete.
Bela
Lugosi Is Dead Finalmente,
17 anos depois de ter sido recusado para o papel, Lugosi viria a interpretar
o Monstro de Frankenstein. O filme, Abbott and Costello Meet
Frankenstein era uma comédia estrelada pela famosa dupla. Nessa
época, Lugosi começava uma espiral decadente, que o transformou
em uma paródia de si mesmo. Viciado em heroína, ele praticamente
conseguiu destruir sua carreira escolhendo papéis que beiravam
todos os limites do mau gosto. Um único título diz tudo:
Bela Lugosi Meets A Brooklyn Gorilla.
Antes de
morrer, Lugosi tornou-se amigo de Ed Wood, o chamado "pior cineasta
de todos os tempos". Wood dirigiu alguns dos últimos trabalhos
do eterno Drácula: Glen or Glenda e Plan 9 From Outer
Space - sua última aparição nas telas. Bela Lugosi
morreu sozinho, em casa, aos 73 anos, vítima de uma overdose. Em
seu enterro, ao vê-lo nas roupas do Príncipe das Trevas,
Peter Lorre teria dito: "vamos ter de cravar uma estaca em seu peito?"
A maldição
de Frankenstein O próprio
Karloff reencontraria o personagem de Frankenstein em House of Frankenstein
(1944), mas com um detalhe: desta vez, ao invés do Monstro, ele
interpretava o Doutor. Nos anos 50, Karloff alternaria seu trabalho nas
telas com alguns papéis na Broadway e, na década seguinte,
retornaria aos filmes de terror pelas mãos do produtor independente
(e reinventor do gênero) Roger Corman. Boris Karloff nunca parou
de fazer filmes até morrer, em 1969, aos 81 anos. E, diferentemente
de Lugosi, nosso Frankenstein foi enterrado em roupas civis...
Muito antes
da morte de Karloff, já era evidente o tamanho da maldição
que a Universal lançou sobre as salas de cinema, que nunca mais
se livrariam dos filmes monstruosos. Quando a produtora inglesa Hammer
anunciou que pretendia fazer mais uma adaptação da novela
de Mary Shelley, a Universal pegou pesado: se a Hammer usasse qualquer
elemento minimamente parecido com o filme de 1931 que não estivesse
também no livro, ela seria processada.
O processo
nunca aconteceu e, em 1957, A Maldição De Frankenstein
transformou Peter Cushing, que interpretava o cientista, na nova estrela
do cinema de terror. No filme de Terence Fisher, o Monstro era interpretado
por Christopher Lee que, no ano seguinte, dirigindo pelo mesmo Fisher
e contracenando com o mesmo Cushing, também chegaria à fama
no papel de Drácula. E até hoje, como Bela Lugosi antes
dele, Lee parece indissociável da imagem do Príncipe das
Trevas.
Ele vive Frankenstein
é também personagem em dezenas de outros filmes, incluindo
uma produção japonesa em que ele banca o Godzilla, uma outra
adaptação produzida por Andy Warhol e até filmes
pornôs. Mas a melhor "livre adaptação" do
personagem foi mesmo O Jovem Frankenstein (1974), uma sátira
do diretor Mel Brooks aos filmes clássicos da Universal.
Curiosamente,
O Jovem Frankenstein foi filmado nos mesmíssimos cenários
utilizados nos anos 30, encontrados pela produção em algum
dos porões da Universal. Gene Wilder faz o neto do Doutor Frankenstein,
Peter Boyle é o Monstro e Marty Feldman está simplesmente
inesquecível como o corcunda Igor. (Pronuncia-se "Áigor...")
Apesar de
satírico, O Jovem Frankenstein também presta uma
merecida homenagem ao objeto de sua paródia. James Whale foi um
dos grandes gênios do cinema. A prova é que a imagem que
ele criou para Frankenstein, como todo monstro que se preza, parece não
morrer nunca. Basta começarmos a acreditar que o mito está
se esgotando para o lançamento de uma caixa de DVDs provar a longevidade
dos clássicos da Universal, mais uma vez mostrando os talentos
de Whale, de Karloff, Lugosi, Freund, Lanchester... Todos eles ressuscitando
das trevas para novamente provocar gritos estridentes na platéia.
NO BROWSER From
Mary Shelley to Kenneth Branagh: Um dos mais completos sites sobre
o Monstro.
Frankenstein
(1931): Resumo do filme, com comentários do crítico Tim
Dirks.
Bride
of Frankenstein (1935): Resumo do filme, com comentários
do crítico Tim Dirks.
Mary
Wollstonecraft Shelley: Uma completa cronologia e links sobre a escritora.
NA TELINHA NA ESTANTE
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