16.01.04

Mondo Cane

Por Fabio Diaz Camarneiro

Cena de Dogville
Na idéia do dinamarquês Lars Von Trier, havia um pequeno vilarejo num recanto isolado das montanhas do Colorado. Seus habitantes: um velho cego, uma dona de casa, um jovem pensador com pretensões literárias; um trabalhador rural, uma lojista e sua irmã, uma jovem apaixonada pelo pensador; um idiota, algumas crianças, um cachorro...

O diretor desenhou o vilarejo em um estúdio, marcando com tinta branca os lugares onde estariam as ruas e as casas. Confinou ali alguns atores, empunhou sua câmera e criou um desarranjo: Grace (Nicole Kidman). Então, durante 177 minutos de projeção, Von Trier transformou Dogville em um terreno de batalha.

"Primeiro round" ou "Estudando o adversário"
A aparente calma de Dogville desaparece com a chegada de Grace, uma fugitiva de passado desconhecido, procurada pelas autoridades, que encontra um amigo e comparsa no jovem "filósofo" Tom Edison Jr. (Paul Bettany). A entrada de Nicole Kidman em cena não deve nada à Gilda de Rita Hayworth ou a Vivian Rutledge de Lauren Bacall em À Beira Do Abismo. Grace se apresenta como uma femme fatale, prestes a seduzir e manipular os homens do vilarejo de Dogville - principalmente o ingênuo Tom Edison Jr. Quem mais desconfia dela é Chuck (Stellan Skarsgard), um homem simples, trabalhador rural de modo um tanto rude.

Aos poucos, Grace ganha a confiança dos habitantes do vilarejo. A barganha é simples: todos têm seus pequenos interesses, e Grace descobre como contentá-los. Se até aqui a narração off e o tom memorialístico lembram o Thornton Wilder de Nossa Cidade, o estudo das motivações econômicas por trás das aparências sociais lembra o Bertold Brecht de A Ópera Dos Três Vinténs. Se Grace fosse uma femme fatale e Dogville, um filme noir, no decorrer da ação ela seria "descoberta" como uma grande manipuladora. Mas não é isso que acontece.

"Segundo round" ou "Só o amor salva"
Aos poucos, Dogville vai se aproximando do melodrama clássico, um dos territórios prediletos de Von Trier. As personagens femininas de seus filmes, símbolos de pureza, normalmente perecem ao final, vítimas de algum sacrifício. Assim é com a Bess (Emily Watson) de Ondas Do Destino e a Selma (Björk) de Dançando No Escuro.

Enquanto Grace e Tom se apaixonam, o vilarejo começa a hostilizá-la. O que antes era barganha pela aceitação daquela personagem estranha, uma ameaça em potencial, começa a se transformar em exploração. Em cada habitante, Grace passa a encontrar um antagonista. As mesquinharias daquelas pessoas tornam-se explícitas. Ela, como as típicas heroínas de Von Trier, começa a ser sistematicamente humilhada.

Não há mais espaço para uma femme fatale. Se o jogo do filme noir é um (a femme fatale controlando as aparências), o do melodrama é outro completamente outro (a heroína sucumbindo frente a um mundo moralmente corrompido). Von Trier, pelo excesso de dor que inflige a sua personagem principal, está próximo do sadismo e do grotesco do cinema de Rainer Werner Fassbinder. Em Martha, por exemplo, a protagonista sofre por amor. Mas sofre tanto que acaba subvertendo a lógica da devoção amorosa. Amar torna-se algo estúpido.

Grace a tudo suporta de maneira estóica, mesmo o estupro cometido por Chuck, o homem simples e rude que - fosse Dogville um filme noir - poderia ser o detetive durão ao invés do algoz. Os papéis começam a se confundir. Lauren Bacall (a femme fatale aos 78 anos) interpreta uma Ma Ginger moralista e intransigente. Jack McKay, o cego interpretado por Ben Gazzara, subverte a tradição e mostra-se apenas isso: cego. (É interessante pensar na longa tradição de cegos no cinema, desde Órfãs Da Tempestade, de David W. Griffith, passando por Sublime Obsessão, filmado por John M. Stahl e depois por Douglas Sirk, até chegar a, claro, Dançando No Escuro. Até no Frankenstein de James Whale o cego desempenha um papel especial, vendo a verdadeira "alma" que o monstro esconde sob sua aparência terrível.)

A confusão dos papéis, que recusam qualquer estereótipo fácil; a voz over (do ator John Hurt) que narra a história e comenta a ação e o pensamento dos personagens; o modo de construção das cenas, próximo ao distanciamento proposto por Brecht; a ausência de cenário "real", evidenciando o tom de fábula; a construção em episódios - tudo isso faz de Dogville uma obra aberta que demanda o exercício de interpretação do público.

"Terceiro round" ou "O apocalipse segundo a máfia"
Grace suporta inúmeras humilhações e até seu querido Tom Edison Jr. a decepciona. Dogville parece caminhar para outro sacrifício, como nos demais melodramas de Von Trier, mas eis que o passado de Grace surge na figura de um Chefão (James Caan) dentro de uma limusine.

O diálogo entre os dois é quase bíblico, com Grace (anjo enviado a uma terra de pecadores) tentando convencer seu interlocutor da "bondade" dos habitantes de Dogville. Como Cristo (ele também um bode expiatório no grande melodrama do Novo Testamento), ela argumenta que eles, sendo apenas humanos, "não sabem o que fazem". Essa conversa é o ponto de virada do filme, que dispara uma reviravolta completa. A partir daí, vê-se a revanche da protagonista, mostrada de forma tão cruel e contundente que toda interpretação maniqueísta (típica do revanchismo didático de Hollywood) sucumbiria frente à barbárie.

Ao final, Dogville volta a ser o que sempre foi: um cenário deserto, com indicações pintadas no chão. Resta apenas o latido do cão, cumprimento da ameaça de que o homem retornará ao estágio bestial, longe de qualquer razão (talvez, o homem jamais tenha saído desse estágio). O cão, também figura limítrofe, guarda a segurança do lar (seja uma casa ou um vilarejo) das ameaças do exterior. O cão, também associado ao demônio, de Cérbero, com suas três cabeças, guardando a entrada do Hades grego ao popular brasileiro (segundo Câmara Cascudo, para o povo, cão é sinônimo de diabólico). Entre os muçulmanos, o cão é animal imundo, poluindo pelo contato qualquer objeto consagrado.

Os créditos finais, ao som de "Young Americans", de David Bowie, mostram retratos de uma América derrotada. Os "reais" excluídos surgem por trás de toda a representação teatral. Dogville não mostra culpados, não faz propaganda, não aponta diretamente os EUA como responsáveis por certo desequilíbrio do mundo (George W. Bush como uma espécie de Chefão que seduz pela beleza de sua "Graça"). Mas a forma de construção do filme de Von Trier, sua dramaturgia absolutamente crítica, seu abandono em relação ao ideário de lágrimas (herança do melodrama do século XIX) que parece dominar os debates sobre o mundo contemporâneo - tudo isso mostra que, diferentemente do que mostram os gêneros cinematográficos, no mundo real não existem mocinhos ou bandidos.

No embate entre Grace e Dogville não existem vitoriosos. Ela não é femme fatale ou bode expiatório, mártir ou anjo exterminador. Ao mesmo tempo, ela é tudo isso. Da mesma forma, Dogville não é terra de paz e harmonia, nem território de pessoas mesquinhas e cruéis. Talvez mesmo o Criador (seja ele Lars Von Trier ou alguma entidade superior) não sabia muito bem o que estava fazendo ao criar esse mundo. Talvez Dogville seja um erro, e aquele cenário sirva melhor para alguma outra interpretação que agrade à sensibilidade pequeno-burguesa (pegando emprestado um termo caro a Brecht).

De qualquer forma, esse mundo é muito mais complexo do que aparenta ser à primeira vista. É, talvez, muito mais complexo do que o mundo que aparece nos telejornais. Desde Os Idiotas Von Trier não fazia uma obra tão ambígua e assustadora, tão ousada e contraditória. Manderlay, seu próximo filme, foi anunciado como o segundo episódio de uma trilogia sobre a América, iniciada com Dogville.

Desce a cortina. Findo o combate, os sobreviventes se retiram e os mortos são enterrados. A noite cai e traz o esquecimento. O teatro agora está vazio. Os retratos dos esquecidos permanecem na memória. Será essa a América descrita na canção? Ao longe, os cães continuam ladrando...

 

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