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março 14, 2004

O Glória quer perder para ele mesmo

gloria vacaria.jpg

Discretamente, jogadores, comissão técnica e dirigentes do Glória estão levando com muita seriedade a possibilidade de o time fazer a final do Gauchão contra si mesmo. Um sinal disso é que já está em ação um plano para evitar os problemas de batalhar por duas frentes. Por mais absurdo que possa parecer, o clube de Vacaria está amparado no regulamento do campeonato para manter tal pretensão.

Devido a uma imprudência da Federação Gaúcha, Glória, 15 de Novembro de Campo Bom, Santa Cruz e São Gabriel foram colocados em dois grupos simultaneamente. Como os vencedores de cada grupo se enfrentam nas semifinais, foi aberta a possibilidade de um desses quatro clubes conseguir duas vagas na decisão.

A federação não imaginava que um desses pequenos pudesse desbancar Grêmio, Internacional, Juventude e Caxias. Ao contrário do que pensou a diretoria do Glória. “Quando percebemos que havia essa possibilidade, tratamos de desenvolver um plano para atingirmos esse objetivo”, conta Edu Chaves, supervisor de futebol do clube. “Ver Glória x Glória na final seria um marco na história da cidade.”

Por trás do discurso emocional do dirigente vacariense há motivos bastante racionais para o sonho do clube. Com um Glória x Glória, as duas partidas da decisão seriam disputadas no estádio Altos da Glória, em Vacaria. Com isso, os cofres do clube receberiam as arrecadações dos dois jogos. Além disso, pessoas ligadas ao clube já consultaram a CBF sobre a possibilidade de o Glória, como campeão e vice gaúcho, ter direito a duas vagas na Copa do Brasil de 2005. Ainda não obtiveram resposta.

Tamanho otimismo pode ser exagerado. Afinal, a equipe celeste tem de passar por Grêmio ou Juventude nas semifinais do Grupo 1, além de ficar em primeiro entre os dois pequenos do Grupo 2. A idéia dos vacarienses é, por enquanto, priorizar os confrontos com os grandes. “Daí, podemos escolher em que posição ficar no grupo 2 e, assim, ter um lugar em cada chave das semifinais”, explica Bagé, o técnico do time. Segundo ele, a maratona de jogos não será problema. “Isso só ocorrerá até abril, quando terminam os jogos pelo Grupo 1.”

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Todos no clube parecem confiantes em relação à capacidade de a equipe vencer os dois grupos. O maior receio é o de o elenco sucumbir a contratempos internos. “A equipe vai se dividir, mas o grupo tem de permanecer unido”, prega Bagé. “Se a final for Glória x Glória, com certeza iremos perder para nós mesmos, algo que os jogadores não estão preparados para aceitar, mas será algo normal diante das circunstâncias”, afirma o técnico, lembrando que, nessa hipotética final, amarelar não seria tão condenável.

Já surgem alguns problemas. Para a eventual final, o elenco teria de se partir em dois. A comissão técnica tenta convencer os jogadores a usar a mesma divisão de atletas usadas os treinos recreativos, os “rachões”. No entanto, alguns jogadores não querem correr o risco de ficar na metade mais fraca e já buscam se agrupar. Internamente, todos querem contar com o artilheiro Sandro Sotille e o armador Fábio de los Santos. Por enquanto, está determinado que cada um ficaria em um time na eventual decisão.

O princípio de divisão interna do elenco do Glória torna mais provável a manutenção de uma tradição do futebol gaúcho: a de o jogo terminar com briga generalizada. Para os vacarienses, seria uma tragédia. “Corremos o risco de termos nosso elenco todo expulso e ficar sem jogadores para jogar a Série C do Brasileiro ou o Gauchão de 2005”, comenta Edu Chaves, supervisor de futebol do clube.

Mesmo com os conflitos internos, o Glória ainda acha que pode monopolizar a final. Tanto que seus dirigentes não devem aceitar a mudança de regulamento feita pela Federação Gaúcha, impedindo que uma equipe enfrente ela própria na final. “Temos o Estatuto do Torcedor do nosso lado e vamos lutar pelos nossos direitos na Justiça Comum se for necessário”, brada Chaves. De acordo com o Estatuto, um campeonato não pode ter seu regulamento mudado durante a competição.

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O estádio Altos da Glória pode ser cenário de um dos momentos mais insólitos e bizarros da história do futebol mundial

Ubiratan Leal

Imagens: Diário de Vacaria, Federação Gaúcha de Futebol e Templos do Futebol

Obs.: Essa “reportagem” é uma obra de ficção e, portanto, não deve ser levada a sério. Nenhuma das pessoas, empresas, entidades ou associações citadas no texto foi efetivamente entrevistada ou consultada. Ah, e como ninguém aqui tem talento para ler mãos, i-ching, tarô, búzios, mapa astral ou bola de cristal, qualquer semelhança com a vida real foi uma grande coincidência.



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