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janeiro 15, 2004 Der Deutschen Demokratische Republik
Em uma das cenas do recomendado “Adeus, Lenin”, berlinenses dos dois lados do já derrubado muro se unem e vibram com a vitória de seus conterrâneos na Copa da Itália. E, realmente, o título mundial da nationalmannshaft (como os alemães chamam sua seleção) teve um papel psicológico na Alemanha recém-unificada, era uma prova da força que essa nação teria diante do mundo. Mas, em campo, o lado oriental nada tinha a ver com aquele time de Matthäus e Völler. Antes que atirem a primeira pedra, que fique claro que o filme de Wolfgang Becker – indicado alemão para concorrer ao Oscar de melhor filme estrangeiro – é fiel aos fatos. Os alemães se sentiam – como os coreanos ainda se sentem – apenas como membros de uma nação e que a divisão imposta a eles era de caráter político. Assim, os ex-orientais realmente apoiaram os novos compatriotas. Mas muita gente, que já diz por aí que a Alemanha unificada foi campeã mundial de 1990, confundirá ainda mais as divisões políticas com as futebolísticas e terá mais certeza do equívoco. A questão da Copa de 90 é relativamente simples de explicar. As fronteiras entre as Alemanhas já não existiam mais desde o final de 1989. Porém, quando o muro foi derrubado, as Eliminatórias já estavam em disputa, com duas Alemanhas. Como a Fifa não reconhece países, mas federações nacionais (é diferente), a Alemanha só seria uma no futebol quando toda a federação ocidental incorporasse oficialmente a oriental. E isso só aconteceria depois de terminados os campeonatos já em andamento (ou seja, o Mundial da Itália). Assim, uma Alemanha (a capitalista) ficou no Grupo 4, com Holanda, Gales e Finlândia. Mesmo com o segundo lugar, os ocidentais garantiram um lugar no torneio italiano. A outra Alemanha (a comunista) disputou duas vagas no Grupo 3, enfrentando Áustria, Islândia, Turquia e União Soviética. Após muito equilíbrio, os alemães-orientais chegaram à última partida precisando apenas de um empate para conquistar a segunda vaga do grupo. Mas perderam para a Áustria em Viena e ficaram de fora. Era 15 de novembro e a Alemanha praticamente já era uma só.
No entanto, a maior ironia histórica dessas Eliminatórias não foi o fato de a Alemanha Oriental fazer sua última partida oficial contra um país que foi, durante a Segunda Guerra Mundial, parte da Alemanha. Foi um mês antes. Em 8 de outubro de 1989, na semana em que comemorava seu 40º aniversário, a Alemanha do Leste recebeu a União Soviética, ainda uma só, mas em avançado processo de separação de suas repúblicas. Para aumentar ainda mais o caráter irônico, o jogo foi realizado na cidade de Chemnitz, que na época tinha o nome de Karl Marx Stadt. Os germânicos venceram de virada, com dois gols nos últimos 10 minutos. Após a derrota para a Áustria, os alemães-orientais não disputaram mais nenhuma partida oficial. O que não quer dizer que a seleção tenha deixado de existir. Afinal, os jogadores do lado comunista não ficariam privados de partidas internacionais até a unificação das federações, que só ocorreria depois de julho de 1990. Por isso, a Alemanha Oriental disputou diversos amistosos mesmo já sabendo que deixariam, em breve, de existir como nação. Os primeiros foram em janeiro de 1990, contra França e Kuait (0x3 e 2x1). Em março, mais uma partida irônica (o que não falta aqui é coincidência histórica). Nesse caso, não completamente despropositada: na nova Berlim unificada, a Alemanha Oriental recebeu os Estados Unidos. Vitória dos europeus por 3x2. Em abril, os germânicos venceram egípcios (2x0 em Karl Marx Stadt) e escoceses (1x0 em Glasgow).
Depois de 5 vitórias consecutivas, os alemães-orientais disputariam sua penúltima partida. E é até curioso os brasileiros esquecerem a existência da Alemanha comunista nesse período. Em 13 de maio de 1990, o Brasil se despediu da torcida brasileira recebendo a Alemanha Oriental no Maracanã. Os 58.900 pagantes viram uma partida equilibrada. Com gols de Alemão (ironia final), Dunga e Careca, o Brasil fez 3x1. Mas os ex-orientais reagiram e empataram nos descontos. O 3x3 em casa foi um sinal de que a torcida brasileira não deveria se empolgar muito com a seleção de Sebastião Lazaroni. A partida de despedida da Alemanha Oriental foi disputada em 12 de setembro, com vitória sobre a Bélgica em Bruxelas (2x0). Um mês depois, em 3 de outubro de 1990, o governo de Richard von Weizsächer caiu, oficializando a unificação alemã. Mas a confusão entre Alemanhas – inexistente quando o assunto é Olimpíadas, por exemplo – não se deve apenas às datas. Na verdade, pela falta de tradição, a República Democrática Alemã (vulgo Alemanha Oriental) sempre ficou de lado, esquecida e ofuscada pelos vizinhos. E as causas disso vão desde a época de quando a Alemanha era uma só, antes da divisão. O campeonato alemão é disputado desde 1903. Mas, ao contrário do que ocorreu com nações vizinhas como Tchecoslováquia, Áustria, Hungria e França, os alemães não tinham implantado o profissionalismo quando começaram a Segunda Guerra Mundial. Assim, não havia uma estrutura futebolística forte que sobrevivesse à destruição e divisão política causadas pela guerra.
Isso vale para as duas Alemanhas. O lado ocidental conseguiu se reerguer com relativa rapidez, principalmente com a motivação decorrente do título mundial de 1954. Mas o lado oriental ficou para trás. Quase toda as instituições esportivas tinham de ser refeitas. E a prioridade do governo comunista eram os Jogos Olímpicos. Assim, houve grande investimento e desenvolvimento em ginástica artística, natação, atletismo e vôlei, por exemplo. Incluindo aí o incentivo a crianças para praticarem essas modalidades. O futebol virou ferramenta de propaganda e política interna, com cada agência estatal comandando um clube, fato que diminuiu o envolvimento emocional dos torcedores. O que não quer dizer que a Alemanha comunista tenha sido uma negação no futebol mundial. Vítimas da inevitável comparação com os ocidentais, os orientais eram vistos com desdém e seus esforços nunca foram muito reconhecidos. Mas, quem pegar o retrospecto da RDA em jogos oficiais, verá uma versão anglo-saxônica de Portugal, pois tinha equipes de respeito, mas nunca se classificava para Eurocopas e Mundiais por detalhes como um critério de desempate ou um mal resultado fora de hora.
É só verificar na história. Em 57, 65, 69, 77, 81 e 89, a Alemanha Oriental só não se classificou para os Mundiais dos anos seguintes por perder a partida decisiva para, pela ordem, Tchecoslováquia, Hungria, Itália, Áustria, Polônia e novamente Áustria. As exceções foram em 61, quando a Hungria dominou completamente o grupo eliminatório, e em 85, quando a Alemanha Oriental pecou por perder na estréia, em casa para uma fraca Iugoslávia. No final das contas, a Alemanha Oriental quase sempre passou perto, mas só conseguiu participar de uma única Copa, justamente na Alemanha Ocidental (está bem, prometi que o gol do Alemão era a última ironia desse texto, mas há mais essa). Os orientais ficaram justamente no Grupo 1, encabeçado pelos vizinhos ocidentais. E a Alemanha comunista mostrou que a história era injusta, pois potencial o país tinha.
A RDA derrotou a Austrália, empatou com o Chile e, na partida decisiva do grupo, venceu os ex-compatriotas por 1x0. Mas sempre haverá especulações de que os ocidentais entregaram aquela partida para fugir de Brasil, Argentina e Holanda na fase seguinte. De qualquer forma, a Alemanha de azul ficou em primeiro no grupo. Na fase seguinte, os germânicos perderam a invencibilidade diante do Brasil (0x1). Em seguida, nova derrota (0x2 diante da Holanda). Só não passaram em branco nessa etapa por arrancarem um empate (1x1) com a Argentina em uma partida que já não valia classificação. Porém, as maiores conquistas alemãs-orientais ocorreram nas Olimpíadas. Como o COI só permitiu futebolistas oficialmente profissionais nos Jogos de Los Angeles em 1984 (desde que os atletas não tivessem disputado uma Copa do Mundo), as nações da Europa comunista se favoreceram de um amadorismo de fachada para dominar as seleções da Europa ocidental e da América do Sul, obrigadas a usar equipes juniores. Isso permitiu que as seleções comunistas conquistassem 8 medalhas de ouro consecutivas (entre 1952 e 1980). E, claro, houve espaço para que o futebol contribuísse para o prolífico quadro de medalhas da Alemanha Oriental. Em 1964, em Tóquio, os germânicos ficaram com o bronze após bater a República Árabe Unida (Estado formado por Egito e Síria em 1958. Em 61, a Síria saiu da união, mas o país manteve o nome até 1971, quando voltou a se chamar Egito) por 3x1. Em 1972, os alemães-orientais conseguiram novo bronze, esse dividido após empate em 2x2 com a União Soviética. Na fase inicial, os orientais bateram a Alemanha Ocidental por 3x2. Detalhe: aquelas Olimpíadas foram realizadas m Munique, mas é necessário dizer que a Alemanha alvinegra estava com uma seleção amadora de fato.
Mas as maiores glórias olímpicas do futebol alemão-oriental ainda não haviam chegado. Em Montreal ‘76, após passar por União Soviética (2x1) e Polônia (3x1), os germânicos ficaram com a medalha de ouro. Nos Jogos seguintes, em Moscou, a Alemanha Oriental voltou a vencer a seleção da casa (1x0, nas semifinais) e chegou a mais uma final. Mas essa foi vencida pela Tchecoslováquia (1x0). Os anos 70 do século passado realmente foram os mais proveitosos para o futebol da Alemanha azul. Não só pela conquista de uma medalha de ouro, uma de prata e uma de bronze no futebol olímpico e pela única participação em Copas do Mundo, mas também pelo inédito título internacional de clubes.
Em 1973-74, o Magdeburg foi a grande surpresa da Recopa européia. Após passar por NAC Breda (Holanda), Banik Ostrava (Tchecoslováquia), Beroe (Bulgária) e Sporting (Portugal), o clube da cidade homônima chegou à final, disputada em Roterdã. Mas poucos davam crédito aos alemães-orientais, já que a caminhada não tivera nenhuma equipe tão forte quanto o outro finalista, o Milan. Mas os germânicos surpreenderam mais uma vez vencendo por 2x0. Apenas um outro clube alemão-oriental chegou perto de um título europeu. Em 1987, o Lokomotive Leipzig alcançou a decisão da mesma Recopa, deixando pelo caminho Glentoran (Irlanda do Norte), Rapid Viena (Áustria), Sion (Suíça) e Bordeaux (França), antes de perder para o Ajax por 1x0 na final. Esse retrospecto modesto foi importante para definir o modo de reunificação alemã na Liga de clubes. Basicamente, a Verbandsliga de 1990-91 foi considerada um grupo da Segunda Divisão Ocidental. Com isso, Hansa Rostock (campeão) e Dynamo Dresden (vice) tiveram uma vaga na Bundesliga 91-92. Os demais clubes formaram um grupo da 2.Bundesliga, enquanto que a Segunda Divisão ocidental formou outro. A unificação completa veio três temporadas depois. Nesses 13 anos de unificação nos clubes, o lado oriental está em clara desvantagem. Nas primeiras temporadas, o Dynamo Dresden conseguiu se manter na elite alemã, mas caiu em 1995. Nesse período, o Leipzig conseguiu respirar os ares da Primeira Divisão, mas só por um ano (1994). Mas a Alemanha Oriental nunca ficou sem representantes na Liga alemã, pois o Dynamo Dresden foi imediatamente substituído pelo Hansa Rostock, que está entre os grandes até hoje. Outro clube da parte comunista que também esteve no topo foi o Energie Cottbus (entre 2001 e 2003).
Alguém já deve estar pensando que a Alemanha Oriental nada acrescentou futebolisticamente ao lado ocidental. Erro gravíssimo. Os dois maiores jogadores alemães após a geração campeã de 90 nasceram sob o regime comunista. O líbero Matthias Sammer, Bola de Ouro em 1996, chegou a disputar algumas partidas pela seleção da Alemanha comunista. Inclusive, foi dele os dois gols na vitória sobre a Bélgica na despedida da parte oriental da Alemanha. O outro craque ex-oriental é Michael Ballack, líder da nationalmannshaft na Copa de 2002. Apesar de mais novo, o meia ainda carrega uma herança de sua infância na Alemanha comunista: ele tem mais facilidade em falar russo (segunda língua nas escolas durante o período de divisão) do que inglês. *
Além de Sammer e Ballack, alguns outros alemães-orientais que tiveram passagens pela seleção unificada sem tanto destaque, como Ulf Kirsten, Tomas Doll e Dariusz Wosz. *
Seção estatísticas. Abaixo seguem as fichas técnicas de algumas das partidas históricas citadas no texto (colocados em ordem cronológica). Magdeburg 2x0 Milan
Alemanha Ocidental 0x1 Alemanha Oriental Alemanha Oriental 3x1 Polônia Alemanha Oriental 2x1 União Soviética Áustria 3x0 Alemanha Oriental Brasil 3x3 Alemanha Oriental Bélgica 0x2 Alemanha Oriental *
Veja a lista de campeões alemães-orientais: 1948 – Planitz; 1949 – Halle; 11950 – Horch Zwickau (atual Zwickau); 1951 – Chemie Leipzig (atual Sachsen Leipzig); 1952 – Turbine Halle; 1953 – Dynamo Dresden; 1954 e 55 – Turbine Erfurt; 1956 e 57 – Wismut Karl Marx Stadt (atual Wismut Aue); 1958 – Vorwärts Berlin (atual Victoria 91); 1959 – Wismut Karl Marx Stadt; 1960 e 62 – Vorwärts Berlin; 1963 – Motor Jena (atual Carl-Zeiss Jena); 1964 – Chemie Leipzig; 1965 e 66 – Vorwärts Berlin; 1967 – Karl Marx Stadt (atual Chemnitzer); 1968 – Carl-Zeiss Jena; 1969 – Vorwärts Berlin; 1970 – Carl-Zeiss Jena; 1971 – Dynamo Dresden; 1972 – Magdeburg; 1973 – Dynamo Dresden; 1974 e 75 – Magdeburg; 1976 a 78 – Dynamo Dresden; 1979 a 88 – Dynamo Berlin (atual Berliner); 1989 e 90 – Dynamo Dresden; 1991 – Hansa Rostock. Ubiratan Leal Imagens: Amazon Deutschland, Travelpics e Der Spiegel Comente esse texto (2) |
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