23.04.04

Contra as convenções

Por Fabio Diaz Camarneiro

Sylvain Chomet, em entrevista ao site da BBC, em agosto de 2003, reclamou da rigidez da animação mundial: um filme animado deve se destinar a crianças, mostrar sentimentos nobres, ter bandidos e mocinhos em lados opostos e terminar com uma moral. "Não se pode mostrar alguém fumando um cigarro, por exemplo", concluiu o desenhista.

As Bicicletas De Belleville (Les Triplettes De Belleville), primeiro longa-metragem de Chomet, vem provar que regras existem para ser burladas. O filme começa em um ambiente que remete aos anos 30: um cabaré envolto em fumaça de cigarro. Em um canto, Josephine Baker dança. Mais adiante, Django Reinhardt toca seu violão. Charles Trenet canta e Fred Astaire faz seu sapateado. Mas a atração principal da noite são as Triplettes (um trio de cantoras) com seu contagiante "scatting".

O criador de Belleville estudou Belas Artes e Quadrinhos na França durante os anos 80 antes de se mudar para Londres para trabalhar no estúdio de animação de Richard Purdum. Lá, conheceu alguns dos grandes animadores de sua geração, como Michael Dudok de Wit (de Father And Daugther). De volta à França, Chomet escreveu e desenhou várias BDs ("Bande Dessinée", o termo francês para História em Quadrinhos) e criou Léon La Came, série ilustrada por seu parceiro Nicolas de Crécy e publicada na revista A Suivre. Léon La Came ganhou o prêmio René Goscinny em 1996 e se tornou um "cult" em toda a Europa. Dois anos mais tarde, Chomet lançou seu primeiro filme, La Vieille Dame Et Les Pigeons, que concorreu ao Oscar de melhor curta-metragem de animação.

As Bicicletas De Belleville também concorreu ao Oscar (melhor longa de animação), mas perdeu para Procurando Nemo, dos Estúdios Pixar. Nemo é o perfeito modelo da "rigidez" denunciada por Chomet. Em Nemo, assim como nos filmes de sua maior concorrente, a Disney, o mundo pretende ser perfeito. O pequeno Nemo tem uma nadadeira menor que a outra, mas (após uma série de percalços) aprende que pode se virar muito bem assim. Os demais personagens também lidam com a superação de seus limites: Dory é amnésica, Marlin é superprotetor, Gil é obcecado. Cada um deles ultrapassa sua deficiência para atingir as tão desejadas perfeição e harmonia. Mas o caminho, claro, envolve lágrimas e emoções exacerbadas.

Se Nemo (e o grosso de uma certa animação "convencional") fala de emoções e moral, Chomet fala de estoicismo e ironia. A vida dos personagens em As Bicicletas De Belleville lembra o percurso do Tour de France: a largada e a chegada são no mesmo lugar. Ou seja, milhares de quilômetros são percorridos para se voltar ao mesmo lugar. No longa de Chomet, todos também têm defeitos mas, diferentemente dos mundos perfeitos da Pixar e da Disney, ninguém parece se importar muito. Por isso mesmo, Champion e sua avó são personagens que não conhecem dúvida ou hesitação. Eles simplesmente agem, driblando as adversidades sem esperar recompensa.

Champion é um garoto tímido e solitário que vive em uma soturna casa ao lado de uma ferrovia. Com o tempo, ele se torna um ciclista obsessivamente treinado pela avó, uma portuguesa com sapatos ortopédicos. (Diferentemente do também aleijado Nemo, ela jamais se questiona se seu defeito físico pode impossibilitá-la de alguma coisa.)

Champion se inscreve na Volta da França, o famoso Tour de France, uma das mais tradicionais provas do ciclismo mundial. Porém, durante a disputa, Champion é seqüestrado. Sua avó e o cachorro Bruno partem então em sua busca, indo parar em uma megalópole localizada além do Oceano Atlântico e chamada Belleville: uma grande metáfora da América - com seus habitantes gordos, suas lojas de hambúrguer, seus gangsters - que Chomet descreveu como uma mistura de Nova York e Montreal, cidade em que ele vive. Em Belleville, o Champion prisioneiro é obrigado a pedalar em uma máquina enquanto a platéia faz suas apostas e espera os ciclistas chegarem à total exaustão. Talvez uma crítica à contemporânea cultura "indoors", que celebra o shopping center e a internet, enquanto deixa as ruas à mercê da paranóia da insegurança.

Vovó Souza acaba tendo a ajuda das Triplettes (as mesmas da abertura) para reencontrar seu neto. Velhas e aposentadas (mas ainda com muito fôlego para o "scatting"), elas protagonizam alguns dos momentos mais cômicos do filme, como quando transformam peças do cotidiano em uma orquestra. A reinterpretação dos objetos do mundo, um tema clássico do humor, cujo maior exemplo talvez seja a sola de sapato que Chaplin transforma em filé em Em Busca Do Ouro (The Gold Rush).

Como os personagens de Chomet não são afeitos a lamentações, As Bicicletas De Belleville é pura ação cinematográfica (não confundir com perseguições e explosões, apesar de haver um pouco de ambas na seqüência final). Esse gosto pela ação, pelo "externo" em detrimento ao "interno" (a psicologia de Procurando Nemo?), é reforçado pela ausência de diálogos. As poucas palavras ouvidas em Belleville são incidentais. O filme é também uma pequena ode ao cinema mudo. Ao vermos os rostos impassíveis dos personagens, com suas atitudes estóicas perante as adversidades, é impossível não lembrar de Buster Keaton, um dos maiores comediantes do cinema mudo, conhecido como "o homem que nunca ri".

Como a Baleia de Vidas Secas, romance de Graciliano Ramos, em Belleville o único que parece esboçar dúvidas e medos é um cachorro: Bruno. Em seus sonhos, ele se apresenta muito mais perturbado que seus colegas humanos. Por isso mesmo, torna-se um dos personagens mais fascinantes do filme. Além disso, a psique de Bruno possui um toque de delírio surrealista que percorre todo o filme - como quando uma das trigêmeas pesca rãs utilizando explosivos. Outra estratégia de Chomet para escapar da rigidez da animação convencional. Outra estratégia são suas influências.

Há muito do espírito de Jacques Tati em Belleville. Monsieur Hulot não é muito diferente de Champion ou de sua avó: legítimos franceses sempre em conflito com o mundo, de modos simples e educados. Melancólicos e avessos à tecnologia, são quase obrigados a subverter o sentido do mundo para nele sobreviver. Além disso, é impossível ver Champion pedalar e não lembrar Carrossel Da Esperança (Jour De Fête), de 1948, primeiro longa de Tati, cujo personagem principal é um carteiro que vive sobre uma bicicleta.

O visual criado por Chomet lembra a estilização e o toque grotesco de alguns diretores franceses contemporâneos, como Marc Caro (de Delicatessen) e Jean-Pierre Jeunet (do mesmo Delicatessen e de Amélie Poulain). A exceção é a abertura, um programa de TV relembrando personagens famosos, que mostra uma influência mais "melancólica". Seu estilo remete aos irmãos Max e Dave Fleischer - criadores de Betty Boop, Popeye e também os principais concorrentes de Disney e seu Mickey Mouse durante os anos 20 e 30. É como se Chomet revogasse uma posição marginal no território da animação mundial, contrária aos clichês convencionais. Betty Boop, por exemplo, não tinha medo da sensualidade - um dos tabus da animação. Ao lado de Chomet, há também os japoneses, com destaque para o Hayao Miyazaki de A Viagem De Chihiro.

Selecionado para o Festival de Cannes em 2003, As Bicicletas De Belleville é tão francês quanto a Torre Eiffel ou uma canção de Charles Aznavour; um filme de Eric Rohmer ou um copo de Bourgogne. Passando longe dos clichês do gênero e extraindo beleza de cenários ambiguamente sombrios e personagens grotescos e inusitados, Sylvain Chomet faz um filme que certamente agradará ao público adulto. Quando perguntado se fará filmes para o público infantil, Chomet se surpreende: "Mas eu já faço! As crianças adoram."

Prova de que a inteligência dos pequenos está muito além dos clichês de uma certa animação mais convencional.

 

Outros textos de cinema:

O documentário 33 desvenda uma história pessoal - a busca pela mãe adotiva do diretor, Kiko Goifman - usando artifícios do cinema noir

Entre o filme noir e o melodrama, Lars Von Trier constrói Dogville, palco de uma batalha e de uma fábula ambígua sobre a América, sem mocinhos ou mocinhos

Sob o signo do caos e as fagulhas de Orson Welles, Rogério Sganzerla constrói anticinema no país dos fracassados

Acaba a guerra, o bem vence, mas o fim da trilogia deixa fãs de O Senhor Dos Anéis sem perspectiva
de presente de Natal em 2004

Stoked, documentário sobre a vida do skatista Mark Gator, questiona as relações entre o esporte e sua exploração comercial

Seja O Que Deus Quiser subverte estereótipos, pelos personagens e por mostrar que filmes-para-adolescentes-com-a-estética-MTV não precisam ser idiotas

Erich Rohmer recria a Revolução Francesa com computação gráfica e sob a ótica da aristocracia monarquista em A Inglesa e o Duque

Para Fabio Camarneiro, As Panteras Detonando é um sinal de que o cinema está assimilando a cultura do controle remoto

Snake, o Buttman da Amazônia, faz pornô com "pessoas comuns"

Para Jean-Luc Godard "o único cinema real é o cinema pornográfico"

Frida e A Arca Russa tentam o impossível: levar as artes plásticas ao cinema

Crepúsculo Dos Deuses já escancarava lado podre de Hollywood em 1950

Ilusão e realidade se confundem no Solaris, refilmado por Soderbergh

Polanksi afirma em O Pianista uma trajetória e desafia uma convenção

Com 13 indicações ao Oscar, Chicago mistura a magia dos musicais à lógica MTV

Adaptação é metalinguagem sobre a batalha entre o artístico e o popular

O Pianista redime Polanski e a História, mas será que um final feliz basta?

João César Monteiro deixa lições de genialidade e ousadia no cinema