Dezembro / 2002

It's alive!

Cena de A Noiva De Frankenstein

Por Fabio Diaz Camarneiro


Quando alguém pensa em Frankenstein, logo surge a imagem de Boris Karloff interpretando o Monstro: uma criatura criada por um cientista meio amalucado e seu ajudante, com a testa grande, um eletrodo de cada lado do pescoço, a expressão pouco amistosa, soltando grunhidos entre algumas poucas palavras, corcunda. Mas, apesar de largamente aceita, essa versão do monstro pouco lembra o personagem do romance que Mary Shelley publicou em 1818. Desde então, no palco e na tela, Frankenstein já protagonizou de comédias a fitas pornô, totalizando mais de 80 filmes. Então por que o Frankenstein de James Whale, rodado em 1931 com Boris Karloff no papel principal, continua sendo a versão definitiva?

Uma parada obrigatória para quem tentar responder essa pergunta é a caixa que a Continental acaba de lançar no Brasil. A Classic Monster Collection traz 8 DVDs com os clássicos que, nos anos 30 e 40, praticamente inventaram o filme de terror. Os dois melhores filmes da caixa são Frankenstein e sua continuação, A Noiva De Frankenstein (1935). Os outros são Drácula (1931), A Múmia (1932), O Homem Invisível (1933), O Lobisomem (1941), O Fantasma Da Ópera (1943) e O Monstro Da Lagoa Negra (1954).

Não bastasse isso, a Warner também lançou outro clássico do terror: A Maldição De Frankenstein (1957), filme produzido pela inglesa Hammer, com Christopher Lee no papel do Monstro e Peter Cushing como o Doutor Victor Frankenstein. E quem procurar nas bancas de jornal pode encontrar a versão em DVD de Drácula, com o mesmo Lee.

Univesal Pictures
Além de mostrar a elaboração de um gênero, a Classic Monster Collection serve para contar a história de um estúdio. Nos anos 20, a Universal Pictures ainda sonhava em fazer frente às majors Fox, Warner ou MGM. Os maiores sucessos da Universal até então tinham sido O Corcunda de Notre Dame (1923) e O Fantasma da Ópera (1925), ambos com Lon Chaney.

Filho de pais surdos-mudos e um expert em maquiagem, Chaney era um dos mais expressivos atores do cinema mudo, tendo recebido a alcunha de "homem de mil faces". Dado o sucesso de seus filmes na Universal, o chefão Carl Laemmle Jr. resolveu apostar na linha "filmes soturnos com personagens monstruosos". O próximo passo seria adaptar Drácula, livro de Bram Stocker que já tinha servido de inspiração para o clássico alemão Nosferatu (1922).

A escolha do intérprete do famoso Conde parecia óbvia: Lon Chaney. Mas Chaney acabou morrendo, aos 47 anos, vítima de um câncer no pulmão, e obrigou o diretor Tod Browning a procurar alguém que pudesse substituir "o homem de mil faces". O escolhido foi um ator húngaro, com forte sotaque, com um currículo de quase 40 filmes feitos em seu país natal, na Alemanha e nos EUA: Bela Lugosi.

Lugosi, além do sucesso instantâneo, teria de carregar até o túmulo a imagem do Príncipe das Trevas. No caso, literalmente: ao morrer, em 1956, o ator foi enterrado com as roupas do Conde Drácula.

Após Drácula estourar nas bilheterias, Laemmle começou a preparar seu próximo filme, Frankenstein. Para o papel principal, ele queria o novo astro do estúdio: Bela Lugosi. Mas os testes de Lugosi como a Criatura não agradaram ao produtor, que acabou se decidindo por um ator inglês de 44 anos, até então conhecido apenas por alguns papéis secundários. Nas mãos do diretor James Whale e do especialista em maquiagem Jack Pierce, Boris Karloff se transformaria em um dos maiores ícones do cinema - e em outra estrela no monstruoso firmamento da Universal.

Nascia a Criatura. Que, apesar da fama alcançada, pouco tinha da personagem do romance que Mary Wollstonecraft Shelley publicara em 1818.

Mary Shelley
Com apenas 17 anos, Mary Wollstonecraft Godwin deixou a casa paterna para viver com o poeta Percy Bysshe Shelley, assumindo o nome Mary Wollstonecraft Shelley.

Durante o verão de 1816, o casal Shelley, o poeta Lord Byron e John Polidori, um médico amigo dos Shelley, estavam hospedados às margens do Lago Genebra quando, reza a lenda, resolveram criar uma espécie de concurso para espantar o tédio: quem conseguiria escrever a história mais horripilante?

Naquela mesma noite, acordada por um pesadelo em que se misturavam eletricidade e ressuscitação de cadáveres, Mary Shelley percebeu que tinha encontrado a história capaz de vencer o desafio. Nascia a Criatura. Dois anos mais tarde, em 1818, Frankenstein, Ou: O Prometeu Moderno apareceu em primeira edição, com três volumes. Mary Shelley tinha apenas 20 anos.

Tão logo o livro saiu, o personagem caiu no gosto popular. Em 1823, os londrinos já podiam assistir a uma peça, de autoria de Richard Brinsley Peake, baseada nos personagens de Frankenstein. A própria Mary Shelley, depois de ter assistido a essa adaptação, teria feito algumas modificações no livro, como por exemplo introduzir o termo "galvanização" nas descrições das experiências de Victor Frankenstein. Era apenas o começo da carreira do Monstro, que ainda não era conhecido pelo nome Frankenstein. No livro, ele é apenas "a Criatura" mas, com o passar do tempo, o nome do criador passou a servir tanto para o criador como para a criatura.

James Whale
O filme que James Whale fez para a Universal tem mais elementos da peça de Peake do que do livro original. Na tela, o Doutor Frankenstein não se chama de Victor, mas Henry. O Monstro não é mais o "bom selvagem" das páginas de Mary Shelley, que descreve uma Criatura bondosa, inteligente e articulada. Sendo um dos grandes expoente da literatura romântica, Mary Shelley concordava em gênero, número e grau com Jean-Jacques Rousseau: toda criatura é originalmente boa, sendo a sociedade o motivo de sua corrupção.

Luiz Nazário aponta ainda várias outras diferenças entre o livro e o filme de Whale. Em Da Natureza Dos Monstros, o crítico paulista aponta o caráter reacionário da obra de Whale. Enquanto no livro a sociedade era uma ameaça para o indivíduo "diferente", no filme acontece o contrário: é o "diferente" que ameaça a ordem da sociedade e, portanto, deve ser destruído.

Tudo é ainda um pouco mais estranho, lembra Nazário, se lembrarmos que James Whale era homossexual declarado e chegou a ser vítima de preconceito dentro da própria indústria cinematográfica, como mostrado em Deuses E Monstros (1998), cinebiografia dos últimos dias de vida de Whale, com Ian McKellen no papel do diretor de Frankenstein.

Reacionário ou não, é inegável que o gênio de Whale é a maior razão para a longevidade de Frankenstein. Enquanto o Drácula de Tod Browning - à parte o carisma de Lugosi e a fotografia do alemão Karl Freund - é um filme na melhor das hipóteses "correto", "Frankenstein", mais de 70 anos após seu lançamento, mantém intacto seu fascínio.

Para chegar a esse resultado, Whale usou e abusou do expressionismo alemão dos anos 20. Os cenários grandiloqüentes de Frankenstein lembram os de Metropolis (1925). A imagem do Monstro, manifestação do que há de horrendo no homem, poderia fazer par com Nosferatu (1922) ou O Golem (1915). Tudo bastante diferente do livro de Mary Shelley, que só seria adaptado com fidelidade em 1994, pelas mãos de Kenneth Brannagh (que também interpretava o doutor) e com Robert De Niro no papel da Criatura.

A Noiva De Frankenstein
James Whale recusou terminantemente todos os convites para dirigir uma continuação de Frankenstein. Mas, quatro anos após o primeiro filme, o produtor Laemmle o fez mudar de idéia e A Noiva De Frankenstein (pasmem) mostrou-se ainda melhor que seu predecessor. Pelo menos uma imagem inesquecível fica de A Noiva: a personagem título, interpretada por Elsa Lanchester. No mesmo filme, Lanchester também interpretava, a própria Mary Shelley, que aparece no prólogo criado para explicar como o Monstro sobrevivera ao incêndio do filme anterior.

No lançamento de A Noiva De Frankenstein, em 1935, a Universal já era um grande estúdio: uma major. Tudo devido aos "monstros dos ovos de ouro" de Carl Laemmle Jr., que não paravam de aparecer. Um ano após Drácula e Frankenstein, Karloff fez o papel principal em A Múmia, dirigido por Karl Freund, uma espécie de "elo perdido" entre o expressionismo alemão e os filmes de terror da Universal.

Antes de emigrar para os EUA, Freund tinha trabalhado em marcos do expressionismo como Metropolis, de Fritz Lang, e Berlim - Sinfonia De Uma Metrópole (1927), de Walter Ruttmann. Após a ascensão do nazismo, ele deixou a Alemanha e acabou sendo contratado no estúdio de Laemmle. (Ele também um descendente de alemães.) Resultado: Freund foi responsável pela fotografia do Drácula de Tod Browning e acabou ajudando a definir o estilo de fotografia que se tornaria uma das marcas registradas da Universal durante os anos 30. (E que, nos anos seguintes, seria a marca de todo o cinema noir.)

A outra marca registrada da Universal era seus atores. Bela Lugosi, após ter perdido o papel do Monstro em Frankenstein, ainda teria ótimos desempenhos em outros filmes do estúdio - mas agora em papéis menores. Ele acabaria contracenaria com seu rival Boris Karloff em O Filho De Frankesntein, terceiro filme da série, desta vez sem James Whale por trás das câmeras. Em O Filho, Lugosi interpretava Igor, o ajudante corcunda do Doutor Frankenstein que, tendo aparecido pela primeira vez nesse filme, praticamente deve toda sua fama ao carisma de seu primeiro intérprete.

Bela Lugosi Is Dead
Apesar do ciclo de monstros da Universal ter entrado em declínio logo no final dos anos 30, o estúdio não parou de lançar filmes com seus mais famosos personagens. Após outro papel secundário em O Lobisomem (estrelado por Lon Chaney Jr., o filho do "homem de mil faces"), Lugosi mais uma vez encarnou Igor em O Fantasma de Frankenstein. Mais tarde, faria uma participação em Ninotchka, com Greta Garbo, e apareceria em Frankenstein Encontra O Lobisomem (a Universal já começava a aceitar qualquer história para manter seus monstros nas telas).

Finalmente, 17 anos depois de ter sido recusado para o papel, Lugosi viria a interpretar o Monstro de Frankenstein. O filme, Abbott and Costello Meet Frankenstein era uma comédia estrelada pela famosa dupla. Nessa época, Lugosi começava uma espiral decadente, que o transformou em uma paródia de si mesmo. Viciado em heroína, ele praticamente conseguiu destruir sua carreira escolhendo papéis que beiravam todos os limites do mau gosto. Um único título diz tudo: Bela Lugosi Meets A Brooklyn Gorilla.

Antes de morrer, Lugosi tornou-se amigo de Ed Wood, o chamado "pior cineasta de todos os tempos". Wood dirigiu alguns dos últimos trabalhos do eterno Drácula: Glen or Glenda e Plan 9 From Outer Space - sua última aparição nas telas. Bela Lugosi morreu sozinho, em casa, aos 73 anos, vítima de uma overdose. Em seu enterro, ao vê-lo nas roupas do Príncipe das Trevas, Peter Lorre teria dito: "vamos ter de cravar uma estaca em seu peito?"

A maldição de Frankenstein
O outro grande monstro dos anos 30, Boris Karloff, teve melhor sorte. Após O Filho De Frankenstein, ele abandonou definitivamente o papel que o consagrara e, durante a década seguinte, trabalharia com o produtor Val Lewton, geralmente interpretando um assassino. Lewton revigorou a Universal ao perceber que, se o estúdio quisesse sobreviver, a era dos monstros teria de acabar. Ele começou a produzir uma série de filmes mais psicológicos, sendo Sangue de Pantera (1942), de Jacques Tourneur, um dos mais memoráveis. Mesmo assim, os monstros ainda davam bilheteria, em filmes de qualidade cada vez mais suspeita.

O próprio Karloff reencontraria o personagem de Frankenstein em House of Frankenstein (1944), mas com um detalhe: desta vez, ao invés do Monstro, ele interpretava o Doutor. Nos anos 50, Karloff alternaria seu trabalho nas telas com alguns papéis na Broadway e, na década seguinte, retornaria aos filmes de terror pelas mãos do produtor independente (e reinventor do gênero) Roger Corman. Boris Karloff nunca parou de fazer filmes até morrer, em 1969, aos 81 anos. E, diferentemente de Lugosi, nosso Frankenstein foi enterrado em roupas civis...

Muito antes da morte de Karloff, já era evidente o tamanho da maldição que a Universal lançou sobre as salas de cinema, que nunca mais se livrariam dos filmes monstruosos. Quando a produtora inglesa Hammer anunciou que pretendia fazer mais uma adaptação da novela de Mary Shelley, a Universal pegou pesado: se a Hammer usasse qualquer elemento minimamente parecido com o filme de 1931 que não estivesse também no livro, ela seria processada.

O processo nunca aconteceu e, em 1957, A Maldição De Frankenstein transformou Peter Cushing, que interpretava o cientista, na nova estrela do cinema de terror. No filme de Terence Fisher, o Monstro era interpretado por Christopher Lee que, no ano seguinte, dirigindo pelo mesmo Fisher e contracenando com o mesmo Cushing, também chegaria à fama no papel de Drácula. E até hoje, como Bela Lugosi antes dele, Lee parece indissociável da imagem do Príncipe das Trevas.

Ele vive
Diferentemente dos astros da Universal, Cushing e Lee não amargaram papéis menores, em parte pela ação de um "benfeitor" comum: George Lucas. No primeiro Star Wars (1977), Lucas deu novo alento à carreira de Peter Cushing ao lhe oferecer o papel do Comandante Tarkin, um dos braços direitos de Darth Vader. No filme, Tarkin explode junto com a Estrela da Morte. Fora das telas, Cushing morreu em 1994, de câncer na próstata. Na nova trilogia Jedi, que narra como Anakin Skywalker entrou para o lado negro da Força, o incansável Christopher Lee (que aos 80 anos já tem mais de 200 filmes no currículo) faz o papel do Conde Dooku.

Frankenstein é também personagem em dezenas de outros filmes, incluindo uma produção japonesa em que ele banca o Godzilla, uma outra adaptação produzida por Andy Warhol e até filmes pornôs. Mas a melhor "livre adaptação" do personagem foi mesmo O Jovem Frankenstein (1974), uma sátira do diretor Mel Brooks aos filmes clássicos da Universal.

Curiosamente, O Jovem Frankenstein foi filmado nos mesmíssimos cenários utilizados nos anos 30, encontrados pela produção em algum dos porões da Universal. Gene Wilder faz o neto do Doutor Frankenstein, Peter Boyle é o Monstro e Marty Feldman está simplesmente inesquecível como o corcunda Igor. (Pronuncia-se "Áigor...")

Apesar de satírico, O Jovem Frankenstein também presta uma merecida homenagem ao objeto de sua paródia. James Whale foi um dos grandes gênios do cinema. A prova é que a imagem que ele criou para Frankenstein, como todo monstro que se preza, parece não morrer nunca. Basta começarmos a acreditar que o mito está se esgotando para o lançamento de uma caixa de DVDs provar a longevidade dos clássicos da Universal, mais uma vez mostrando os talentos de Whale, de Karloff, Lugosi, Freund, Lanchester... Todos eles ressuscitando das trevas para novamente provocar gritos estridentes na platéia.

NO BROWSER
Frankenstein: O texto de Mary Shelley.

From Mary Shelley to Kenneth Branagh: Um dos mais completos sites sobre o Monstro.

Frankenstein (1931): Resumo do filme, com comentários do crítico Tim Dirks.

Bride of Frankenstein (1935): Resumo do filme, com comentários do crítico Tim Dirks.

Mary Wollstonecraft Shelley: Uma completa cronologia e links sobre a escritora.

NA TELINHA
Classic Monsters Collection:
Drácula (Tod Browning, 1931)
Frankenstein (James Whale, 1931)
A Múmia (Karl Freund, 1932)
O Homem Invisível (James Whale, 1933)
A Noiva de Frankenstein (James Whale, 1935)
O Lobisomem (George Waggner, 1941)
O Fantasma Da Ópera (Arthur Lubin, 1943)
O Monstro Da Lagoa Negra (Jack Arnold, 1954)
A Maldição De Frankenstein (Terence Fisher, 1957)
Drácula (Terence Fisher, 1958)

NA ESTANTE
Frankenstein, de Mary Shelley, Editora L&PM.
Da Natureza Dos Monstros, de Luiz Nazário, Editora Arte & Ciência.
Conhecimento Proibido, de Roger Shattuck, Editora Companhia das Letras.

 

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