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6/08/08

Brazil

Eurico Miranda: ascensão e queda

Vasco_Eurico Miranda.jpg

“Por esta obsessão [ao Vasco] entreguei a minha vida. Agora, quando os dias derradeiros dessa trajetória vão passando com rapidez, noto que vivi em função desta paixão sem nenhum pudor em me doar. Sem limites.” Em sua carta de despedida do Vasco da Gama, Eurico Miranda não deixou frases de efeito, tampouco disse que deixaria o cargo para entrar na história. Concentrou-se em falar no quanto se entregou ao clube de São Januário. De fato, ninguém duvida do envolvimento de Eurico. O problema está no objetivo de tamanha dedicação.

Representado por Amadeu Pinto da Rocha, Eurico Miranda foi derrotado pelo ex-jogador Roberto Dinamite por 148 a 102 nas eleições presidenciais de 25 de julho. Sua saída da presidência do Clube de Regatas Vasco da Gama é saudada como um grande momento para o futebol brasileiro. Pelo poder que adquirira em São Januário, e, em determinados momentos, no futebol brasileiro em geral, o vascaíno era um símbolo do dirigente esportivo brasileiro das antigas: totalitário e dado a atitudes nebulosas. Até que perdeu o controle sobre a própria gana por poder e acabou construindo sua derrocada.

A própria novela que foi sua saída do poder exemplifica bem o modus operandi da cartolagem. Eurico criou uma estrutura institucional quase indestrutível. O presidente era escolhido por votos do Conselho de Beneméritos – com membros indicados pelo presidente – e do Conselho Deliberativo – com membros definidos por eleição da Assembléia Geral. Esse cenário já dá clara vantagem ao mandatário, mas o dirigente recém-derrotado o reforçou.

Com o controle dos departamentos do clube, a diretoria manejava o registro de sócios de acordo com seus interesses. “O Eurico cadastrava sócios que ele indicava. Tinha caso de aliados votando duas vezes e de sócios inadimplentes sendo perdoados em troca de votos”, comenta José Henrique Coelho, presidente do MUV (Movimento Unido Vascaíno, grupo de oposição a Eurico Miranda) e vice-presidente de marketing da diretoria recém-eleita. Essas manobras garantiam maioria à chapa de Eurico na eleição do Conselho Deliberativo.

Segundo Coelho, essas medidas não tinham motivação apenas eleitoral. Com maioria nos conselhos, a diretoria tinha facilidade de aprovar o balanço. “Era inacreditável. Eles entregavam o balanço na entrada da sala de reunião e as pessoas tinham pouco tempo para avaliar e dar uma posição. Todo mundo acabava aprovando com medo de retaliações”, afirma.

Para quebrar essa estrutura de poder, o MUV criou uma chapa para a eleição em 2003. Foi derrotado, mas teve condições de colocar 30 membros no Conselho Deliberativo. A partir daí, tiveram condições de avaliar a lista de eleitores e ter base para brigar judicialmente por transparência. Em 2006, Roberto Dinamite perdeu a eleição por 102 votos, em um pleito que, misteriosamente, teve mais votos do que eleitores.

A oposição entrou na Justiça. A eleição foi impugnada, mas Eurico assumiu o poder e arrastou a marcação de novas eleições até 2008. Nesse período, ele perdeu ainda mais seu apoio e acabou derrotado.

Curiosamente, Eurico tem suas origens ligadas a um regime ditatorial. Seus pais, fugindo do governo de Antonio Salazar em Portugal, desembarcaram no Rio de Janeiro na década de 1930. O futuro dirigente nasceu na capital fluminense em 7 de junho de 1944. Por sua origem portuguesa, se tornou torcedor do Vasco da Gama. Na vida pessoal, era uma criança com temperamento forte, costumeiramente se envolvia em brigas, e ajudava o pai no trabalho, em uma padaria.

Eurico tentou seguir a carreira de médico. Depois de passar no vestibular, trocou o curso por fisioterapia, profissão que exerceu por pouco tempo. Preferiu tentar a sorte no Direito. No entanto, sua carreira profissional não foi muito longe. Seu sucesso sempre esteve vinculado à ascensão na política vascaína.

Aos 23 anos, ingressou pela primeira vez de maneira oficial no Vasco, como diretor de cadastro.Sua personalidade forte, a truculência exacerbada e a grande habilidade política (majoritariamente com eleitores, já que os opositores nunca foram bem vistos por ele) sempre foram suas principais características.

Em 1969, já como vice-presidente de patrimônio, Eurico apoiava Reinaldo de Matos Reis, presidente do Vasco na época. Reis não tinha o apoio da maioria dos conselheiros. Na sede náutica do clube, na Lagoa Rodrigo de Freitas, aconteceu uma votação para definir a perda do mandato do dirigente. Assim como nos dias atuais, o pleito foi envolto de muita confusão e um apagão acabou com a votação.

No dia seguinte, uma foto do jornal “O Globo” mostrava uma mão desligando a chave geral da sede, com o título “A mão de Eurico”. No final das contas, nem com essa ajuda Reinaldo de Matos se manteve no poder, sendo substituído por Agarthyno da Silva Gomes. Eurico não demorou a trocar de lado.

Esse expediente foi muito comum por uma década. Eurico só se estabeleceu definitivamente como força na política vascaína em 1979. Ele esteve ao lado de Olavo Monteiro de Carvalho (dono da Besouro Veículos, empresa da qual Eurico era gerente) e Antônio Soares Calçada para montar a chapa União Vascaína. O grupo alcançou a presidência do clube e o futuro do polêmico dirigente dentro do Vasco ganhou forma.

Para os torcedores, Eurico virou uma figura mais conhecida no ano seguinte. Sua intervenção foi importante para impedir que Roberto Dinamite acertasse com o Flamengo após uma passagem frustrada pelo Barcelona. O atacante acabou retornando ao Vasco.

Desde então, o cartola arranjou tempo para romper com seus aliados, entre eles Antonio Soares Calçada, contra quem concorreu por duas vezes na década de 80 pela presidência do Vasco, e foi derrotado em ambas oportunidades. Cansado da virulenta oposição de Eurico, Calçada cedeu e levou o bonachão dirigente para sua diretoria em 1988.

Oficialmente, Eurico foi vice-presidente de futebol até 2001, quando foi eleito presidente. Mas seu poder era tamanho que o atacante Romário disse que o Vasco “não tem um regime presidencialista, mas um regime vice-presidencialista”. De fato, Eurico passou a controlar todo o departamento de futebol, o mais importante e influente em um clube como o Vasco. Por exemplo, era ele o responsável direto por negociar os jogadores, incluindo craques como Romário e Bebeto.

Eurico também se tornou representante do Vasco no Clube dos 13, associação dos principais clubes de futebol do Brasil. Em 1987, a entidade esteve encarregada de organizar o Campeonato Brasileiro, chamado Copa União. A CBF, que se dissera incapaz de faze-lo, voltou atrás e propôs que o campeão brasileiro saísse de um quadrangular entre os vencedores da Copa União com o Módulo Amarelo, uma espécie de Segundona.

A associação de clubes não concordou e, em reunião, decidiu ignorar a proposta da CBF. Mas a confederação conseguiu viabilizar seu plano. Como? “O Eurico era nosso interlocutor na CBF. Ele nos traiu contra nossa orientação e deu sinal verde para a CBF, que virou a mesa”, conta Carlos Miguel Aidar, presidente do Clube dos 13 e do São Paulo na época.

A decisão do dirigente vascaíno não foi em vão. Seu poder na CBF cresceu geometricamente em poucos anos. Eurico foi o responsável direto pela indicação de Sebastião Lazaroni, ex-treinador do Vasco, ao comando da Seleção Brasileira na Copa de 1990. Aliás, o cartola foi o chefe da delegação brasileira no torneio disputado na Itália.

Na década passada, o cartola cruzmaltino colecionou polêmicas. Invadiu gramados para impedir que jogos que o Vasco perdia terminassem. Defendeu diversas mudanças de regulamento para favorecer seu time. Alegou ter sido assaltado quando voltava para casa carregando os R$ 70 mil de renda de um clássico Vasco x Botafogo realizado no Maracanã. Ordenou que torcedores feridos na queda dos alambrados de São Januário saíssem do gramado para que a final da Copa João Havelange, entre Vasco e São Caetano, pudesse prosseguir. Por birra da TV Globo, fez seu time entrar com o logotipo de SBT na camisa. Devido a seu poder na cúpula do futebol brasileiro, muitas de suas atitudes eram bem-sucedidas. E criou-se até o mito que “Eurico é o dirigente que todos odeiam, mas queriam ter em seu clube”.

A ambição foi sua ruína. Em 1994, foi eleito deputado federal pelo PPR. Assim, ele conseguia imunidade parlamentar com o mote “represento o Vasco no Congresso”. Quatro anos depois, foi reeleito. Nessas duas legislaturas, rapidamente se incorporou à Bancada da Bola, grupo de parlamentares que defendem os interesses da cartolagem em Brasília.

Nessa mesma época, o Vasco obtinha grandes resultados devido a uma parceria com o Bank of América. A instituição injetou milhões de dólares no clube na expectativa de lucrar com o crescimento – nunca concretizado – do futebol brasileiro como indústria. No entanto, os norte-americanos não tinham o controle sobre o uso da verba. Eurico investiu no reforço da equipe, que conquistou dois vices mundiais, uma Copa Libertadores e dois Campeonatos Brasileiros entre 1997 e 2000.

Os títulos lhe deram uma sobrevida, mas seu período de maior poder já estava acabando. O Vasco rompeu o contrato com o Bank of America e ficou evidente como o clube estava em situação pré-falimentar. As dívidas – até hoje de valor desconhecido, mas estimada pela atual diretoria em algo entre R$ 200 milhões e 250 milhões – começaram a abalar a montagem de equipes e os resultados em campo caíram abruptamente.

Não é difícil entender como Eurico construiu essa ruína administrativa. Jogadores como Romário, Edmundo, Donizete, Luizão, Válber Mauro Galvão e Juninho Paulista eram contratados com salários fora da realidade brasileira. Também foi gasto milhões na montagem de equipes de esportes amadores, com retorno financeiro para lá de duvidoso. O clube não conseguia arcar com tal folha de pagamento e acabou no vermelho.

Com Romário, a situação foi especial. A dívida do clube chegou a casa dos RS 10 milhões. Sem ter como pagar, Eurico se viu escravo do atacante. Isso explica o porquê de o Baixinho ter tantas regalias em São Januário, com direito estátua e esquema especial para acelerar o surgimento do milésimo gol da carreira do jogador.

As críticas, antes discretas, se acumulavam. Os problemas, também. Apesar de, costumeiramente, afirmar que nada nunca foi provado contra ele, as decisões dos juízes não têm sido tão generosas com Eurico. Nos últimos anos, o dirigente foi condenado à prisão e ao pagamentos de indenizações volumosas.

As investigações das CPIs do Futebol na Câmara e no Senado também levantaram várias fraudes envolvendo o Eurico. Em 2001, o deputado foi cassado por movimentação ilegal em uma operação de câmbio. Ele ainda tentou voltar a Brasília em 2002, mas nem mesmo os vascaínos, outrora cegos por seu discurso, o apoiaram nas urnas. Em 2008, o TSE impediu que saísse novamente candidato (no caso, a vereador). O motivo: falta de condições morais para exercer um mandato.

A perda de poder o levou a atitudes destemperadas. Por exemplo, passou a proibir a entrada de jornalistas considerados “inimigos do Vasco” nas dependências do clube. Entre os vetados estavam a ESPN Brasil, o jornal Lance e os jornalistas Juca Kfouri, Fernando Calazans, Renato Maurício Prado e Márcio Guedes.

A atitude não mudou a postura dos jornalistas ou veículos. “Eurico usou o Vasco para enriquecer. Ele não teve qualquer trabalho nos últimos 20 ou 25 anos e, mesmo assim, comprou casa em Miami e um imóvel caríssimo em Angra dos Reis”, acusa Guedes. “Ele se colocou acima do Vasco”, completa.

O colunista do jornal “O Dia” e comentarista da TVE e da ESPN Brasil ainda vê no governo de Anthony Garotinho parte da estrutura que sustentava o ex-presidente vascaíno. “O atual governador, Sérgio Cabral Filho, é contra o Eurico, e assim abriram-se meios para tudo que está acontecendo. Antes ele tinha cobertura de outros políticos, como o [ex-ministro, ex-deputado federal e atual senador fluminense pelo PP] Francisco Dornelles”.

A fragilidade política se fez perceber. Eurico teve derrotas na Justiça, fundamentais para sua queda no Vasco. Sua trajetória estava no fim. Percebendo que não ganharia as eleições, deixando o aliado Amadeu Pinto da Rocha para liderar sua chapa nas eleições. Eurico anunciou que estava se aposentando da política vascaína e que se dedicaria à família.

Como esperado, Rocha perdeu. E, se cumprir sua promessa (algo não muito comum, a bem da verdade), Eurico Ângelo de Oliveira Miranda se tornou um capítulo encerrado na história do Vasco e do futebol brasileiro. Torçamos para que isso seja realmente verdade.

Gustavo Hofman e Ubiratan Leal

Obs.: reportagem publicada originalmente na revista Carta Capital

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