Espelho
Para Luis Felipe
Seus dedos, em primeiro plano, refletidos na maçaneta redonda da porta. Sua mão úmida molha pequenas gotas no metal gelado e prateado, brilhante como uma bola de árvore de natal. Lembra-se da primeira vez em que se olhou numa delas, do seu nariz em primeiro plano, dos seus olhos ao fundo, alongados. E da sua boca esticada e curva. Vermelhas, as bolas de natal eram vermelhas, antes. Não existia essa profusão de plásticos, linhas, fitas de cetim e cores. Lojas inteiras vendendo acessórios de natal, american way of christmas. Of happiness. Abaixa-se e olha-se na maçaneta. Talvez, o que mais tenha mudado seja o brilho de seus olhos. E o cavanhaque. Ouve as vozes lá dentro, reconhece algumas, pressente a noite que vai ter e lembra. Lembra-se do longo momento em que, pequeno, desprendeu uma bola de natal da árvore e ela caiu no chão da sala. Espatifou-se, porque elas eram vermelhas e de vidro, antes. De um vidro tão delicado e fino, tão frágil, tão lindo. Aí ele se viu ali, dividido em mil pequenos pedaços a movimentarem-se pelo chão. Vários eles revirando-se em espelhinhos arredondados e o silêncio absoluto da sala e a sua mão cortando-se profundamente ao segurar os pequenos pedaços de vidro que balançavam ritmadamente no chão de taco. O vermelho escorrendo por entre os pequenos retalhos de espelho, o vermelho tornando-se líquido, o sangue escorrendo pelo chão. Os gritos de todos e sua feição extasiada, a beleza daquele momento pertencia só a seus olhos, só a ele, e a vassoura da sua mãe a afastar tudo dali, o sangue preso por ataduras, e o seu gesto de desespero, não, não podiam fazer isso, ele queria ver mais, queria ver o brilho, o vermelho, ele em pedaços arredondados, e então, correu até a árvore e a derrubou, quebrou todas as bolas de vidro espelhado, pedacinhos de luz vibrando pelo chão, rostos espatifados refletindo sustos, sua mãe aos gritos, seu pai apertando seus braços, seus pés cortados infinitas vezes, seu rosto ardendo, a beleza! A vida lhe mostrando pela primeira vez que a beleza dói - corta - machuca. A beleza corta fino e faz sangrar. Ela atravessa, reflete. A beleza arde. A beleza queima.
Abre a porta com nojo das bolas de plástico.
In the consciousness of the truth he has perceived, man now sees everywhere only the awfulness or the absurdity of existence... and loathing seizes him.
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Posted by: penis enlargement at outubro 25, 2004 11:07 AMAll I ask of life is a constant and exaggerated sense of my own importance.
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