Uma das regras básicas dos filmes de terror: se você não vê o corpo do serial killer destroçado, nem tem a certeza física de que ele realmente está morto, ele reaparecerá quando menos se espera para mais um susto (ou mais matança). A alegoria é exagerada, mas pode ser aplicada no mundo da não-ficção. Certos fantasmas, se não eliminados definitivamente, voltarão.
O West Ham sentiu isso nesta semana. Kevin McCabe, presidente do Sheffield United, informou que os Blades ganharam uma disputa em um tribunal independente (e privado) a respeito da irregularidade cometida pelos Hammers ao contratar Tevez e Mascherano da MSI. Os londrinos teriam de pagar € 37,8 milhões (valores estimados pela imprensa inglesa) ao Sheffield como indenização pelo rebaixamento à Segundona na temporada 2006/7. Sim, um problema ocorrido há mais de um ano.
O time de Upton Park está sendo assombrado por um fantasma que ele mesmo despertou. Não era novidade que o esquema proposto pela MSI fugia dos padrões e, na ganância de reforços fáceis e sem custo, o clube aceitou fazer uma parceria. (Aliás, uma situação parecida com a do Corinthians, que não conseguiu resolver seu enrosco com a MSI mesmo quando já era claro que a parceria já não existia mais na prática e, por isso, teve um ano de 2007 tenebroso.)
Não dá para dizer que o West Ham ignorava que estava pegando jogadores de uma empresa, e não de outro clube (como manda as regras da Premier League). Também é ingenuidade achar que os londrinos agiram apenas de boa fé, imaginando que as informações que vinham do Brasil sobre os interesses da MSI, Kia Joorabchian, Boris Berezovski e Badri Patarkatsishvili não tinham base. O clube inglês estava à venda, a MSI era candidata forte à compra e a vinda da dupla argentina viria a calhar do ponto de vista técnico e diplomático, estreitando uma relação que poderia dar em casamento.
Depois de um tempo, Mascherano estava no Liverpool, Tevez no Manchester United (após ter papel fundamental na fuga do time do rebaixamento, na última rodada) e as ações do clube com o islandês Björgólfur Gudmundsson. Ou seja, a MSI não tinha mais jogadores no elenco do West Ham e a chance de comprar os Irons eram nulas. Muito torcedor do time se considerou livre da MSI.
Nada disso. A própria negociação de Tevez com o Manchester United expôs completamente a irregularidade dos Hammers. Os Red Devils não pagaram o clube de Londres pelo vínculo do atacante, mas à MSI. Ou seja, o jogador, de fato, era da empresa. O Sheffield United não se conformou em cair concorrendo com uma equipe que usava jogadores irregulares. Os Blades reclamaram na federação inglesa, que estipulou uma multa de € 8 milhões aos londrinos. No entanto, não houve punição esportiva.
O Sheffield United pediu indenização por danos – afinal, deixou de ganhar uma bela grana ao disputar a segunda divisão – e o caso foi para arbitragem. Pelo sistema adotado pela FA, cada clube indica um representante em um tribunal privado e esses dois membros definem um terceiro em comum acordo. E foi nesse tribunal que a decisão teria sido favorável aos Blades. Não cabe recurso.
O valor oficial ainda não foi divulgado, mas, se for algo próximo ao estimado pela imprensa inglesa, seria uma multa bastante pesada para um clube do porte do West Ham. Ainda que o time mantenha sua vaga na primeira divisão, uma crise financeira e institucional não seria nada surpreendente. Um castigo para um clube que errou ao subestimar o perigo de despertar um fantasma e errou novamente ao considerá-lo fora do caminho antes de vê-lo definitivamente eliminado.
Ubiratan Leal
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