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17/07/08

O mundo não é uma bola...

Entrevista: Tim Vickery

Poucas coisas parecem tão opostas quanto Luiz Felipe Scolari e futebol inglês. Não pelo estilo de jogo defendido por ambos, mas pela personalidade de cada um. O técnico brasileiro é polêmico, autêntico e não esconde que faz de tudo pela vitória. Enquanto isso, os ingleses ainda valorizam espírito esportivo e respeito ao adversário acima de tudo. Por isso, a chegada de Felipão ao Chelsea provoca tanta curiosidade.

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Para dar uma luz e criar uma projeção do que pode ser essa passagem do técnico gaúcho por Stamford Bridge, o Balípodo conversou com o jornalista inglês Tim Vickery, correspondente da BBC no Brasil.

O que você espera do trabalho do Felipão no Chelsea?
Vai ser algo fascinante. Desde que eu acompanho o trabalho dele, sempre me surpreendeu sua capacidade de se adaptar. Ao contrário do que pensam, mesmo no Brasil, ele é muito mais flexível do que parece. Isso pôde ser visto em Portugal. Ainda que tenha a mesma língua, a cultura futebolística é muito diferente. E ele se adaptou.

Que tipo de situação que ele não está acostumado e terá de enfrentar?
São vários, como a falta de costuma dele em treinar times para a disputa de uma liga em pontos corridos. Mas, do ponto de vista técnico, o principal acho que é a inexperiência dele com o trabalho em um elenco totalmente internacional, com jogadores de vários países diferentes, algo que não existe no Brasil. Como o Felipão é um técnico formador de grupo, que usa a coesão do elenco como arma, ele será muito exigido. São jogadores de culturas diferentes, vários deles com ambições pessoais que entram em conflito.

Você imagina que ele precisará de ajuda?
Provavelmente. Mesmo em coisas pequenas, como ajudar ele a entender a lógica do futebol inglês e do Chelsea. Quando ele estava em Portugal, um dos primeiros jogos foi contra a Espanha. Ele pensou em aproveitar o amistoso para testar vários jogadores, sem se preocupar com o resultado. Mas um Portugal x Espanha nunca é amistoso. Os portugueses tomaram de 3 a 0 e o mundo caiu em cima do Felipão. Aquele foi um momento de ignorância dele em relação ao ambiente em torno do jogo. Mas, depois, ele aprendeu e até falou em guerras históricas quando reencontrou a Espanha, já na Eurocopa.

Esse jeito de comparar partidas de futebol com batalhas é condenado no sentido de esportividade dos ingleses.
Pois é. E isso ele terá de mudar bastante e começar a medir as palavras. Por exemplo, ele diz abertamente que seu jogador tem de fazer falta, uma opinião que pega muito mal para os ingleses. O “espírito esportivo” ainda é muito valorizado por lá. Ainda mais no Chelsea, que, por causa do dinheiro suspeito do Abramovich, não é visto com simpatia pelos demais torcedores e usar o anti-jogo ou catimba seria ainda pior na construção da imagem de um “clube que joga sujo”. Mas o Scolari também tem de medir as palavras nas posições pessoais. Se ele disser algo em favor do Pinochet ou contra os gays, coisa que ele já fez, a receptividade será péssima.

Mas já houve personagens assim no futebol inglês.
O Brian Clough, ex-técnico do Nottingham Forest, foi o maior exemplo. Ele era folclórico, era muito parecido com o Felipão até no modo de agir e pensar. Mas ele nunca pegou a seleção inglesa porque, entre outras coisas, não se confiava nas declarações dele.

As relações com a imprensa podem ser um fator-chave para o bom ambiente que ele terá em Londres?
Com a imprensa comum, até acho que ele tem como se virar até entender direitinho o modo de pensar dos ingleses. O problema maior é que, em Londres, ele terá de lidar com algo que não existe no Brasil: imprensa sem limites, que inventa coisas, persegue. Em bom português, filha da puta. Desde que eu me mudei para o Brasil, nunca tinha visto a foto da mulher do Felipão. A primeira vez que isso aconteceu foi no dia seguinte à federação inglesa anunciar que ele era forte candidato a dirigir a seleção da Inglaterra após a Copa de 2006. Vários fotógrafos cercaram a casa dele em Portugal e acabaram publicando fotos da família.

A repercussão daquela época foi parecida com a atual?
Os ingleses ficaram em polvorosa com a contratação do Felipão para o Chelsea. No dia em que ela foi anunciada, eu estava na Granja Comary cobrindo os treinos da Seleção. Meu celular não parou de tocar. Isso também aconteceu quando ele foi cogitado para a Inglaterra, mas, naquele caso, foi ainda pior. Uma editora chegou a me convidar para escrever um livro sobre o Felipão. Eu não aceitaria porque não me vejo em condições para esse trabalho, mas eles acabaram desistindo quando o Felipão anunciou que encerrou as negociações com os ingleses.

A desistência dele deixou alguma mágoa com os ingleses?
Não, porque a opinião pública ficou do lado dele. Todos entenderam que a culpa era da FA (federação inglesa), por se precipitar e anunciar uma negociação ainda em andamento, e da imprensa, pela perseguição.

Que tipo de futebol a torcida do Chelsea espera que ele faça o time jogar?
O Felipão era um completo desconhecido até 2002. As referências que se tem dele são das seleções brasileira e portuguesa. Mas, ainda assim, acho muito estranha a contratação dele. O Roman Abramovich tinha atritos com o José Mourinho porque queria ver um futebol mais vistoso e menos pragmático. Por isso, trazer o Scolari é contraditório. De qualquer modo, o mito de “Brasil” ser igual a “jogo bonito” ainda é fortíssimo na Europa, na Inglaterra em particular. Devem estar esperando um futebol atraente.

A torcida recebeu bem o nome dele?
A contratação caiu bem, porque é um técnico de nome, que ganhou Copa. Não é um desconhecido como o Avram Grant.

O estilo de vibrar na beira do campo pode ajudar a aumentar esse vínculo com os torcedores?
Pode, e pode também torná-lo um personagem mais simpático. Isso fica bem, porém, até o dia em que ele exagerar. Se ele começar a tirar sarro do adversário, brigar com alguém, terá passado do limite do espírito esportivo.

Ubiratan Leal

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