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julho 21, 2004

Temos de admitir, a MLS está dando certo

Torcida Chicago Fire.jpg

O campeonato de 2004 da MLS (Major League Soccer), a liga norte-americana de futebol profissional, está em andamento, mas já foram anunciadas as duas equipes que, no próximo ano, se juntarão às dez já existentes. Uma, confirmada semana passada, será de Salt Lake City. A outra já se sabia que seria uma versão norte-americana do Chivas Guadalajara, clube mais popular do México. Pois agora já se fala abertamente que essa equipe mandará suas partidas em Los Angeles. A expansão cuidadosa mostra como a MLS está dando certo.

O grande mérito da liga é fugir da megalomania tradicional dos empreendedores norte-americanos, que acham que muito dinheiro traz muitos jogadores, que trazem muito marketing, que trazem muito público, que trazem mais dinheiro. Talvez isso dê certo em alguns mercados, mas nem sempre funciona com o esporte, uma atividade de forte aspecto cultural e, como tal, necessita de enraizamento. Além disso, até o momento está sabendo mudar suas políticas quando o caminho escolhido inicialmente não parece levar a lugar nenhum.

Foram esses os erros da NASL (North American Soccer League) entre as décadas de 1960 e 1980 (principalmente nos anos 70). Com investidores de sobra, a liga levou para a margem oeste do Atlântico Norte jogadores como Pelé, Beckenbauer, Carlos Alberto Torres, Johan Cruijff e George Best e conseguiu lotar estádios em várias cidades norte-americanas. No entanto, escolheu uma política menos orgânica e mais espetaculosa.

NASL.jpg

Os jogadores eram quase artistas, até porque adaptou-se o jogo (incluindo as regras) para ver se o esporte “pegava”. Não houve uma infra-estrutura para estabelecer o futebol de forma realista nos Estados Unidos. No máximo, um sem-número de clínicas espalhadas pelo país. Muito pouco. Assim, foi até lógico que, depois de um tempo, as franquias da NASL não tiveram mais condições de manter gastos semelhantes às colegas de NBA (basquete), MLB (beisebol) e NFL (futebol americano). Os jogadores-artistas estrangeiros saíram, o público, sem identificação alguma com os que ficaram (na maioria nativos), sumiu e as equipes fecharam as portas.

Quando foi criada, na esteira da “empolgação” da Copa de 1994, a MLS tentou mostrar evolução na mentalidade. É verdade que insistiu em shoot-outs (forma de desempate inspirada no hóquei sobre o gelo), com a idéia de que o torcedor norte-americano não gosta de empate. Talvez até seja verdade, mas a possibilidade de partidas/lutas terminarem em igualdade não impede que futebol americano, hóquei sobre o gelo e boxe sejam modalidades populares em terras ianques.

De qualquer forma, os dirigentes tinham consciência que não seria possível rivalizar com as ligas européias em dinheiro (e, como conseqüência, em estrelas). Por isso, se concentraram em trazer do velho Mundo apenas jogadores sem espaço em seu continente ou em fim de carreira, como Stoitchkov. A base da MLS sempre foram os latino-americanos – o boliviano Etcheverry e o colombiano Valderrama fizeram história na liga –, fundamentais para trazer os hispânicos já afeitos ao esporte, e os próprios norte-americanos. E, por “norte-americanos”, entenda negros, brancos e hispânicos.

O nível técnico nunca foi dos melhores (ou é possível dar muito crédito a um campeonato que consagrou Etcheverry ou o salvadorenho Cienfuegos?), até porque nunca houve grandes empecilhos para que os norte-americanos de maior destaque migrassem para o futebol europeu. Ainda assim, a MLS conseguiu enraizar o esporte. A média de público era apenas regular se comparada com a NASL, porém, não era artificial e indicava o real nível de aceitação dos norte-americanos pelo soccer.

Sports Illustrated Donovan.jpg

Hoje, a evolução da seleção dos Estados Unidos é conseqüência direta dessa medida. Com a possibilidade de disputarem um campeonato estável e competitivo, talentos como Landon Donovan (foto) puderam ser mais bem trabalhados. Com referências (ídolos) locais, o futebol se incorporou ainda mais no dia-a-dia dos estadunidenses. Tendência que deve ficar ainda mais forte com o aparecimento do adolescente prodígio Freddy Adu, de apenas 15 anos e já defendendo o DC United.

Claro, houve os passos em falso. Após a segunda temporada, foi promovida uma primeira expansão. Aos 10 integrantes originais – Los Angeles Galaxy, DC United, New York/New Jersey Metrostars, Columbus Crew, Tampa Bay Mutiny, San Jose Clash, Kansas City Wizards, Colorado Rapids, New England Revolution e Dallas Burn – se juntaram mais dois: Miami Fusion e Chicago Fire. Não demorou muito para que ficasse evidente a precipitação, que a MLS ainda não suportava mais de 10 equipes. Assim, duas temporadas depois, duas franquias foram fechadas: o Miami Fusion e o Tampa Bay Mutiny (ambas da Flórida).

Vale lembrar que, ciente da dificuldade de encontrar investidores, a liga era proprietária de todas as franquias no início de suas atividades. Com isso, poderia gerenciar as equipes de forma que houvesse equilíbrio (afinal, os jogadores também tinham contrato com a MLS, não com os times) e controlar a saúde financeira de todos.

Mas a liga aprendeu com o erro e adiou uma nova expansão até ter certeza que o futebol conquistara um público próprio. Foi se desfazendo das franquias (já nas mãos de empresários, por mais que os contratos dos jogadores ainda sejam da MLS) até o número de investidores no futebol/soccer se mostrar consistente. É bem verdade que metade das equipes atuais pertencem à mesma empresa, a Anschutz Entertainment.

Estadio Columbus Crew.jpg

Outro passo importante, um sinal de que o futebol realmente se estabeleceu na nação mais rica do mundo, foi a construção do estádio Columbus Crew (foto) em 1999, o primeiro projetado especialmente para receber partidas de futebol (até então, o costume era utilizar estádios de futebol americano). Afinal, com aquela edificação, o futebol já tinha instalações físicas, algo muito mais sólido e palpável. Aos poucos, outras cidades também ergueram seus estádios próprios. O principal é o Home Depot Center, de Los Angeles, casa do Los Angeles Galaxy e sede da final da Copa do Mundo de futebol feminino em 2003.

A decisão de ampliar para 12 equipes foi anunciada com grande antecedência. Já não era mais possível manter uma liga tão enxuta, pois a repetição de confrontos e a falta de cobertura territorial é notória. O primeiro interessado em uma franquia foi o mexicano Jorge Vergara, proprietário do Chivas Guadalajara e do Saprissa, da Costa Rica. A idéia era ousada: criar uma filial ianque de seu clube mexicano. Com isso, atrairia os torcedores do Chivas que imigraram para os Estados Unidos e traria um fato realmente novo à liga.

O problema era escolher a cidade. Claro que seria ao sul, onde a comunidade hispânica é maior. Falou-se muito em Houston, no Texas, mas a escolha deve ser Los Angeles, Califórnia. Assim, o Chivas USA (nome da equipe) dividiria o Home Depot Center com o Galaxy, criando a primeira rivalidade regional da MLS (algo visto com bons olhos pelos dirigentes da entidade).

Palencia Chivas.jpg

O projeto do Chivas USA está adiantado, o que traz boas perspectivas para a próxima temporada da MLS. Ramón Ramírez, ex-meia da seleção mexicana e atualmente na matriz, já está praticamente confirmado como integrante do elenco da filial em 2005. Outro destaque é o atacante Palencia (foto), ex-Cruz Azul e Espanyol e ainda na seleção do México. O provável técnico é o holandês Hans Westerhof, que cedeu sua vaga no Chivas original ao ex-meia Galindo mas ainda tem contrato em vigor. Prova de que Vergara pode até deixar o clube mexicano de lado para priorizar o norte-americano.

Na semana passada, David Checketts conseguiu a outra franquia, a ser sediada em Salt Lake City, capital de Utah (estado do Meio-Oeste, região cujo único representante na liga é o Colorado Rapids). O plano da equipe não está tão definido quanto o do Chivas USA, mas o fato de ser liderado por alguém com experiência em esportes – Checketts foi presidente do New York Knicks e do Utah Jazz – é significativo.

O objetivo é se espelhar no time de basquete da cidade, que veio de Nova Orleans (por isso o nome “Jazz”) em 1979 com desconfiança, mas conseguiu se consolidar, mesmo em um mercado menor. Uma vantagem de Salt Lake City é que só tem uma franquia em ligas profissionais, reduzindo a concorrência. Nos primeiros dois ou três anos, o time jogará no estádio Rice-Eccles, da Universidade de Utah. Depois desse período, o empresário espera já ter viabilizado a construção de um estádio para o futebol.

Dessa vez, parece que o crescimento é definitivo e deixa a MLS otimista. Tanto que já se pensa em nova expansão para 2006. Entre as cidades candidatas estão Seattle, Cleveland, Filadélfia, San Antonio, Houston, Atlanta, Portland, Fênix e Minneapolis.

*

Há bons jogadores e não deve demorar para os Estados Unidos terem uma seleção realmente forte. Porém, por mais que a MLS ganhe espaço, ainda falta muito para os Estados Unidos se tornarem uma potência futebolística em campo a ponto de lutarem por títulos em Copas.

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Já se falou em uma fusão da MLS com a Primeira Divisão mexicana. O sucesso do Chivas USA pode ajudar a viabilizar isso, mas tem cheiro de boato.

Ubiratan Leal

Imagens: Cyber Soccer News, Whitecaps e CNNSI



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