Nesta edição, convidamos Crib Tanaka para ser a editora dos Blogautores.
Ela, por sua vez, convidou mais duas autoras, Índigo e Andréa Del Fuego, para participar. Como fala Jorge Rocha: o império se expande.
Por isso, regojizemo-nos!
1- AMARÁS A DEUS SOBRE TODAS AS COISAS
2- NÃO ADORARÁS IMAGEM ALGUMA
3- NÃO USARÁS O NOME DO SENHOR EM VÃO
4- GUARDARÁS O SÉTIMO DIA APÓS SEIS DE TRABALHO
5- HONRARÁS PAI E MÃE
6- NÃO MATARÁS
7- NÃO COMETERÁS ADULTÉRIO
8- NÃO ROUBARÁS
9- NÃO LEVANTARÁS FALSO TESTEMUNHO
10- NÃO COBIÇARÁS A MULHER DO PRÓXIMO
Resguardar vontades, limitar anseios, equilibrar consciências. Leis (?) abstratas, empilhamento de nãos, subjetividades gravadas sob(re) pilares humanos. A imposição segue o critério individual, resvala entre vãos, cai como duas tábuas. Palmatória? Livre-arbítrio.
Qual pecado te toca?
A resposta = um conto.
Crib Tanaka
Joinville
Brígida foi arrastada para Joinville por um marido poeta que depois de um ano na cidade conseguiu ser atropelado por um caminhão e morrer. Agora ela toma chimarrão numa cadeira de balanço e observa a cidade lá embaixo. Cidadezinha que mais parece um vilarejo de smurfs. É mineira, a Brígida. Nesse dia bebe o chá que nunca aceitou, quando o marido era vivo. Maridos morrem mesmo. O que Brígida não entende é como ele não reparou no caminhão. De concreto. E cheio.
- Mas, do que adianta chorar sobre o leite derramado? Hã? – pergunta Brígida para uma borboleta amarelinha que rodopia sobre sua cabeça.
Morto. Morto da silva.
A borboleta pousa sobre seu joelho, dando um toque sentimentalóide ao ambiente. Brígida arma um peteleco com o dedo do meio e mira as asas dobradas. Conta até três para disparar. Ummmm, dooooois, e lá vão oooooos... A borboleta sacode a bundinha. Brígida dispara e o inseto cai morto no chão.
Sendo assim, ela pode deixar Joinville e voltar para o mundo. Despeja o resto do chimarrão fervente sobre as lindas hortências. Alguns passarinhos cantam em revoada, anunciando a noite que cai gelada. Ele teria sugerido acender a lareira. Passaria o braço pelos seus ombros e caminhariam juntinhos para dentro da casa. Não era do feitio dele morrer assim.
Escrevia poesias e as publicava. Os livros eram vendidos, com prestação de direitos autorais a cada seis meses. Fazia noite de autógrafos e dava entrevistas. Levava a vida de poeta. Brígida trabalhava como tradutora juramentada.
Agora, um poeta morto. Não que isso mudasse muita coisa, uma vez que eles moravam no alto de uma colina onde margaridinhas amanheciam cobertas de orvalho e na garagem havia duas bicicletas e nenhum carro. Bem, uma bicicleta, pois a outra esmagada, fora direto para o ferro velho, ou para onde vão bicicletas depois de mortas.
Brígida ouve a cantoria dos smurfs subindo o morro, lá lá lá lá lá lá Lá!... voltam de um dia de trabalho para seus casebres, onde jantarão sopa de legumes e jogarão dama com filhotes vestidos em confortáveis pijamas de flanela.
Se tivessem ido morar em Minas Gerais, como ela tanto insistiu, a essa hora o marido estaria voando pela casa, arrastando correntes ou aparecendo enforcado no lustre da sala de jantar, gritando seu nome. Mas em Joinville nada disso vai de acontecer. De certo ele está bem sereno, encostado ali mesmo no pórtico da varanda, observando a amada esposa uma última vez, antes de partir para sempre.
Ocasionalmente ele mandará uma lembrança, de forma bem delicada para não assustá-la. Uma pétala que cairá no seu ombro, ou uma brisa num dia quente. Quanto muito uma melodia num bem-te-vi. Estará sempre ali, na cadeira de balanço, como deveriam estar quando velhos. Assim ele havia prometido.
- Mas as coisas mudam, não é mesmo, amiguinha? – pergunta Brígida e chuta o cadáver da borboleta amarela.
Brígida irá embora dali. Nunca precisou de ar fresco. Comeu carne de porco a vida toda. Voltará para Minas Gerais, onde é seu lugar. Basta pegar um texto técnico em alemão para traduzir e o mal-estar passará. Isto há de melhorar as coisas.
Brechó
Ela, peça exposta no brechó de variedades. Em meio a porcelanas, parada como uma estátua, ali tinha decidido ficar. Não, não queria mais se mover.
Assim que entrara na sua nova casa, espirrara ao sentir o mofo das roupas antigas. Apesar da alergia, não se incomodava em viver, a partir daquele hoje, entre sexagenários e objetos já quebrados pelo uso.
Perguntou à locatária como faria para morar ali. Ouviu, calmamente, que teria um preço negociado por ambas. Decidiram então, depois de um chá, que não custaria nada exorbitante, mas deveria oferecer-se como peça rara. Não era comum. A pele de tom único e os cabelos negros, lisos, frutos de descendência nipônica tornavam-na artigo de luxo.
Mãos na cintura, um pé diante do outro. Posicionara-se entre desenhadas porcelanas, pintadas à mão. Os rabiscos verdes e vermelhos favoreciam-na. À sua frente, um espelho grande, vitoriano, de moldura dourada. Decidira não mais se mexer.
Senhores de óculos examinavam-na de perto. Mulheres inchavam os olhos da inveja quando sentiam os pesados fios ébanos escorrerem em suas mãos. A estátua era espantadora. Parecia real, parecia acompanhar com os olhos quem entrasse no brechó. Atraiu homens ricos. Foi negociada por alto preço, por um costureiro japonês.
Foi posta, sozinha, em vitrine cobiçada pela alta sociedade. Era a mais nova criação do mestre da alta costura.
Casaco de pele macia, desses que vão até os joelhos. Botões forrados de pele, encontrando-se até embaixo do queixo. Coisa fina, para ser usada em lugares bem frios. Tamanho grande. Moldado por mãos hábeis, cinturado e largo nos quadris. Acabamento impecável de cetim negro, brilhoso como a seda, instigante ao toque.
Ficou dois meses na vitrine. No mesmo lugar. Sem porcelanas, nem espelhos.
Foi vendido no último saldo da loja. Pela metade do preço. Para a dona de um brechó.
Articulações
Ouvíamos o público ligeiro se acomodar nas cadeiras. Era gente com espinha e barulho na barriga, gente com verme, desconfio.
Sempre fui a mão direita de Antônio.
Não sei o que deu na cabeça dele, de repente me vestiu em sua mão esquerda e colocou o Mefisto na direita.
Estranho.
Queria aquele braço direito a todo custo, o danado passeava pelo palco melhor.
Fui costurado pela mão de dona Luli, uma negrona de beiços largos. Sorriu uma fazenda ao terminar de me coser as beiradas.
Ela pediu pro filho do meio me provar, o garoto rasgou-me uns dois pontos — a mão era redonda a fazer brilhar a pele. Quando os dedos tomaram minha cabeça e os braços, senti que meu destino ia ser melhor que o da Vovó Cristina — feita do mesmo pano que eu e acabou vestindo um filtro de barro.
Eu, um homem, um Fausto, vestindo uma mão esquerda.
Estranho.
Dona Luli, enquanto me cortava no tecido, disse ao filho que o bem e o mal não podiam inverter seus lugares. Guardei aquilo pra mim.
Nunca vi o rosto de Antônio, movimentos de frente para um espelho ou algo que o refletisse, jamais.
Sabe o que é viver sem conhecer a face de quem te manipula?
Depois do espetáculo, fomos deixados juntos, eu e Mefisto dentro da caixa maior. Julguei com isso que dali partiríamos outra vez.
Um calor desgraçado, a poeira entrou pelas fissuras da madeira e borrou-nos de terracota. Sertão baiano.
Antônio entrou numa briga, bem na praça onde nos apresentávamos. Não deu tempo dele nos tirar das mãos. Fui de frente para uma testa sertaneja.
Mefisto guerreou melhor, Antônio estapeou o rapaz com a mão direita, suas melhores articulações estavam lá.
Depois tive que me acostumar com o ar condicionado do brechó, mas quando cheguei o mais difícil foi dividir a estante com uma Barbie série noivas — ela não tinha uma das pernas e à noite eu tinha que levá-la no colo até o banheiro. Aquela ali adorava um toilette.
Assim que seu pai me comprou, achei que voltaria aos palcos. Faz dois anos que sou teu móbile e você nunca me deu outra função a não ser olhar teu sono todas as noites. Um dia, se colocar-me em sua mão direita e emprestar-me sua voz, lhe contarei a história das luzes e das cortinas que as escondem.
a mulher.
abro a porta do ap. acendo a luz. a sala é, então, iluminada por uma claridade fraca, reflete no espelho. esconde a sujeira que se apossou do chão. Stella me aguarda de pijama, com os olhos de quem acabou de acordar.
são 3 e meia da manhã de uma noite fria. estou molhado. tiro o casaco, penduro no cabide, já repleto de roupas. Stella beija a minha boca, desafivela o meu cinto, segura o meu pau e aperta. estou bêbado demais para dizer. minha consciência oscila, os olhos se apertam, ignoro tudo. proteção, ritos, bom-senso.
Stella senta no meu desejo, morde os meus dedos, que pedem desesperadamente para sua voz correr pra dentro. [tem muita gente nesta casa, Stella. um barulho, e eles acordam]. foda-se. adentramos o quarto, deitamos na minha cama, percorremos um o corpo do outro. saliva, hormônios, febre. enlouqueço.
Stella me empurra pra fora, engole de uma vez os meus alguns centímetros. até. então, cospe as minhas gerações futuras no tapete velho, bebe da água esquecida sobre a cabeceira. e se vai.
já nem sei o que pensar. essa nossa rotina desvairada, os nossos motivos, descompromissos, as nossas trepadas. solidão a dois, a três, a quatro. [quando será que voltarei a ter meu próprio quarto?] não me respondo.
apenas observo Stella na cama ao lado, abraçada a sua namorada.
Antes Fosse
- Maria, você não pode fazer isso.
- Isso o quê, Antônio ?
- Isso, Maria, encher o macarrão de catchup. Eu tenho todo esse trabalho pra fazer um molho à bolonhesa de qualidade e você o estraga emporcalhando com esse líquido industrializado.
- Ah, não enche, eu gosto de catchup, tá ?
- Isso é um sacrilégio, isso sim!
- E você lá sabe o que é um sacrilégio ? há quanto tempo não vai à igreja, hein ? nem saberia dizer quais são os dez mandamentos.
- Ah, tá. Não matarás, não cobiçarás a mulher do próximo, não dirás o santo nome em vão... - coça a cabeça - Ah, tá, não lembro. Pouco me importa, vou dormir.
- Pois é, vai dormir cedo, amanhã tem que trabalhar, né ? De domingo a domingo naquela porcaria de loja, não pensa em outra coisa a não ser trabalho.
- Lembre-se de que é aquela porcaria de loja que nos sustenta.
- E você parece não se dar conta de que fere um dos mandamentos: guardarás o sétimo dia após seis de trabalho.
Antônio faz um movimento de mão indicando que a conversa chegou ao fim.
Deita e dorme tranqüilo. Como sempre acorda cedo, faz seu próprio café e segue o seu caminho de todos os dias. Arruma as coisas e abre a loja, mas ele sabe que dificilmente algum cliente aparece no domingo pela manhã.
Aproveitando-se disso resolve voltar pra casa, não pra fazer uma surpresa, mas só pra contrariar Maria.
Entra em casa em silêncio, disposto a acordá-la dando um susto. Encontra Maria, em sua cama, com outro cara. Sim, eles se assustam, ficam atônitos a fitá-lo, enquanto ela tenta cobrir o corpo que, aparentemente já não é surpresa pra nenhum dos dois.
- Eu não posso dar as costas pra você nem por um segundo, né ?
Ela o olha meio assustada, o amante a seu lado mais assustado ainda.
- E esse aí, quem é ? - ele quebra o silêncio mais uma vez - Não vai me apresentar ?
- Esse é o Jerry, diferente de você ele sabe me dar atenção.
- Putaqueopariu, você me traiu com um cara com nome de desenho animado ?
- Êpa - Jerry resolve interferir - Também não precisa ofende...
- Ô seu filho da puta, fica calado aí.
Jerry obedece.
- Eu quero o divórcio, Antônio.
- Não, Maria, EU quero o divórcio. - pega uma sacola e joga algumas camisas dentro, o gesto é mais simbólico do que prático, ele sabe que vai ter que voltar pra pegar o resto depois.
- Eu vou trabalhar, isso sim.
Vai saindo pela porta quando Jerry o alcança.
- Desculpa, seu Antônio.
- O que você quer ?
- Sabe o que é ? eu tô desempregado, se o senhor estiver precisando de alguém...
- O que você sabe fazer ?
- Um pouco de tudo.
- Tá contratado.
- Muito obrigado - Jerry tenta cumprimentá-lo.
- Meu amigo, eu jamais apertaria a mão de um homem nu.
O outro percebe a situação e corre ao quarto para se vestir.
- Vista-se, você começa hoje. - ele grita da porta.
Jerry o alcança ainda no caminho. Maria grita o nome de um, o nome do outro e ninguém parece dar atenção. E, num domingo de sol, trabalhando e conversando amenidades sob a graça de Deus, são todos pecadores em seus próprios papéis.
Poça
Os olhos dela brilham tanto quanto os meus brilham tanto quanto o metal na minha mão. Treme.m. Os olhos. Dela, úmidos. Quase pedem sim. Não. Logo. Peço também a qualquer deus, não o meu; ele não. Matarás – outro deus. Nada a perder, dizem os jornais meu patrão o pavor dela. Não o meu. A classe média. A TV. Nada a. Deus. À vida - ela diz.
nunca pensamentos tão compridos não consigo segurar perdi as rédeas ele vai me matar ele não vai me matar ele não tem nada a perder minhas mãos são sempre tão molhadas minha calça vai ficando mais fina nenhum dinheiro na carteira nunca nenhum dinheiro na carteira não lembro de nada não tenho ninguém quero um último abraço quero minhas mãos secas quero logo logo logo nenhum pensamento que seja logo minha mãe vai chorar meu pai já morreu se eu acreditasse em alguma coisa nada a perder mais um caso no jornal
Eu fui na igreja. Eu pedi. Eu rezei. Eu queria tanto e tanta palavra difícil. Perdi as rédeas. Eu trabalhei. Eu tive coisa pra perder. Eu perdi. Gente, bicho, a fome eu perdi. Minhas mãos sempre tão molhadas. Dinheiro na mão de malandro, mulher na mão de malandro. Deus não perdi – que ele me olha de cima. Nenhum dinheiro na carteira, nunca. Tanto medo que eu já senti. Deus tá te vendo, a minha mãe. Foi e eu, deus. Em maiúscula, diz a mãe; eu temi. Quero um último abraço. Eu perdi. Nada mais a perder. Cacete, eu não quero mais perder. Deus., Fecha os olhos, vira a cara pra lá. Mais um caso no jornal.
ele cheira mal e eu também cheiro azedo de medo eu fico tonta se eu desmaiar ele me solta? os olhos dele brilham tanto quanto os meus brilham tanto quanto o metal na mão dele tudo tão escuro escuro eu só consigo me arrepender numa hora assim eu fui na igreja nada pra lembrar sentir falta ou medo o medo é tão grande que eu nem percebo os olhos dele úmidos quase pedem não eu virei medo nada a perder dizem os jornais se eu soubesse dizer alguma coisa fosse bonita cabelo grande fecha os olhos eu quero um doce chocolate a fome eu perdi eu quero ir pra disney eu quero que ele me estupre queria ter alguma coisa a esquecer a dizer não adeus à vida
Ela fede, eu também. Cheiro azedo de medo. Só quero ir embora, mas o ferro queima em certeza errada. É do demônio - outro deus. Tudo tão escuro, escuro eu só consigo. Me arrepender numa hora assim? Tanto pra sentir falta. O corpo dela, tão loira, é uma massa, mal enxergo. Outro deus. Se fosse bonita, cabelo grande. Fecha os olhos, diz outro deus. Só quero ir embora, o meu Deus. Eu queria ter alguma coisa a esquecer. A dizer - não adeus.
eu rezei eu queria tanto eu não tive tudo que eu quis nunca mais vou ter nunca sexo eu trabalhei deus não perdi nunca tive tanto medo que eu nunca senti a minha mãe em maiúscula eu temi deus vira a cara pra lá esse corpo tão morto sempre morto e não só agora daqui a pouco eu pediria qualquer coisa deus se houvesse o que pedir só quero ir embora pediria um beijo para não morrer sem um beijo tão feia desde sempre eu só as eleições que chegam e eu aqui pra ele nada a perder
Se eu desmaiar. Deus - ele me solta? Nada pra lembrar eu quero. Um doce, quero ir pra disney. Deus - eu quero que ele me estupre. Eu não tive tudo que eu quis. Nunca mais vou ter nunca; nada a perder. Sexo eu temi. Esse corpo tão morto sempre morto. Não só agora, daqui a pouco, eu pediria qualquer coisa. Deus - se houvesse o que pedir. Pediria um beijo: tão feia. Desde sempre eu aqui pra ele, deus:
Nada a perder. Fecha os olhos. Vira a cara pra lá.
Não me calo.
Prefiro gritar sempre que me rói o peito
As dores impostas na vida.
Como nuvens desenhadas no próprio fardo
O Cão, este ser inútil, amando correr atrás do próprio rabo.
Por isso chamo sempre que preciso...
E berro inocência aos inocentes
Dementes, fulanos e sicranos
Que se enchem de aguardente
E corre para que Ele os guarde.
Assim sou...fabricante de belezas
E horrores (como qualquer humano).
Que brada a sorte ou a morte
Uma por não vir, outra por ser ligeira.
Reino de sutilezas da alma.
Por isso te chamo..sempre e forte...
Por ser filho, amante e pagão...
Por ser resto, discreto, ereto
Nunca vão.
DEVIDAMENTE HONRADOS (VERSÃO REDUZIDA*)
A cozinha era uma área completamente devastada por uma explosão nuclear de diminutas proporções. No centro, tão desconcertante quanto toda ela, uma mesa redonda coberta por uma toalha de poeira. Os ferros da base da mesa eram bastante detalhados e igualmente corroídos. O chão de porcelanato branco e preto em intervalos freqüentes como o tabuleiro de xadrez, mostrava um concreto escuro, imundo, escondido por baixo. Foi nesse chão que Nina despertou.
Bem próximo ao corpo dolorido dela, um jornal cobria um corpo. Pelo sapato de couro, a calça de linho e o paletó que não deveria ter custado pouco, era o esposo. Contudo, o sangue que pintava as folhas do jornal daquele vermelho nauseabundo, descrevendo um circulo quase preciso no qual moscas voavam e paravam, foi o que pôs Nina em um estado de torpor maior.
Recordava-se da imagem do filho numa casa que não era aquela. Raul, o filho, entornava o Nescau. Via-se a fumaça escapulindo da borda do copo de vidro, dissipar-se no ar invernal. E a maneira como Raul esforçou-se para não espirrar um jato marrom por sobre a mesa e as frutas na fruteira tamanho calor da bebida. Nina lembrou-se de ter feito o mesmo alimento para si. Lá pela metade do chocolate, estranhou o oscilar do piso de madeira. E a maneira ligeiramente preocupada com a qual Raul a encarou. Nina buscou apoio na pia de mármore. Mas a pia também oscilava como se feita de borracha. Então todas as luzes projetaram-se para cima até extinguirem. E só restou-lhe trevas.
Mas agora, estirada naquele antro, Nina LaVerne parecia ter saltado de um plano deveras onírico, o plano onde a cozinha representava oficialmente a Dança do Acasalamento, para este, em que outra cozinha – diferente da dela até nos grandes detalhes – lhe circundava feito as paredes imundas de uma pocilga mal cheirosa. E pior. Algo dentro de si pedia cautela. As paredes são escorregadias.
Acreditava que os próprios pecados não eram tão grandiosos a ponto de entregá-la ao inferno o que, talvez, lhe permitisse reencontrar o esposo morto em alguma parte do céu.
Nina, então, ouviu passos. Movimentou-se lentamente e por um famigerado instante nada escutou. Então ouviu novamente. Passos lentos, demasiado calmos. Um som oco de madeira – em algum lugar além da cozinha daquele antro, onde as vistas não alcançavam, ela jurou existir tacos no chão –... O som oco de madeira sendo pisada, ecoando e reverberando nas paredes.
Foi quanto Nina LaVerne viu Antônio postado no portal da cozinha. De imediato não compreendeu o que ocorria. Um pesadelo em que o melhor amigo do seu filho surge como o príncipe encantado para salva-lá?
- Raul? – O nome do filho foi tudo o que conseguiu falar com aquela voz embargada. Tinha a sensação de que a língua estava colada na boca, ou a boca estava cheia de cola tenaz.
Antônio tocou-lhe em uma das bochechas. Nina desvencilhou-se. Deixar que ele a tocasse de forma tão leviana seria corroborar com a morte do esposo. Quando Antônio abriu o zíper da calça jeans e trouxe para fora àquela parte peculiar da anatomia masculina, Nina descobriu-se por demais fraca.
- Seu filho Raul, Nina, me mandou brincar com a senhora.
*quem quiser receber a versão completa, escreva para Yuri: yuribandeira@uol.com.br
Inquisição
O que mais o atraiu foi o perfume de ervas. Cheiro de mato, poção mágica. Ela o enfeitiçou. E quando passou a língua nela, o sabor era salgado. Estátua de sal. Ele não deveria, mas ela consentiu. O marido dela sob chifres, a verdade era essa. Adúltera. E aquela vontade toda dela, o acúmulo de coisas. Entulhados por todos os lados, de todos os tipos e tamanhos, objetos espalhados pela casa. Ela sempre queria mais e mais. Nem que ele tivesse que roubar, nem que pegasse à força, nem que tivesse que trabalhar no domingo, era tudo pra ela. De nada adiantaram as palavras do pai e da mãe dele. Ele mentia, descaradamente, deslavadamente. Por ela. Como ela era linda, imagem e semelhança, o espelho e ela. Uma deusa-celebridade-nacional. Não tinha a intenção, não tinha. Mas, Deus, a culpa era só dele, sua culpa, sua imensa culpa. O corpo do marido dela caído ali no chão de olhos abertos e a arma em sua mão.
Foi aí que o fogo começou por todos os lados, inferno, castigo, a desgraça de Deus sobre todos os homens o dia do juízo final e os anjos vingadores a castrar e decepar cabeças e a destruir corpos que gritavam e imploravam perdão. Ele se contorcia em dor e via sua vida eterna queimar diante de si. E a voz dela: uma gargalhada em meio às chamas. Bruxa.
E ele constatou: estava condenado a viver aquele inferno de vida por todos os séculos e séculos, amém.
Tão furtivas as tuas saídas na calada da noite. Cada dia mais insegura, você foge das minhas perguntas.
Bobíssimas as tuas desculpas, como as que eu mesmo dei tantas vezes.
Hesitante, você acende um cigarro e vira as costas.
Já não consigo ficar triste, por dentro eu até sorrio ao perceber seu olhar.
Conheço bem esta angústia, ela esteve comigo por todos estes anos.
Os pecados mais terríveis são aqueles que carregamos conosco. Quando vivemos as coisas mais lindas, e simplesmente não merecemos possuí-las.
Porque não saber é fácil, e apenas suspeitar não tem problema nenhum. O que dói mesmo é perceber que nada resiste ao tempo.
Primeiro
Antes de mais nada, eu tenho que me explicar a mim mesmo. Explicar por que posso fazer isso; no caminho até o computador, vinha pensando, Ora, mas é só a minha cabra vadia, que nem a do Nelson; mas ao sentar aqui, é verdade, é mesmo uma questão de poder. Criar.
Não, não é prentensão: é matemática. O mundo, tudo num simples piscar de olhos, não é? Pois bem: te restituo – ou te inauguro, já nem sei mais o que me ia pela cabeça no início da infância – te restituo a existência. Pronto, ao menos por essa conversa, aí tá você.
Pra começar, deixa eu dizer que pretensão é Faça-se a luz. Pois tenho que me lembrar que não posso julgar esse tipo de coisa pela pessoa que a “registrou”; se te faço presente, também faço suas façanhas. E toda essa história aí é muito engraçada.
Preciso te dizer que eu não gostava de você; durante uma boa parte da minha vida, não gostei. Mas isso ainda era, sem muito esforço de raciocínio, um certo receio e, assim, um resquício de crença. Nunca esperança, veja bem, e isso me leva adiante no quero dizer.
Logo que compreendi que não posso desgostar daquilo em que não creio, as coisas mudaram. Esqueci. O que nunca tinha sido um problema fundamental pra mim, deixou de freqüentar mesmo as minhas rodas de pensamentos mais imediatos. Com o tempo, apesar de não poder dizer que você era um assunto esquecido – rapaz, é incrível a importância que você tem pras pessoas!, não dá pra ficar totalmente alheio a ela –, a questão foi se tornando menos e menos recorrente.
Até que um dia, lendo Drummond, me dei conta de que, ainda exterior a questão de acreditar em você ou não, havia um problema maior; havia a afeição.
Porque é claro, se eu quisesse, apesar de todo meu sistema de visão – que me é caro e que te nega –, eu poderia escolher te alimentar. Me enganar – eu sou bom nisso, sabe?
No entanto, o que acontece é que eu não gosto de você. Sem ódio; não é que eu desgoste, só não gosto. Percebi, e aqui entra a hstória da esperança, que nunca tinha sido minha vontade que você existisse, que nunca eu havia sentido falta de você ou mesmo criado uma relação desse tipo com algo cujo lugar você pudesse tomar ou desfalcar. Sabe, eu não preciso de você. Por isso nunca te criei. Ou te deixer morrer.
Em certos aspectos, é até um ponto estético.
Eu sei, talvez o ódio lhe soubesse melhor. O medo. Eu sei que apenas nada é meio doloroso. Inclusive, admito que, pela minha leitura, sua personagem é muito carente! Você tem umas sacadas geniais, protagonizou umas cenas dignas de Hollywood e é mais bem sucedido que o Batman. Tenho que admitir. Mas é que eu acho que você uma personagem um pouco estapafúrdia… mixuruca. Não tem problema, eu também sou… Me acho até mais mal-explicado… até pior. Não fique triste; nunca fiz nenhuma das coisas divertidas que você já fez. Pô, aquele lance do mar foi demais! Quem me dera…
Eu não tenho hábito de fazer isso, não assim (quando eu era novo, era até um ponto de honra bater pé nesse assunto) mas agora, aqui, enquanto eu te faço existir nessa folha em branco como dizem que você fez comigo, pra provar que não há ressentimentos entre nós, eu peço: desculpa. Não por não acreditar em você – isso são outros quinhentos –, mas por não nutrir nenhum amor por você, mesmo numa ocasião extraordinária como essa.
Bom, agora acho que é melhor você ir, não? Eu tenho muito o que fazer… Você tem muita gente que te dê atenção, não se preocupe.
Adeus.
Gardenamos.
Como disse nosso querido Péricles Peri, gardenamos. É um prazer estar aqui neste novo sítio, depois de vinte e seis edições de Blogautores.
Pra quem não nos conhece, somos um grupo de onze autores de blogs poéticos que inventa um tema como desculpa pra escrever. Um sarau virtual. Um exercício literário que une onze pessoas de vários cantos do Brasil, várias idades e profissões. Um canto democrático onde todos editam, escrevem e criticam. A cada edição, um de nós é o editor. E o editor da vez tem o direito, e a honra, de convidar alguém para participar da sua edição.
Como a editora da 27a. edição sou eu, convidei meu querido Löis Lancaster pra participar. E aqui estamos. A título de comemoração, uma edição repleta de sentido! Visão, audição, paladar, olfato, tato, e mais um (porque não?), nossos sentidos todos transformados em palavras. Para vocês.
Eliana Pougy
Um dia daqueles que o céu dói nos olhos da gente.
A luz passava em ondas através do vestido que ela usava.
Ela flutuava: etérea, lancinante, estratosférica.
Uma imagem com sabor de ameixas e vinho seco.
Tão fugaz que minha lembrança se perdeu no tempo
fundindo em silêncio alegria e maldição.
saudade é uma camiseta escrita linda e louca a nossa história
apareceu como um estalo, uma revelação. um dia eu simplesmente descobri que não te queria ali ao meu lado. Era sempre a partir do quinto copo de uísque quando eu, inevitavelmente, começava a pensar em você. não importa onde estivesse, ou o que estivesse fazendo. apesar de não te ver há quase um ano, eu não te esquecia. não que estivesse sempre pensando em você, ou sofrendo pela separação. não, não era isso. apenas sentia uma saudade forte, às vezes, e beber um pouco sempre aumentava isso. mas houve um dia em que a saudade não apareceu e eu fiquei com a sensação de tinha esquecido algo. alguma coisa estava faltando e eu não conseguia identificar o que era. só no dia seguinte percebi isso. é, foi uma coisa boa. a saudade era uma coisa boa, por mais estranho que isso possa parecer, mas não senti-la também era. hoje eu posso voltar a ouvir aquele disco dos stones que você tanto gostava e sempre ouvíamos juntos. você gostava de wild horses, lembra ? não, você nem vai ler isso. de qualquer forma, eu escrevo pra você. não é uma carta de despedida, já dissemos adeus há tanto tempo que nem as rosas amarelas me lembram mais você. nem as manhãs chuvosas de sábado, como a de hoje. nem sorvete de pavê, nem as letras de música que te escrevi. engraçado perceber que essas coisas não significam mais nada. mas isso é bom, mesmo sabendo que os girassóis não cantam mais e que os vinhos tintos hoje tem sabor diferente.
meu bem, depois de você, nem dentistas me assustam mais.
depois de você, toda dor parece pequena.
Tudo em você é.
Leve, mais leve, menos espessa, menos doce, mas sempre a mesma aspereza de depois, do que escorreu pela boca, onde não é queixo ainda - canto de boca. Uma voz rouca que me soa deslocada aos ouvidos na manhã branca e brilhante. Irritante, você disse, a claridade de um domingo, a luz depois de tanto álcool, tanto desejo – isso sou eu quem digo (não vejo traço de literatura em você, é um pouco bom e tão ruim). Sei que nada nunca foi tão rápido em mim, já acabou.
Lindo, um pouco, de um certo ângulo – de outros, normal, e só – e os olhos castanhos se abrindo, são claros. Eu estranho o seu tamanho ao meu lado, e em mim, as mãos na minha cintura também (tão grandes, tão grandes), os pêlos também, a textura do cabelo também, a sua pele branca também - eu não posso dormir com esse corpo me abraçando. O que você nunca vai saber, porque eu não posso dizer toda a verdade, então pico toda a verdade e espalho em gestos e frases, como sal ou veneno. Nunca vou dormir ao seu lado, a temperatura do seu corpo não me é conforme – teríamos que nos debater em língua, sexo, porra e verbo até cairmos exaustos -, nada em você me é conforme. Até o que é bom me machuca (de um jeito ruim). Ruim suas mãos entre as minhas pernas, ruim seu gosto, seu hálito, ruim você existir – suas frases canalhamente exatas –, ruim eu ser mulher aqui. Dói. Ou é só impulso e acaba, acabou.
Foi também de um pouco de vingança o instinto - contra tudo o que todos esperam de mim. E eu o quê pra você? Rasgo, noite, beleza e sono – menos que tudo o que eu quis de você. Rito, álcool, beleza e sexo – menos que o pouco que eu quero de você. Ainda quero você, não passou, me enganei. Resto, frio, beleza e gozo – e é tão pequeno, quase nada. Mas instinto de homem chega e vai, já falei, já previ, acabou.
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Antes, uma profusão confusa de luzes zunindo o cheiro de uma rodoviária e meia de gente, por quanto tempo ainda, só atalhando quando o lápis sente a fricção do papel necessário. O escuro quase azul, rasgado vez em quando por algum farol ultrapassante ao ronronar contínuo do interestadual. Ao despejar da estação, viu lá a mão da lenta via, tateando ares para afinal mostrar-lhe um céu de sorriso, em lugar do cinza, azul dentro de olhos atrás do acrílico vítreo. O cristal em harmônicos da voz dela, montanhas egípcias segurando a abóbada apenas com brandura, brilho e transparência. O som do radar que descobre o caminho incerto entre as selvas de ruas que insistem em levar a algum lugar. O que ele veio para olhar. As constelações de sardas proliferando através da maciez. A solidez de um único amplexo para acabar com todas as distâncias. Envolvente compleição ela empresta aos dois eixos que nos erguem como por perfume. Solo de Voz Expondo o Tema da Perda e Reaquisição do Baixo Opus 1, para soprano, à moça da loja, acompanhada de fretless heterofônico.
O barulho do motor do carro e a voz grave dele falando tanto. Falando um tanto que a fazia rir risadas agudas e o vermelho em suas faces: calor. Calor de amigo, carinho tão grande que encheu suas narinas de perfume bom de maçã, de perfume bom de alegria. O gosto bom do macarrão da Luzinete, o frescor da tarde. Os faróis da rua, semáforos, verdes, vermelhos e amarelos, vibrantes. (É só por causa do cinza do céu, não sabia?) O barulho lá fora do carro era muito, mas eles não ouviam. Ouviram, isso sim, um baixo tocar longo e doce, açucarado, sentiram o cheiro da tinta e da madeira, as cores metálicas penduradas em armações: maneiro... a voz dele cantando o mundo.
Em meio a verdes e cinza-céu, eles adivinhavam as suas mãos. Eles adivinhavam um abraço apertado e as lágrimas da despedida. Eles sabiam que seria assim: tão bonito.
Tenho tido sonhos
De ser gente grande
Com absurdas rugas
Que me tragam paciência
(Essa loucura que sempre me arranca o cabelo
E anda descalça no calçadão vazio)
Queria olhos com menos intensidade,
Não de brilho,
Mas de visão, de miopia.
Queria ser velho para doar-te sabedorias em compota
(Com gosto moleque de fruta roubada
Em pomar alheio,
Pois disso não dá para esquecer)
Aliviar de sobre ti
os pesados anos que joguei fora
Só para aprender um pouco mais
Sobre mim mesmo,
Sobre a maré que sobe sempre
Seguindo os desmandos da lua
O que eu bem queria
Era ser porto confiável
Que, apesar da onda teimando em apagar,
Retorne sempre a escrever na areia
Os sonhos nunca divididos entre Netuno e as sereias.
das coisas que não digo.
frio na barriga. pequenas contrações. sensação gelada subindo as paredes do estomago, abraçando o peito.
me pergunta - já bateu? tá começando.
um calafrio. escuto os meninos dizerem: relaxa, fica na boa. meu pé fora do chão, sensibilidade nos dedos. uma alegria incontrolável. vontade de dizer que amo cada um deles, meus amigos-irmãos. a vida perdendo o peso. eu quero ir no banheiro transar com um drogado, chupar os peitos de uma vadia. a música faz sentido, as luzes fazem sentido, TUDO ganha sentido e sentido algum. Meu Deus, por que não antes? onde foi parar todo aquele desespero?
cheira isso aqui. cheiro.
processo inverso. hortelã descendo pela garganta - eu sinto cada respirar, cada aroma artificial. meus olhos muito mais abertos. quero beijar. quero dançar. QUERO. segura meus braços, apóia suas costas nas minhas, tira meus pés do chão. e gira. parece que o mundo vai cair em cima de mim, em forma de estrelas de açúcar.
pega mais meia - não bebe tanta água, caralho!
mete a mão na água gelada. passeia pelo meu corpo sensível, aberto ao toque, às mãos. eu desejo. beija a minha boca - empurro. danço e provoco. QUERO TUDO. eu subo em direção ao terceiro andar. avisto o banheiro. porta aberta.
porta fechada.
[meus sentidos em êxtase - cheiro, beijo, toco, escuto, vejo - fecho os olhos até gozar].
WHAT'S UP, DOC?
ARRRR a boca constantemente seca a garganta aperta vez por outra um torrão de saliva os olhos reviram fazem o que querem as pernas pulam na cadeira não querem estar sentadas enjôo leve mas contínuo imposivel ficar parado fome nem pensar dormir é apenas uma insitência burra como aliás todo o resto de mim e o momento que era estranho agora é insidioso eu tô confuso como há muito não a vida aperta tanto quanto a minha garganta me aperta os dias e me esfria o sangue nos pulsos e nas mãos até as palavras tenho enrolado a língua também ontem gaguejei não fico triste mas só porque é impossível pensar e justo agora se bem que se eu tivesse normal alguma vez o fui se eu tivesse normal também não sei se faria diferença sendo sóbrio talvez fosse pior AAAARRRRRR pegaram meu coração e cravaram numa daquelas camas de faquir e eu queria morrer e nascer outro de coração leve não quero ser exemplo não quero ser tema não quero ser referência so quero pagar o que eu devo ao homem que só diz uma frase e fechar a conta AAAARRR a boca constantemente seca a garganta aperta de vez em quando tonto as mãos pulam no teclado sem dizer nada e como recompensa quando não gaguejo a voz me parece mais firme e um pouco mais grave AAAAAARRRR arranha essa merda quando eu cuspo sai sangue não é impressionante que seja só ar passando que faça isso hein talvez o bom da vida fosse poder morrer várias vezes outro dia eu li assim "a cada dia quebro meu próprio recorde de dias sem morrer" mas não sei se isso é algo de que se orgulhar na medida em que só ficamos mais imundos enquanto nos arrastamos nisso que vocês chamam vida pigarro mas parece que só é assim nos primeiros dias depois a gente se acostuma AAAAARRRR engraçado é a primeira droga que alguém me receita que se parece tanto com aquelas outras as que eu gosto ou os tarjas-preta que eu mesmo me receitava por diversão sempre com álcool e o que mais me aparecesse
não fico triste mas só porque é impossível pensar.
Despedida
Ela quis se afastar da festa.
Ele trancou a porta.
Ele quase disse fica.
Ela quase disse vem.
Quase porque não adiantava mais.
E se olharam com dó. Com pena daquele amor grande em fase terminal.
Ela queria descontrair o momento. Falou besteiras sem tamanho. Ele constatou: "você está bêbada" e ela reclamou que tinha direito. Dessa vez tinha direito. Ele não falou nada.
Ela ensaiou:
"quem cala...
Ele deixou um "consente" escapar. Contrariado.
Ele era bom em provérbios. Ela era forte pra bebida. Mas sentia-se na obrigação de. Pela própria lucidez. Beber para ficar mais lúcida.
Gente passional tem dessas crenças sem sentido aparente.
"Deixei sua chave dentro da gaveta."
"É sua... foi um presente, se lembra?"
"Mas você pode dar pra outra pessoa."
"Aquela é sua. Até a cor dela é sua."
Ela sorriu.
"A cor dela?"
"É, eu pedi pro chaveiro fazer vermelha. Naquela época em que tudo tinha que ser vermelho."
"Tudo, nada. Exagerado..."
Ele só sorriu e se esqueceu que gosta tanto de discutir. Ela entendeu tudo, como sempre entendia tudo, e o olhou com aquela ternura latente, pulsante. Aquela mistura de coisas que o confundiam.
"E aí, gostou da festa?"
"Gostei. A música tá ótima..."
"Queria ter chamado menos amigos meus."
"Os meus amigos não poderiam vir mesmo. Que bom que você chamou os seus. Imagina uma festa vazia que tristeza..."
"É. Foi o que eu pensei."
Ela detestava ficar mais velha. Ele sentou na beira da cama.
"Deita aqui comigo..."
Ela tirou os óculos. Pra enxergá-lo melhor.
Ele apagou a luz. Para observar cada detalhe.
E ficaram ali, se olhando a noite toda. Até o avião chegar.
Frozen
Fim de tarde. Quando ficou impossível adiar, beijaram-se no calçadão. "Você tem sabor Margarita". Ela nunca havia experimentado o drink, mas podia imaginar os motivos. Beijou mais longo para ele decorar o gosto e sentiu os pés descalços flutuarem a vinte centímetros do chão de pedras portuguesas. Lá do alto, assombrada, pediu um beliscão como garantia. Ele obedeceu, ela caiu.
A garota do ônibus
Hoje são 15. Ela entrou no ônibus exatamente como das vezes anteriores em que eu a admirei como voyeur : despercebida da minha presença, fielmente bela em toda extensão do corpo pálido. Interessante, ela é tão alienígena diante de tantas outras como soa estranha nessa cidade que arde durante boa parcela do ano. Tem no cabelo liso um negror impressionante que me faz pensar em tingimento. Sendo ou não é uma cor que lhe acentua a beleza branquela. Os pêlos dos braços... Deus!... Dão a impressão de acobertarem uma pele tão macia!
Eu estou mais a frente. Ela passa na borboleta, entregando ao cobrador uma nota esverdeada. Tem os livros nos braços. Pelo destino do nosso ônibus ou ela vai para casa posterior ao trabalho ou saiu de casa rumo a universidade pública que fica próximo ao meu bairro. Como o ônibus infame sempre vem apertado, ela passa despercebida para o lado de dentro. Muitos estão em pé. Eu, como vocês devem supor, sou mais um. As pessoas se empurram, não pedem nem licença quando chegam perto do pulo para o exterior. Ela se põe próximo a mim o suficiente para eu admirá-la completamente. Seus seios são médios, empinados, mesmo por debaixo do sutiã meia-taça. A calça marrom, colada ao corpo, entrega curvas sinuosas tal uma placa de advertência plantada atrás do matagal que veta ao motorista os verdadeiros riscos da estrada. E como tem curvas!
Ela me olha. Eu finjo que ela é só mais uma a ser admirada, afinal, no aperto do ônibus há várias. Volto a olhá-la. Ela está atenta, uma vaga para assento diante dela está surgindo. Bom. Ao menos alguém se beneficiou. Mal ela senta já tem o semblante tão belo enterrado num monte de folhas xerocadas. Eu a encaro. E como se desconfiasse, no mesmo instante ela me olha. Não é apenas mais um olhar, seus olhos dizem. É o olhar; a cor castanha dos olhos reluzindo como duas esferas enceradas ao extremo. Sem graça, eu me deixo levar pelo cenário que corre do lado externo. E ela... Ela regressa ao seu estudo.
Meu ponto está próximo. Minha vontade e de dizer-lhe tchau ! . Só penso. Então ela cospe no chão do ônibus e toda a graça que eu via nela se perde naquele ato mal-educado.
Enquanto vivo
Enquanto vivo, escrevo. Ao vivo. Escrevo enquanto vivo. Escrevo aqui, neste momento de jantar sozinho, pratos à frente, soam os primeiros acordes de Egberto em modo randômico (meu modo natural). Estanco ao reconhecer a música. Aleatório sorteio me pega de surpresa - mal sei dele, Egberto, um CD emprestado, e reconheço a música. Aleatório momento, me vejo vindo bem a calhar, talvez porque escrevo, talvez porque a música me soa familiar, talvez pela fome que vou saciar, satisfação sentida e pressentida.
Por entre os arbustos verdes (de onde vem esta imagem? alface?) da alegria, se esgueira a culpa, inconfundível, sempre a mesma velha. A culpa, monólogo mental: "O que precisa ser feito?". E a resposta é: nada. Tudo dorme em silêncio, tudo pode ser só isso: ouvir, escrever, comer, beber. Dissipe-se a maquiavélica, não lhe devo nada, minha senhora. O garfo espeta a carne (a culpa), o sangue vai colorir dois grãos de arroz, é lindo, como ele faz isso sozinho no piano. Ouvi-lo aguça a fome, quero comê-lo. Para isso preciso parar de escrever.
(nos intervalos) Carne, arroz, vinho, salada. E Egberto. E eu. E nenhuma pretensão. Sal demais. Posso ser desinteressante como tudo (tenho todo o direito). Posso ser mais interessante do que tudo. O que eterniza um momento é sua profundidade (Egberto não musicaria isto). Momento Paulo Coelho? Sem pretensão a isto ou aquilo. Só um mergulhar no momento até o menor detalhe, o mindinho de Egberto superando-se na busca de algo mais agudo do que ele, do que o vinagre balsâmico que me espeta a língua antes mesmo, tão logo pinga gota a gota sobre as folhas de alface. Quando um momento acaba? Se a música agora é outra, e a desconheço, se a última dentada de tomate veio completamente sem sal, se o que sobressai agora são pratos de bateria em profusão e este caderno merece, parece-me, voar em linha reta até as costas do sofá, e lá se deixar perder. Pouco permaneceu mas continuo vivendo um só momento. Ainda? Bem, quem o define serei eu (é tanto eu por aqui que é de estranhar se houver por aí um outro, um você). Um inacreditável solo de baixo e um novo tomate sem sal. Terei que reacrescentar o sal que já julgava abundante (em relação a quê?), vejo-me repetindo a ação, como que um acaso a comprovar-me (como tivessem acasos intenções) que o momento é o mesmo e não é. Aleatório. Faz diferença? O derramar o sal é o mesmo, idêntico, mas sob ele sustenta-nos (a mim e à comida viva que me aguarda) agora um forró, a terceira música. O tempo está passando, sem dúvida.
No prato desenhou-se um confronto, percebo agora: a salada ameaça a fronteira onde o garfo havia aberto sulcos por entre os grãos de arroz para que o molho da carne lhes desse uma razão de ser. Os molhos, da carne e da salada, uniram-se harmoniosamente (como só os fluidos podem fazer), cercando todo o prato e delimitando o espaço em que os adversários teriam que decidir sua diferença. A salada é mais vistosa, ocupa melhor o seu lugar, faz o pequeno pedaço de carne envolto de arroz (com cenoura, diga-se, mas ainda assim) parecer um menino indefeso diante de um pássaro mítico, ou rendido à sedução de uma enorme alegoria de carnaval. Quem vai decidir o embate sou eu. A solução final, óbvia porém não menos corajosa (e como somos óbvios, sempre tão óbvios, quase nunca escapando ao fluir óbvio de tudo, e quando sucede nos achamos encontrados, diferenciados de nós mesmos, reencontrados com algum sentido oculto, maior e ulterior, e no entanto a excepcionalidade de tais instantes, do pequeno sopro que nos arrepia, só vem confirmar a enormidade do império do óbvio, contra o qual não há o que fazer, talvez representando enfim a justificativa mítica de nossa existência, tão perseguida desde sempre: Deus é o óbvio). Mas neste meu óbvio gesto houve um toque de coragem. Dirá você (haverá, então, um você?) que a coragem consiste de matéria não-óbvia, e terá razão (ainda que uma razão bastante óbvia, note bem). Mas havia ali, mesmo, este paradoxo: a solução óbvia para o impasse entre salada e carne com arroz, tendo eu como juiz, rei e devorador, só poderia ser a promoção da comunhão entre as partes, do carnaval proclamado nadando no excesso de molho do prato. A coragem? Pressenti sua presença no instante em que minhas mãos rapidamente cumpriam a pacificação do mexidão geral. Pois que questionava cada movimento uma inegável quebra de hierarquia alimentar. O que não é pouca coisa. O ritual do comer, presente desde a infância, não permite esse tipo de mistura anárquica em que ao fim nem sequer se sabe o que se está ingerindo, alfacearrozrabanetepepinocarnetudojuntonasgarfadasdesesperadas. Pois não pode haver garfadas precisas, reverentes, compenetradas, no meio dessa promiscuidade total, incesto alimentar. Eis minha coragem: a mistura foi feita solenemente, ingerida com louvor e grandeza, graças a Egberto, ao bom vinho e - por que não dizê-lo, enfim? - à minha progressiva entrega à densidade do momento.
O mesmo momento, ainda (porque escrevo?). Sobrou o molho, um só: caldo de carne e sangue e azeite e vinagre. Inúmeras bolhas de azeite refletem a lâmpada, bem próxima, numa tela redonda de luzes. Lamber o prato, o molho, sumo maior comumente deixado para trás, na verdade concentra tudo o que por ele passou, como um rio, a alma dos alimentos ali lavada. Bebo o molho direto do prato, e sinto-me um Deus. E se Deus é o óbvio, o óbvio sou eu. Prestes a acabar como sempre, atento ao ritmo e aos ditames coerentes das palavras finais, que são as que ficam.