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fevereiro 12, 2004

As primeiras animosidades anglo-soviéticas

dynamo moscou 45.jpg

A Guerra Fria não teve início de forma abrupta. Pouco depois da Segunda Guerra Mundial, o êxtase pós-derrota alemã ainda unia soviéticos, ingleses, franceses e norte-americanos. Assim, não foi de todo estranho quando, em novembro de 1945 (três meses após o término oficial da guerra), o Dynamo de Moscou foi ao Reino Unido disputar uma série de amistosos. O que ficou esquisita foi a relação entre ingleses e soviéticos depois dos jogos.

Dynamo foi escolhido porque acabara de vencer o primeiro campeonato soviético pós-guerra. O clima de aliança entre as nações era tão grande na época que não se deu grande importância ao fato de o Dynamo ser o clube do Narodnii Komissariat Vnutrennikh Del (NKVD, sigla em russo para Comissariado do Povo para Assuntos Interiores), entidade que, após algumas mudanças estruturais, passaria a se chamar Komitet Gossoudarstvenno Bezopasnosti (Comitê para a Segurança do Estado, ou simplesmente KGB) em março de 1954.

Inclusive, o primeiro presidente do Dynamo após sua fundação oficial – desconsiderando o período em que se chamou Orekhovo – em 1923 foi Feliks Edmundowicz Dzierżhińsky, líder da polícia secreta soviética e ministro do interior de Joseph Stalin. Em 1945, o time de futebol e o NKVD também tinham o mesmo comandante: Lavrenti Pavlovich Beria.

De qualquer forma, a excursão era – para os ingleses – meramente simbólica. Até porque uma equipe da Rússia não poderia dar trabalho aos criadores do futebol. Muito diferente do que ocorreria na estréia da seleção da União Soviética em Copas do Mundo, contra a própria Inglaterra em 1958. Com a Guerra Fria já consolidada, os misteriosos e isolados soviéticos eram vistos como super-homens, causando temor em todos, inclusive nos ingleses.

Mas, na década de 40, o país mais oriental da Europa tinha uma imagem completamente diferente. Vindo de uma terra distante, exótica e devastada – mais de 20 milhões de soviéticos morreram na guerra –, o máximo que o Dynamo provocava era curiosidade. Os próprios jornalistas britânicos que acompanhavam os moscovitas reportavam a falta de capacidade física, técnica e intelectual dos jogadores do Dynamo. No entanto, foram jogos surpreendentes, do ponto de vista futebolístico e diplomático.

A estréia soviética em solo britânico foi em Londres, contra o Chelsea (que vive uma fase de abundância financeira depois que foi comprado justamente por um bilionário russo). Parte dos relatos são pouco confiáveis, como a estimativa de 100 mil pessoas se amontoando no estádio de Stamford Bridge para ver o futebol dos soviéticos.

Mesmo que fossem menos, o importante é a sensação de susto por parte dos ingleses. O Dynamo apresentava um jogo de habilidade, velocidade, movimentação constante e inteligência. E tomava a iniciativa, uma ousadia até então não imaginada. Os ingleses eram pressionados e só não tomaram um gol porque o veterano Woodley, goleiro com passagens pelo English Team, e a trave estavam no caminho dos arremates soviéticos. Porém, a sorte estava do lado inglês. Sem merecer, o Chelsea – reforçado por dois jogadores do Fulham – fez dois gols, com Goulden e Williams.

Os moscovitas continuaram melhor. Ainda no primeiro tempo, tiveram um pênalti a favor, mas Soloviev desperdiçou a cobrança. Já na segunda parte, o atacante Kartsev diminuiu a diferença com um chute de fora da área. Pouco depois, Archangelski empatou. Antes do fim da partida, Lawton recolocou os londrinos na frente, mas Bobrov teve tempo de estabelecer o merecido empate.

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Se os 3x3 com o Chelsea já foram surpreendentes, o jogo seguinte foi histórico. É verdade que o Cardiff City estava na Terceira Divisão inglesa, mas nem isso justifica o fato de perder em casa por 10x1. O técnico do clube galês, Cyril Spiers, disse que aqueles 11 soviéticos formavam o melhor time que ele já tinha visto na vida.

Já mostrando que a relação entre comunistas e capitalistas não seria das mais amistosas, Mikhail Yakushin, técnico do Dynamo, provocou. Disse que aquele era o modo comunista de jogar futebol, em que todos desempenhavam papel de igual valor e o bem coletivo era mais importante que as individualidades.

De volta a Londres, o compromisso era com o Arsenal. A pedido do Dynamo, o árbitro escalado foi o soviético Nikolai Latychev, o mesmo que apitaria a final da Copa de 62. Os gunners estavam reforçados com dois jogadores do Blackpool (um deles era o lendário ponta Stanley Matthews) e um do Fulham. A tradicional neblina de Londres estava forte e mal se via o campo. Ainda assim, o jogo foi iniciado.

Logo no início, o atacante Constantin Beskov (que depois seria o treinador da seleção soviética no Mundial de 82) pôs o Dynamo na frente. Mas Rooke, Mortensen e Matthews viraram para os londrinos. Beskov marcou outro gol e definiu o 3x2 a favor dos ingleses no intervalo.

No segundo tempo, a visibilidade estava ainda mais prejudicada. Mas o jogo continuava. A versão do Arsenal é que Mikhail Yakushin, técnico soviético, dizia a Latychev que o jogo deveria prosseguir enquanto o Dynamo não retomasse a dianteira no marcador. Outra lenda é que, em um determinado momento, os soviéticos se aproveitaram da impossibilidade de se ver o campo todo para colocar um 12º jogador no gramado.

Foi quando Kartsev recebeu livre, diante do goleiro. O bandeirinha acusou o impedimento, mas o árbitro ignorou a indicação e deixou o atacante concluir a jogada: 3x3. A partir daí, os ingleses afirmam que houve uma seqüência de marcações equivocadas de Latychev, todas em favor de seus compatriotas. Até que Bobrov fizesse o gol da vitória moscovita.

Os 4x3 não foram bem aceitos entre os britânicos, que deram o apelido de “a farsa da neblina” para o pretenso amistoso. De ingênuos e amadores, os soviéticos passaram a esportistas pouco leais. O fato de que Latychev viajava com a delegação do Dynamo não foi esquecido. O escritor George Orwell disse que, se aquelas partidas tiveram algum efeito, foi o de piorar as relações anglo-soviéticas.

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O último jogo marcado não seria em terras inglesas. Em Glasgow, Escócia, os moscovitas enfrentariam o Rangers. A invencibilidade do campeão soviético despertou uma grande expectativa nos torcedores escoceses. Com o jogo marcado para as 14h15 de um dia de semana, fala-se que mais de 90 mil pessoas foram ao estádio Ibrox (muitos tiveram de compensar a escapada do trabalho com horas extras).

O Dynamo começou melhor, em seu estilo de habilidade e rápida troca de passes. Aos 2 minutos, Kartsev fez o primeiro, de falta. O Rangers ainda conseguiu um pênalti, defendido por Khomich. Os soviéticos continuaram dominantes e a possibilidade de uma goleada ficou clara após mais um gol de Kartsev. O gol escocês, marcado por Smith aos 40 do primeiro tempo deu um pouco de esperança aos torcedores presentes no estádio.

Na medida em que a partida se tornava disputada, os ânimos se exaltaram. O escocês Gillick chegou a contar quantos jogadores o Dynamo tinha em campo em um determinado momento, em evidente referência à história dos 12 jogadores soviéticos em campo contra o Arsenal. O empate do Rangers veio de um pênalti duvidoso, assinalado pelo bandeirinha (escocês) e aproveitado por Young.

No final das contas, a falta de esportividade de ambas as partes (dos erros de arbitragem ao menosprezo ao adversário estrangeiro) criaram um clima diplomático ruim, o que ofuscou o mérito da excursão do campeão soviético ao Reino Unido. Como mostrar a evolução do futebol no continente, fato ignorado pelos ingleses até as humilhantes derrotas para a Hungria em 1953.

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Até hoje os torcedores do Dynamo chamam aquela excursão de “19:9”, em alusão ao placar somado de todas as partidas. Em 1947, foi montada a comédia musical “19-9”, que retrata os jogadores do Dynamo como heróis socialistas que venceram os corruptos capitalistas em seu próprio território.

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Lendas a respeito da excursão do Dynamo ao Reino Unido não faltam. Antes da partida contra o Rangers, um jornalista escocês tirou uma foto dos soviéticos se preparando no vestiário. A foto sumiu. Dizem que gente do alto escalão do governo comunista acompanhava o Dynamo e não poderia aparecer.

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Outra história diz respeito a linha telefônicas especiais instaladas nos hotéis em que o Dynamo se hospedou. Elas ligariam a chefia da delegação do time com o alto comando soviético, sobretudo Stalin.

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Em 1972, Rangers e Dynamo de Moscou voltaram a se encontrar. Dessa vez, na final da Recopa Européia, disputada em Barcelona. Os escoceses venceram por 3x2 e ficaram com o título, o único internacional dos azuis de Glasgow.

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Por melhores que tenham sido os resultados do Dynamo de Moscou na Grã-Bretanha, o maior legado do clube na história foi outro. Foi no clube da KGB que o goleiro Lev Yashin, tido por muitos como o melhor de todos os tempos, jogou em toda sua carreira.

Ubiratan Leal

Imagens: Football Culture, Dynamo Moscou site não-oficial e Programme Monthly



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