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Março
/ 2003
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Tolices que valem a pena
A discussão
ganha reforço com a chegada aos cinemas de Adaptação,
novo filme da dupla responsável por Quero Ser John Malkovich,
o cineasta Spike Jonze e o roteirista Charles Kaufman. Em Adaptação,
a batalha entre ser artístico ou popular ganha representação
metalinguística, manipulação do mundo real, exageros
cinematográficos, citações cool e deliciosas ironias.
Desde o primeiro segundo de projeção, quando sob fundo preto,
o personagem principal questiona em off seus valores, até o último
milímetro da película, quando uma auto-citação
tenta, por fim, encerrar toda discussão, o espectador estará
frente a frente com 114 minutos de pura genialiade cinematográfica.
Do começo
então. Após o fabuloso discurso inicial, nosso interlocutor
se pergunta: "Onde tudo isso começou?". Corte para imagem
e o aviso: "2 bilhões e 40 anos antes". Desse ponto em
diante temos toda criação repassada em segundos até
o nascimento de um bebê, Charlie. Próximo corte e estamos
no estúdio em que está sendo filmando Quero Ser John
Malkovich. O personagem título do filme chama a atenção
de todos no set de filmagem e a camêra encontra Charlie Kaufman,
um sujeito desajeitado cumprimentando (como que se desculpando) os atores
do filme em que é roteirista. Interpretado por Nicolas Cage, Charlie
se sente inseguro, incapaz, cansado, não merecedor de estar no
mundo de fantasia hollywoodiano.
O roteirista
acaba de receber a tarefa de adaptar para o cinema um livro, O Ladrão
De Orquídeas, de Susan
Orlean (Meryl Streep), que conta a história de um caçador
de orquídeas, John Laroche (Chris Cooper), mas, durante o processo,
sente-se pressionado por si mesmo. "É difícil demais
mexer em uma obra de outra pessoa", desculpa-se para seu agente em
certo momento. Para piorar as coisas, seu irmão gêmeo, porém,
totalmente diferente de si, Donald (Nicolas Cage mesmo), começou
um curso de roteiros e planeja aventurar-se na área, pedindo conselhos
e inspirando Charlie a desinspirar-se. Mundo real
e imaginação se misturam. O livro, O Ladrão De
Orquídeas, realmente existe. A escritora e jornalista Susan
Orlean, também. A adaptação foi realmente encomendada,
mas Donald, o irmão gêmeo, de Charlie é pura invenção.
Donald é a grande adaptação de Adaptação.
Ao criar um personagem gêmeo de si mesmo, Charlie dividiu sua persona
em duas, a razão e o coração. E preencheu quase toda
a projeção do filme de metalinguagens. Assim, quanto mais
Charlie se envolve com o projeto, mais enlouquece, mais amplifica o embate
"arte x popular". Enquanto conversa consigo mesmo (ou seja,
com Donald), Charles, reinventa o modo de contar histórias, encaixando-se
na "realidade" da trama, jogando um balde de ironia sobre a
indústria, recheando de metáforas a obra (o verbo adaptar
tem, ali, pelo menos, quatro significados, ou mais), recriando o mundo
real do cinema. Nos últimos
segundos da projeção, após todos os letreiros terem
subido, inclusive o logo da produtora, uma dica, retirada do roteiro Os
Três, de Donald Kaufman, a quem o filme é dedicado: "Não
é uma tolice a célula cardíaca odiar a célula
pulmonar?". Se pensarmos que ambas vivem dentro do mesmo corpo, sim.
Mas, sim? Só isso? Bem, se sim ou se não ou só isso
(a discussão segue noite adentro, com pequenas pausas para caviar
e ovo frito, desde a pré-história), o que fica é
que Spike Jonze e Charlie Kaufman conseguem, com Adaptação,
realizar um dos grandes filmes dos últimos tempos. Isso basta.
Ou não?
Post Scrip Metalinguístico |
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