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No Balípodo, nunca falamos em nada além do futebol porque, como o próprio nome indica, esse é um site exclusivamente sobre futebol (ou balípodo, como preferirem). O que não quer dizer que não gostamos e acompanhamos outros esportes. E, por isso, nas próximas semanas, vamos abrir esse espaço para, sem misturar os assuntos, podermos falar de Olimpíadas. Sempre seguindo os mesmos princípios de quando falamos de futebol: fugindo do ufanismo e das expectativas irreais sobre os atletas brasileiros, porém, evitando cair em cobranças, derrotismo e decepção exagerados sobre eles. E, claro, contar histórias, indicar fontes de informação e, se possível, brincar um pouco. Antes de o evento começar efetivamente, a atualização dessa página não será regular (sempre haverá um aviso na seção Curtas do Balípodo normal). Durante os Jogos, passará a ser diária e o Balípodo normal reduzirá seu ritmo. Não fiquem bravos. Serão apenas duas semanas...

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Para quem prefere ficar à frente da Argentina do que ganhar muitas medalhas

Especial Atenas 2004
Do atletismo ao pentatlo moderno, incluindo o futebol

setembro 01, 2004

Cadê os outros países?

Com tantas informações pipocando por internet, canais alternativos às emissoras da TV por assinatura e imprensa internacional cada vez mais acessível, é difícil o torcedor mais atento e curioso não perceber como a cobertura da imprensa brasileira – principalmente a televisão aberta – ainda sofre de um ufanismo crônico. É até compreensível que os atletas brasileiros recebam mais destaque, mas muitas vezes isso ultrapassou os limites do bom-senso.

A Globo, por exemplo, praticamente ignorou as competições que não contavam com atletas brasileiros. Na verdade, a emissora quase ignorou os Jogos Olímpicos inteiros, preferindo se agarrar insanamente à sua grade de programação e perdendo da audiência da Bandeirantes em um domingo à tarde. Mesmo assim, o pouco de espaço que achou foi para mostrar os atletas brasileiros, apresentações jogadas e sem muito contexto em relação ao resto. O que era reforçado no Jornal Nacional, em que só se mostravam reportagens sobre os brasileiros. Os feitos de estrangeiros ficavam restritos a notas cobertas.

Bandeirantes.jpg

A Bandeirantes ainda teve o mérito de realmente mostrar os Jogos, mas pecou pelo ufanismo exagerado do apresentador-narrador José Luís Datena e dos comentaristas, que não escondiam que torciam durante as transmissões. As emissoras de TV por assinatura tiveram melhor desempenho, já aproveitando o sucesso das coberturas 24 horas de eventos anteriores.

Essa atitude da TV aberta de buscar sempre algo que permitisse a identificação do telespectador prejudicou muito a qualidade das transmissões. Além de descontextualizar as disputas ao só mostrar os brasileiros, as emissoras escolheram comentaristas conhecidos do público, mas sem preparo para esse tipo de trabalho. Quando não torciam, tinham dificuldades de se expressar. Poucos se salvaram. Não é perseguição a ex-atletas. A participação deles pode ser válida, desde que as emissoras os treinem melhor.

Para o torcedor a falta de informação a respeito das provas que não envolviam brasileiros foi nociva ao incentivar o desconhecimento da capacidade dos adversários. Não havia parâmetro de comparação, o que torna qualquer julgamento a respeito da capacidade dos brasileiros de pouco valor.

Carly Patterson.jpg

Um exemplo foi Carly Patterson. A norte-americana foi medalha de ouro na competição individual geral da ginástica artística, uma das mais importante dos Jogos Olímpicos e que sempre aponta uma das atletas que se tornarão símbolo do evento. Mas foi só o Brasil ter Daniele Hypólito e Camila Comin nas finais para que a imprensa daqui esquecesse Carly.

O pior é pensar que a perspectiva para os Jogos de Pequim são ainda piores. O Brasil saiu de Atenas com a imagem de que está se consolidando entre as forças intermediárias do esporte mundial, o que não é realidade. Essa sensação deve ser reforçada pelo Pan-Americano de 2007 no Rio de Janeiro, onde a previsível enxurrada de medalhas deve ser confundida com evolução. E o torcedor terá de agüentar mais gritos histéricos enquanto fica sem saber o que os outros países estão fazendo.

Ubiratan Leal/Imagens: Bandeirantes e Athens 2004

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agosto 31, 2004

Esportes amadores precisam de público interno

Em época de Jogos Olímpicos, fala-se muito de como melhorar os esportes “amadores” brasileiros (o “amador” vai entre aspas porque nem todo mundo é tão amador assim). Pede-se investimento do governo, de patrocinadores e da mídia. Pede-se equipamentos, eventualmente um treinador estrangeiro e a oportunidade de aumentar o intercâmbio com os principais centros de cada modalidade. Tudo isso é correto, apesar de não ser válido em casos como o vôlei – praia e quadra. O que poucos falam é que é preciso também criar e/ou promover eventos internos fortes, que atraiam o publico.

Metodista x Pinheiros.jpg

Um exemplo disso é o handebol. Por mais que falte – e falta – oportunidade de disputar mais amistosos com equipes fortes e médias da Europa, seria muito importante ter uma liga forte e reconhecida no Brasil. A que existe hoje é quase um campeonato restrito ao ABC paulista e do clube Pinheiros (masculino) e outro da grande São Paulo + Rio de Janeiro (feminino), que têm um apoio louvável da ESPN Brasil, mas vivem à margem, quase anônimos.

Já que a Petrobrás decidiu investir nessa modalidade, seria interessante permitir que equipes de outras regiões se desenvolvessem. Há uma estrutura no norte do Paraná e em Americana, que poderia ser aproveitada. E não é apenas ajudar a montar equipes, mas promover o espetáculo para que o torcedor passasse a entender de handebol e ver qual a graça do jogo.

O mesmo vale para outras modalidades. O Troféu Brasil de Natação até tem um destaque razoável, mas poderia ser promovido um circuito nacional de natação, com etapas em várias capitais. Assim também poderia ser com atletismo, judô, boxe, ginástica artística, saltos ornamentais... Alguns desses esportes até têm competições pelo Brasil. Porém, como no caso de handebol, não são valorizadas como deveriam pelo grande público.

Campeonatos internos fortes ajuda a atrair o público, deixar os atletas com uma motivação extra e aumentar a conexão entre o público e as modalidades. É exatamente por isso que as jogadoras da seleção feminina de futebol tanto pedem (com total razão) a criação de um campeonato de futebol feminino no Brasil. Mas não basta organizar. Tem de promover. Isso não resolverá todos os problemas do esporte brasileiro. Mas é um aspecto importante na consolidação das modalidades “amadoras”.

*

Dizer que o brasileiro só se importa com futebol é comodismo. Em cidades do interior de São Paulo, o vôlei ou o basquete têm mais adeptos que o futebol. E, até a década de 1960, o brasileiro tinha uma cultura poliesportiva razoável, que se perdeu com o tempo.

Ubiratan Leal/Imagem: Handebol Sinop

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agosto 30, 2004

O ouro não deve ir a Vanderlei

Após Vanderlei Cordeiro de Lima ser atacado por um irlandês maluco e ficar apenas com o bronze na maratona, torcedores e, principalmente, o presidente do COB, Carlos Arthur Nuzman, fizeram o rebuliço de praxe e até levantaram a hipótese de pedir uma alteração no resultado final da prova. E, por mais que a corrida tenha sofrido uma interferência em seu andamento normal, o correto é deixar o brasileiro com o terceiro lugar.

Podio Maratona.jpg

O que deve ficar claro é que essa não é apenas uma decisão esportiva, mas também jurídica. E, por mais que o esporte deve sempre prevalecer, deve-se pensar se tal medida seria cabível (justa) e nas conseqüências dela. Primeiro, há sérias dúvidas se brasileiro realmente venceria a prova. Pelo ritmo que vinha impondo, Stefano Baldini tinha boas chances de ultrapassar Vanderlei mesmo sem a ajuda de Cornelius Horan. Também é verdade que a aproximação repentina pode ter desconcentrado o brasileiro e dado forças extras para o italiano vencer. Ou seja, é difícil saber quem venceria a prova sem a aparição do ex-padre. De qualquer forma, é uma dúvida. Não se pode afirmar que o brasileiro venceria a ponto de justificar uma mudança de resultado.

Alterar o vencedor de uma prova é algo perigoso e só pode ser feito se o problema ocorrido mudar de forma definitiva o resultado. Por exemplo, em Barcelona’92, o Japão vencia os Estados Unidos por 2x1 no vôlei masculino e tinha um match point à disposição. O norte-americano Samuelson reclamou com o árbitro e recebeu o segundo cartão amarelo, o que daria mais um ponto aos nipônicos que, assim, venceriam o jogo. No entanto, o árbitro não percebeu que Samuelson já tinha um cartão antes e não concedeu o ponto aos japoneses. A partida seguiu, os Estados Unidos reagiram e venceram no tie breaker.

Um dia depois, a organização deu a vitória ao Japão. Nesse caso, o erro foi definitivo. Não havia como os orientais perderem aquele jogo após aquele cartão. Da mesma forma como não seria errado dar a vitória à Espanha nas quartas-de-final da Copa de 2002 logo após ter um gol legítimo anulado durante a morte súbita contra a Coréia do Sul. No caso de Vanderlei, nunca será possível saber se Baldini o alcançaria sem o ataque do irlandês Horan.

Cornelius Horan.jpg

Outro ponto que deve ser considerado do ponto de vista jurídico é que a alteração de resultados não pode ser feita sem justificativas fortes porque cria um precedente perigoso. Se Vanderlei teve problemas em sua prova e, mesmo sem ter certeza que realmente venceria, ganha o ouro, outros atletas podem, no futuro, reivindicar medalhas sempre que forem atrapalhados por fatores externos.

O máximo que poderia acontecer para Vanderlei era Stefano Baldini, em consideração esportiva e cavalheirismo a um adversário atacado, se negar a ultrapassá-lo. Seria muito bonito, mas isso não aconteceria porque a década de 1920 já passou. Assim, uma medalha simbólica é o mais justo. E, se Nuzman quer tanto usar esse caso para aparecer, poderia pegar uma medalha de ouro de alguém (o Brasil voltou com 17 de Atenas), fazer uma réplica dourada e dar a Vanderlei diante de toda a imprensa.

Ubiratan Leal/Imagens: Athens 2004 e BBC Sport

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agosto 29, 2004

Atenas’06: as Olimpíadas esquecidas

A escolha de Atenas como sede dos Jogos Olímpicos de 2004 foi uma forma de compensação após o constrangimento causado pela vitória de Atlanta em 1996, ano em que se celebrou o 100º aniversário das Olimpíadas modernas. Assim, COI deu à capital grega a chance de sediar o evento pela segunda vez. Ou melhor, pela terceira. Afinal, Atenas organizou uma edição dos Jogos em 1906. O problema é que poucos se lembram dessas Olimpíadas. Certamente uma das mais importante de todas.

Em 1901, o Movimento Olímpico havia decidido que, nos anos pares sem Olimpíadas, seriam realizada uma série intercalada dos Jogos. Foi uma decisão polêmica, que não encontrou apoio, por exemplo, do Barão de Coubertin. Ainda assim, em 1906, foram realizados os segundos Jogos Olímpicos de Atenas. Os gregos aproveitaram as comemorações de 10 anos das Olimpíadas modernas para organizar um evento fundamental para a sobrevivência dos Jogos.

Abertura Atenas 1906.jpg

Dispostos a mostrar que a Grécia era a verdadeira casa do evento, o governo local decidiu investir muito, principalmente na organização, lançando idéias adotadas até hoje. Por exemplo, construíram os primeiros alojamentos para atletas que pudessem se assemelhar a uma vila olímpica, criaram a cerimônia de abertura (foto), concentraram as competições (foi de 22 de abril a 2 de maio) e instituíram a premiação com medalhas de ouro, prata e bronze. Até então, o vencedor ficava com a prata e o segundo com o bronze.

Mas o legado mais importante deixado pelos gregos foi a prova de que os Jogos Olímpicos eram viáveis, apagando um pouco a péssima imagem deixada pelas confusas edições de 1900 e 1904. A impressão foi tão boa que muitos dirigentes voltaram a defender a idéia que as Olimpíadas deveriam ser realizadas sempre em Atenas. Claro que não tiveram sucesso.

De qualquer forma, foi o impulso decisivo para os Jogos de 1908. Inicialmente programados para Roma, foi transferido para Londres após uma erupção do vulcão Vesúvio em 1906, que consumiu a verba que o governo italiano destinara ao evento esportivo. Os britânicos, apesar da parcialidade da arbitragem que imperou nos Jogos que organizaram, também souberam realizar Olimpíadas bem-sucedidas. E, a partir desse momento, não haveria mais como os Jogos morrerem.

Em 1910, Atenas receberia outra edição das Olimpíadas, mas a Grécia entrou em guerra com a Turquia e o evento foi cancelado. Em 1914, a Primeira Guerra Mundial tornou impossível a realização do evento. Após o término dos conflitos, o COI decidiu extinguir os Jogos Intercalados, o que fez do evento ateniense de 1906 uma edição extra-oficial das Olimpíadas. Hoje, são chamados de Jogos Intermediários e suas medalhas não contam no quadro geral histórico. De qualquer forma, foi uma edição muito mais importante que as de 1900 e 1904.

Ray Ewry.jpgO destaque
Não houve um grande número de atletas (847, sendo apenas 6 mulheres, todas no tênis) e de países inscritos (20) em Atenas’06, mas foi o suficiente para um dos maiores atletas da história olímpica deixar seu nome. Nas primeiras edições dos Jogos Olímpicos, além dos tradicionais saltos triplo, em distância e em altura, havia curiosas provas em que os mesmo saltos eram realizados com o atleta parado. E, nessas provas, ninguém conseguia competir com o norte-americano Raymond “Ray” Ewry.

Chamado de “Homem Borracha”, ele conquistou oito medalhas de ouro, permanecendo invicto em sua trajetória olímpica. Em 1900 e 1904, venceu nos saltos triplo em distância e em altura. Só não repetiu a trinca em 1908 porque o salto triplo sem corrida foi retirado do programa.

Em 1906, Ray Ewry foi campeão nos saltos em distância e em altura. Se aquela edição dos Jogos fosse considerada oficial, o norte-americano teria 10 títulos olímpicos, que o tornariam o maior vencedor da história do evento. Com 8, está a um título de Mark Spitz, Paavo Nurmi, Larisa Latynina e Carl Lewis.

Ubiratan Leal/Imagens: Stadio e Historia de los Juegos Olímpicos

Obs.: clique no “Continue lendo...” e veja o quadro de medalhas dos Jogos Olímpicos de Atenas em 1906.

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Argentina não precisou de muito para ter o ouro

O torcedor brasileiro que disser que não sentiu nem uma ponta de inveja do título olímpico argentino está mentindo. O Brasil, que mostra um desejo desmesurado pela medalha de ouro no futebol, não a consegue. A Argentina, que também sentia falta dessa conquista, mas não mostrava tamanha obsessão, a ganhou sem sinal de dificuldade ou sofrimento, características das campanhas olímpicas brasileiras.

Argentina Atenas.jpg

O que deve dar mais dor de cotovelo aos torcedores brasileiros é perceber que os argentinos não fizeram nada de genial para conseguir o ouro. E nem teriam porque fazê-lo, pois o torneio sempre tem nível técnico mediano. Para os platinos, bastou realizar um plano simples, sem cometer os erros pontuais e decisivos que sempre marcaram as campanhas brasileiras.

A principal diferença entre a campanha argentina em 2004 e as últimas da seleção brasileira foi a seriedade com que encarou o torneio. Não é suficiente considerar a competição importante, é necessário também reconhecer que os adversários podem representar algum perigo e, por isso, manter a concentração em todos os jogos. Mas respeitar o adversário é algo cada vez mais raro em partidas de seleções brasileiras.

Por causa dos títulos mundiais, o Brasil se colocou como a maior nação futebolística do planeta. Isso é até verdade. Mas não quer dizer que a seleção seja intocável e infalível. E isso o brasileiro (torcedor, imprensa e jogadores) não consegue entender direito. Acha que o talento sempre resolverá os problemas que aparecerem pelo caminho.

Foi assim que a seleção caiu em 1992, ao menosprezar até o limite a fraca seleção da Venezuela no Pré-Olímpico do Paraguai. O mesmo ocorreu em 1996, quando o time começou o torneio mais preocupado na festa do pódio do que nos jogos. Perdeu para o Japão na estréia, se recuperou e, após fazer 3x1 na Nigéria nas semifinais, ficou esperando a partida acabar e tomou o empate. Em 2004 também houve relaxamento por excesso de confiança, o que fez com que o time não encontrasse seu jogo em nenhum momento no Pré-Olímpico. Parecia incomodada com o fato de ter um adversário que tentava ipedir a vitória brasileira.

Brasil x Camaroes 2000.jpg

Mas nenhum caso de soberba foi tão grave quanto o visto em 2000. Deixar os três jogadores acima de 23 anos de lado é um luxo ao qual pouquíssimas formações podem se dar. E claramente não era o caso da seleção olímpica do Brasil que foi a Sydney. Somando a isso a falta de autoridade de Luxemburgo, que, na época, tinha ações investigadas pela Justiça, a seleção se desmanchou em sua própria autoconfiança.

Isso não significa que o Brasil perca apenas por problemas internos. Apenas que a seleção se colocou em uma situação que dificilmente reverteria diante de adversários tão ou mais fortes, como a Espanha de 1992 (que nem precisou passar pelo Brasil) e a Nigéria de 1996. Como o torneio do futebol nas Olimpíadas carrega um alto grau de imprevisibilidade pela inexperiências dos jogadores e desconhecimento que uma equipe tem da outra, não se pode dar hipóteses aos adversários.

A Argentina soube evitar isso. Por exemplo, não deixou de golear a Itália nas semifinais ou de buscar a vitória sobre o Paraguai logo nos primeiros minutos. Era necessário se impor pelo futebol para evitar surpresas, coisa que o Brasil nunca fez nas Olimpíadas de 1996 e 2000. A albiceleste também tinha talentos de sobra, mas Marcelo Bielsa não deixou de chamar Cristián González, Heinze e Ayala. Afinal, os garotos precisavam de alguém que os liderasse e havia um buraco no meio da defesa a ser coberto. E, principalmente, conseguiu montar um time em que seu craque, Tévez, decidisse.

Ou seja, a Argentina não fez nada que o Brasil não pudesse ter feito antes. O problema é que, por alguma razão, o Brasil nunca fez. Agora é aplaudir a festa platina.

Ubiratan Leal/Imagens: Athens 2004 e BBC Sport

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agosto 27, 2004

O basquete norte-americano ainda é melhor

Após a derrota dos Estados Unidos para a Argentina nas semifinais do torneio de basquete masculino, somada às derrocadas diante de Porto Rico e Lituânia na primeira fase, ficou tentador dizer que europeus e argentinos já superaram ou igualaram os criadores da NBA. Mas é necessária alguma calma. Os norte-americanos deixaram de ser hegemônicos a algum tempo, mas ainda são superiores.

Dream Team 2004 b.jpg

Deve ser considerado que o time que entrou em quadra em Atenas é um time misto dos Estados Unidos, equivalente à seleção brasileira de futebol que disputou a Copa América em julho. Com a força máxima, composta por jogadores como Shaquille O’Neal, Kobe Bryant e Jason Kidd, por exemplo, o pseudo-Dream Team teria mais argumentos na briga pelo ouro.

O que os resultados na Copa do Mundo de 2002 em Indianápolis (6º) e dos Jogos Olímpicos de Atenas mostraram é que o basquete norte-americano já não se pode dar luxos se quiser realmente tentar o título. Não pode deixar de lado seus principais jogadores, tampouco dispensar uma preparação coletiva minimamente decente. Caso contrário, terá uma desvantagem estratégica diante dos adversários.

É curioso os Estados Unidos terem analisado tão mal a forma de preparação necessária às Olimpíadas. Afinal, a NBA se europeizou nos últimos anos. A marcação por zona deixou de ser proibida, o que incrementou a capacidade de ação das defesas, aumentou a quantidade de arremessos de média distância e provocou a queda da média de pontos por partida. Prova disso é a forma incontestável e admirável como o Pistons bateu o Lakers na última final da liga, revertendo o menor talento com muita aplicação tática e mantendo o placar abaixo dos 100 pontos.

Dream Team 2004.jpg

E, se o Detroit de Rasheed Wallace e Chauncey Billups bateu o Lakers de O’Neal, Bryant, Payton e Malone, não havia motivos para duvidar que Argentina, Lituânia, Sérvia-Montenegro, Espanha, Porto Rico ou Itália pudessem fazer o mesmo com os Estados Unidos em Atenas. Ainda mais quando o técnico dos Pistons é o mesmo da seleção norte-americana, Larry Brown. Mas parece que o treinador não aprendeu com as lições dadas por ele mesmo. Ou então, os Estados Unidos mais uma vez pecaram pela soberba. A mesma que incentivou a escalação de uma equipe de 3º nível da NBA na Copa do Mundo em 2002, que só foi suficiente para ficar com o 6º lugar.

Como a ausência das reais estrelas da NBA em Jogos Olímpicos não é tão simples de resolver (vai de resguardo em relação ao exame antidoping a questões comerciais com patrocinadores, passando por receio de se expor em terreno desconhecido e no pensamento de que torneios da Fiba são inúteis), talvez os Estados Unidos continuem montando equipes mistas para esses torneios. E, aí, vão deixar cada vez mais que outros países os superem. Até que nem uma seleção norte-americana principal, um Dream Team de verdade, consiga reverter o processo.

Ubiratan Leal/Imagens: The New York Times e La Gazzetta dello Sport

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agosto 26, 2004

Elisabeta e Birgit

A atenção que se dá ao remo e à canoagem é mínima nos Jogos Olímpicos e a consagração de duas das maiores atletas desses esportes passou desapercebida no noticiário vindo de Atenas. Por isso, prestamos essa pequena homenagem a Elisabeta Lipa e Birgit Fischer.

A primeira a se consagrar foi a romena Lipa. Em Los Angeles'84, ela tinha apenas 19 anos e ainda carregava seu sobrenome de solteira (Elisabeta Oleniuc) e, ao lado de Marionara Popescu, conquistou o ouro no esquife duplo.

Lipa.jpg

Quatro anos depois, já casada e com o sobrenome Lipa, Elisabeta não conseguiu repetir o feito de Los Angeles, ficando com a prata no esquife duplo e o bronze no quádruplo. Mas se recuperou quatro anos depois, em Barcelona, onde conquistou sua única medalha individual ao vencer o esquife simples. Ainda levou a prata no esquife duplo. Em Atlanta, fracassou na tentativa de revalidar seu ouro no esquife simples com a nona colocação final, mas integrou a vitoriosa equipe da Romênia no oito com (foto), prova da qual veio seu quarto ouro, em 2000.

Em Atenas, Lipa, que chegou a trabalhar para o serviço secreto romeno na década de 1980, conquistou seu quinto ouro olímpico, no oito com, ao lado de Rodica Florea, Viorica Susanu, Aurica Barascu, Ioana Papuc, Liliana Gafencu, Georgeta Damian, Doina Ignat e Elena Georgescu. É a maior vencedora do remo na história das Olimpíadas.

Hoje foi o dia da canoísta alemã Birgit Fischer. Ela já chegou a Atenas como recordista de títulos olímpicos da modalidade, o que é mais impressionante se for considerado que ela deixou de disputar uma edição do evento devido a um boicote político de seu país.

Suas façanhas começaram nos Jogos de Moscou, em 1980. Com 18 anos e defendendo a Alemanha Oriental, Fischer já era campeã mundial e contava com um caiaque especial, composto por fibra de vidro. Assim, seu ouro no K1 500 m foi normal. Quatro anos depois, ela não pôde defender seu título, pois a Alemanha Oriental integrou o movimento liderado pela União Soviética e não foi aos Jogos de Los Angeles. Uma pena, pois ela já era tricampeã mundial da modalidade (79, 81 e 83).

Fischer.jpg

Em 1988, já competia com seu nome de casada: Birgit Fischer-Schmidt. Foi prata no K1 e ouro no K2 e no K4. Em Barcelona'92, com as cores da Alemanha unificada, reconquistou o ouro no K1 e ficou com a prata no K4. Mesmo com 34 anos, ainda continuava em forma nos Jogos de 1996. Foi ouro no K4 e prata no K2. E a alemã seguia competindo. Em Sydney, foi ouro no K2 e no K4. Já com 40 anos, a alemã completou uma incrível marca de oito medalhas de ouro em Atenas. O título veio, hoje, no K4. Ela também se tornou a primeira mulher a ganhar o ouro olímpico em um intervalo de 24 anos.

Ubiratan Leal

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agosto 23, 2004

Daiane dos Santos e a imprensa

Daiane dos Santos.jpg

É possível dizer que a imprensa, principalmente a televisão, foi a principal culpada pela decepção causada por Daiane dos Santos em Atenas. Para explicar melhor: a mídia não é responsável pelos problemas na apresentação da gaúcha. Até porque a ginasta, pela maturidade das declarações pós-derrota, mostrou ter mais capacidade de lidar com a pressão do que muitos esperavam. O erro da mídia foi pelo fato de fazer com que o torcedor se decepcionasse tanto.

Salvo exceções, em nenhum momento, a imprensa esportiva procurou deixar claro qual era o cenário da ginástica para os Jogos Olímpicos e as concorrentes da brasileira. No máximo, jogava nomes de algumas atletas, mas sempre completando com um “se a Daiane fizer o que sabe, é imbatível”. O final das contas, a mídia teve um papel ao estilo de Tom Zé: explicou para confundir. O problema é que, ao contrário do músico baiano, não completou o processo. Não conseguiu confundir para esclarecer, algo fundamental.

Assim, o torcedor não soube visualizar as possibilidades da brasileira de forma realista, achando que ganharia quando bem entendesse e só perderia por extrema incompetência ou se “amarelasse” (é visível como o trauma de nenhum ouro em Sydney ainda está vivo). Assim, a falta de equilíbrio em seus pousos foi encarada como algo maior. Vale dizer que esse erro é normal e Daiane já cometera várias vezes nessa rotina, algo até natural após séries acrobáticas tão rápidas, altas e fortes.

Faltou, por exemplo, deixar claro que, na etapa do Rio de Janeiro do Mundial de Ginástica, as ginastas russas e romenas não estiveram presentes para se preparar para o Campeonato Europeu da modalidade. Faltou dizer que Catalina Ponor prima pela precisão de seus movimentos, mesmo que sejam pouco ousados perto dos duplos mortais de Daiane.

Catalina Ponor.jpg

Considerando isso tudo, o passo fora da área regulamentar da gaúcha nem foi o único responsável pela derrota. A romena ficou com um excelente 9,750, nota que Daiane não recebe toda hora e que talvez não tiraria em Atenas, mesmo se mantivesse o equilíbrio após a primeira série acrobática. Por exemplo, no Rio de Janeiro, a brasileira foi campeã com 9,600.

Tudo foi ignorado. Foi mais fácil manter o ufanismo e tratar a apresentação da ginasta brasileira como se fosse final de Copa do Mundo, com Galvão Bueno, torcida organizada em vários lugares, telão e um monte de gente achando que havia entendido o torneio, mesmo sem conhecer as adversárias. Os que “ousavam” falar que o ouro não era tão certo e que a concorrência era forte foram vistos pela maioria como chatos, ranzinzas e pessimistas. Foram condenados por falarem a verdade, vejam só.

Daí, um erro e uma honrosa (sem ironia) 5ª colocação passa a ser vista como derrota. Poderia ser melhor, mas faz parte da natureza de esportes de precisão, como a ginástica. E as TVs ficam desesperadas tentando consolar o torcedor com frases feitas e as vitórias do futebol feminino e do vôlei de praia masculino. Seria até válido se a mudança de rumos não fosse tão patética.

Ainda bem que Daiane e a comissão técnica da equipe brasileira de ginástica, entenderam o que se passou no último dia da ginástica nos Jogos de Atenas. E ainda tiveram cabeça para levar o torcedor novamente à realidade. É isso o que importa. O brasileiro não precisa inventar novos fantasmas esportivos.

Ubiratan Leal/Imagens: Terra

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Mídia

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Livros


Curtas olímpicas

agosto 31, 2004

Não é nada contra o Brasil
A ridícula "manifestação" do irlandês Cornelius Horan, investindo sobre Vanderlei Cordeiro de Lima, líder da maratona no km 36, não foi nada contra o Brasil. Em 2003, ele fez algo parecido no GP da Inglaterra de Fórmula 1. Invadiu a pista e quase foi atropelado, obrigando a organização da corrida a colocar o safety car. O líder da corrida era o italiano Jarno Trulli na hora da aparição de Horan, mas o grande prêmio foi vencido por Rubens Barrichello. Do Brasil.
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agosto 30, 2004

As justificativas
Leia o que o New York Times disse sobre a derrota do basquete masculino dos Estados Unidos para a Argentina.
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agosto 27, 2004

Mais de um bilhão de pessoas... e só uma medalha?
Por que a Índia, no meio de seus mais de um bilhão de habitantes, só conseguiu encontrar, até agora, um atleta que pudesse conquistar medalha olímpica em Atenas (Rajyavardhan Singh Rathore foi prata no tiro)? Veja aqui.
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Expectativas para o futebol
Após o assassinato do jornalista italiano Enzo Baldoni por rebeldes iraquianos, a disputa pelo bronze entre Itália e Iraque se tornou um jogo de alto risco. Há um claro constrangimento, por mais que o time iraquiano tenha pedido que os milicianos libertassem Baldoni. Enquanto isso, a prefeitura de Assunção suspendeu para esse sábado a lei que obriga os estabelecimentos noturnos a fecharem as portas à meia-noite. Como a final do futebol masculino será disputada às 3 horas do domingo no horário paraguaio, as casas noturnas poderão ficar abertas para que os torcedores possam assistir e, se tiverem sorte, comemorar o ouro.
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agosto 25, 2004

Até aqui a China ganha
Um canadense resolveu prestar atenção aos últimos colocados de todas as provas olímpicas. E até armou um quadro de "medalhas". O curioso é que, até nesse quesito, a China luta pelo título. E, para variar, o Brasil está no finalzinho da lista. Veja aqui.
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agosto 24, 2004

Daiane e o Homem Chavão
A derrota de Daiane dos Santos mostrou como o brasileiro tem se especializado na arte de falar muita coisa sem sair do lugar. Até virou motivo de piada. Quer ver? Clique aqui.
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agosto 23, 2004

Chile faz história
Já foi dito que o ouro de Nicolás Massú e Fernando González nas duplas masculinas do tênis foi o primeiro da história olímpica do Chile. Pois, com o título individual do domingo, Massú se tornou o primeiro sul-americano a ganhar mais de uma medalha dourada na mesma edição do evento. Até que é justo. O Chile foi o único país da região a participar dos I Jogos Olímpicos da era moderna, em 1896. O solitário atleta foi Luís Subercaseaux, que não passou das eliminatórias dos 100, 400 e 800 m rasos. Além disso, nenhum país da América do Sul participou de tantas edições dos Jogos. Os chilenos só não tiveram atletas em 1900, 1904, 1908 e 1980.
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