Poucos clubes carregam tanto uma ideologia quanto o Athletic Bilbao. O time bilbaíno não se vê como um clube de futebol. Para seus torcedores e dirigentes, é uma bandeira do País Basco. Por isso, não faltam ideologias, como se cada uma fosse a expressão de toda uma região. É o caso da negação em ter patrocínio na camisa, pois ninguém poderia ter o privilégio de colocar sua marca em um símbolo de Biscaia. Do mesmo modo, jogadores não-bascos não vestem a camisa rojiblanca.
O aspecto cultural, ideológico e histórico por trás dessas decisões são bonitos, mas se tornaram pouco práticos no futebol do século XXI. O Athletic já não consegue manter o mesmo nível de competitividade e precisava de um fato novo para interromper a trajetória descendente. Entre abrir espaço para anunciantes na camisa ou deixar “forasteiros” vesti-la, o clube preferiu a primeira opção. Para o modo de ver o mundo dos torcedores do clube, era o “mal menor”.
A única vez em que o clube usara patrocínio fora em 2004-05, com uma campanha da secretaria de turismo do País Basco, com anúncios que divulgavam a região como destino turístico. Ou seja, uma “causa local”. Nesta terça, o clube apresentou seu elenco e uniformes oficiais para a temporada 2008-09. A camisa tinha a marca da empresa petrolífera Petróleos del Norte. A diretoria rojiblanca ainda deu a explicação oficial de que se trata de uma empresa basca, o que é meia-verdade, já que a Petronor pertence ao grupo Repsol YPF, com sede em Madri.
Pelo acordo, a Petronor pagará € 2 milhões anuais nas próximas três temporadas. O contrato ainda prevê adicionais por classificação para competições internacionais e títulos. Valores razoáveis para um clube de torcida regional, mas que foi atingido por uma manobra fiscal. Uma pequena parte do pagamento será feita ao Athletic Bilbao. A maior parte do montante irá para a Fundación Athletic, o que enquadra o patrocínio como apoio cultural, esportivo ou de promoção ao País Basco na lei basca. Por serem questões consideradas prioritárias para a região, o dinheiro que vai à fundação tem dedução especial de impostos, cerca de 46% menor.
Contornos fiscais à parte, a torcida bilbaína foi razoavelmente compreensível com a decisão da diretoria de quebrar a tradição de nunca ter colocado um patrocínio privado na camisa do Athletic. Ainda que muitos estejam descontentes com a presença da marca de uma empresa na camisa rojiblanca, pode-se dizer que há apoio.
Ainda que a ideologia seja forte, houve um coque de realidade. Depois de duas temporadas lutando contra o rebaixamento até as últimas rodadas, o Athletic teve na temporada passada um momento de calmaria. O suficiente para repensar sua política. E perceber que, para voltar a ser grande, o clube precisará se enquadrar um pouco na nova realidade futebolística.
Com o dinheiro da Petronor, por exemplo, a equipe de Lezama manterá a mesma base da temporada passada. Já é um bom indicativo de que o Campeonato Espanhol que está por se iniciar pode não ser dos piores. E justificará o fim de uma tradição bilbaína.
Ubiratan Leal
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