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Novembro
/ 2002
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Em
uma palavra: Ícaro Mas não se deixe enganar. Se alguém te disse que ele é um retrato da cena dessa cidade do final dos anos 70 até o começo dos noventa, você foi ludibriado. Ele é um filme-umbigo, que apenas dá uma geral na história de duas propriedades de um jornalista chamado Tony Wilson: a Factory e o Hacienda - o primeiro, um pequeno selo responsável pela descoberta de bandas como Joy Division, New Order e Happy Mondays, e o segundo, o clube noturno que cozinhou e espalhou para o resto da Inglaterra - e do mundo - a onda da acid house e do ecstasy. Por isso, aquelas bandas que também saíram de Manchester mas não estavam diretamente ligadas a Wilson, por maior que seja sua importância para a música pop, são impiedosamente ignoradas. The Smiths e Stone Roses, por exemplo, que não lançaram seus álbuns pela Factory, têm seus nomes citados apenas uma vez cada. Então, dividido em dois atos, 24 Hour Party People (ou A Festa Nunca Termina) fala sobre as já citadas bandas Joy Division e Happy Mondays. E, para prejuízo do filme e tristeza de muitos, gasta mais tempo falando da segunda. Aqui, o mito/gênio Ian Curtis acabou perdendo para os "excêntricos" Shaun Ryder e Bez, um baú sem fundo de histórias hilárias regadas a muitas drogas de todos os tipo. Essa escolha é significativa: revela que a intenção do roteirista (Frank Cottrell Boyce) e do diretor (Michael Winterbottom) de fazer um filme divertido e de auto-celebração era maior do que qualquer outra preocupação. Porque a segunda parte do filme, dentro do Hacienda lotado e do ônibus do Happy Mondays, é obviamente mais colorida e festiva do que o começo, das roupas escuras e música pesada do pós-punk de um epiléptico suicida. No entanto, não é preciso profundos conhecimentos musicais para saber qual dos dois grupos foi mais importante para o mundo. O filme assume, em vários momentos, a enorme pretensão de Wilson, como quando o seu produtor "ensina" os membros do Joy Division a tocar e criar o seu som. Mas ao mesmo tempo, ele coloca todos os personagens nas situações mais patéticas - principalmente Wilson. E esse é um dos méritos do filme: ele não tem glamour. Por mais que 24 Hour Party People seja auto-indulgente, há tanta ironia e aquele típico humor inglês que ri de si mesmo que isso o impede de cair na arrogância chata. Até no momento mais pesado do filme, o suicídio de Curtis, o destaque é quase maior para a "piada" - enquanto é mostrado seu corpo pendurado na cozinha, a televisão ao fundo mostra imagens de uma galinha, o símbolo universal para covardia. Com altos e baixos, entre os bons trechos e momentos discutíveis, 24 Hour Party People acaba sendo altamente divertido, recheado de ótimas tiradas. E não tem como negar que é sempre bom ouvir o testemunho de alguém que ajudou a construir a música pop como a conhecemos hoje, por mais parcial que seja o relato ou por mais idiota que seja o narrador. Além disso, o filme tem pelo menos uma cena antológica. Porque mesmo sabendo que se trata do ator Sean Harris e não do próprio Ian Curtis, a imagem de seu corpo vestido de branco, com as mãos cruzadas, deitado dentro do caixão, seguida pelas cenas de arrepiar do clipe de "Atmosphere", é de dar um nó na garganta do mais insensível raver da platéia. Por isso, ao contrário do que diz o nome em português, a festa termina sim. Para Curtis, terminou aos 24 anos em uma corda após assistir a um filme de Werner Herzog. Para Bez e Ryder, o fim chega quando acaba o dinheiro para as drogas. Para Tony Wilson, termina quando ele não consegue mais administrar as dívidas da Factory e do Hacienda, que nunca deram lucro, e tudo precisa ser vendido. E para nós, espectadores, acaba ao som de uma música do New Order. Contudo, a música é nova. E é ótima. Mesmo após tantos anos. No fim das contas, que nostalgia pode ser melhor do que isso? |
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