Bola na cal no Morumbi. Marcelinho Carioca vai para a batida. Se ele perder a cobrança, o Corinthians será eliminado da Libertadores pelo Palmeiras nos pênaltis, exatamente igual ao que ocorrera um ano antes. Ele chuta... e acerta o gol. A bola chega a tocar os dedos de Marcos, mas, forte, vai até o fundo das redes. Na cobrança seguinte, Rogério chuta a bola por cima do gol de Dida. Vampeta tem em seus pés a chance da classificação. Ele perdera uma cobrança em 1999; mas dessa vez, chuta no meio do gol, vê Marcos voando inutilmente para o canto direito e o Corinthians chegando à decisão da Libertadores.
Euforia e lágrimas no Morumbi. Meses antes, o Timão havia conquistado o Campeonato Brasileiro e o Mundial da Fifa; mas todos, entre jogadores, dirigentes e torcida, sabiam que tudo isso não teria validade alguma caso o time fosse eliminado de novo para o Palmeiras na Libertadores. Era hora de devolver às provocações aos palmeirenses e, mais que isso, se preparar para enfrentar o Boca Juniors na decisão do torneio sul-americano, o principal sonho corintiano.
A final entre Boca e Corinthians mexe de maneira única com o torcedor paulista. Logo no dia seguinte à semifinal já se vendiam em São Paulo camisas das torcidas “Boca-Verdão” e “Boca-Tricolor”, com o uniforme da equipe argentina ocupando o mesmo espaço dos mantos de Palmeiras e São Paulo. A final do Paulistão, entre Santos e São Paulo, cai para terceiro plano na mídia esportiva. Todos queriam saber de Corinthians x Boca Juniors.
Na primeira partida, em La Bombonera, o primeiro tempo é morno. O Corinthians sente a pressão dos torcedores bosteros e seu meio-campo, principal virtude do time, pouco cria. Pelo menos a marcação opera bem e Riquelme é quase anulado por Edu. Mas no segundo tempo, o craque se livra do volante e dá um passe para Palermo abrir o marcador aos 30 minutos. O Corinthians se assusta e toma mais um gol no finalzinho, com Schelotto.
Os 2 x 0 não intimidam os corintianos que lotam o Morumbi para o jogo da volta. E o time corresponde aos apelos das arquibancadas e faz uma partida envolvente. Mas Córdoba está em noite inspirada e segura todas as iniciativas corintianas. O Boca comemora o tri da Libertadores quando Luizão, aproveitando cruzamento de Ricardinho, marca para o Timão aos 43 do segundo tempo. A torcida se inflama, o time acredita, Dida até vai para a área numa cobrança de escanteio, mas não há mais tempo. O Boca é o campeão da Libertadores.
Mesmo com a perda do título, a Fiel continua ao lado do clube, já que os jogadores mostraram o tão desejado espírito guerreiro no Morumbi. A prova desse apoio vem no dia seguinte, quando, na reapresentação dos atletas, a torcida corintiana lota o Parque São Jorge para entoar canções de apoio ao time.
O discurso corintiano passa a ser, então, a busca pelo quarto título brasileiro, na confusa Copa João Havelange, e a conseqüente volta à Libertadores. O time vice-campeão da América é praticamente mantido. Deixam o clube apenas Dida, que volta ao Milan, e Luizão, que, valorizado, é vendido para a Roma. De reforços, vêm os atacantes Euller e Marcelo Ramos. Oswaldo de Oliveira segue no comando do time – o que frustra os planos do Vasco, que esperava trazê-lo para a João Havelange. O clube da Colina acaba apostando em Vadão, que não dá muito certo no Rio e cai nas primeiras rodadas, sendo posteriormente substituído por Joel Santana.
O Corinthians sobra na João Havelange. O 3 x 0 sobre o Goiás na estréia, em pleno Serra Dourada, inicia uma seqüência de nove partidas sem derrota, quebrada com 2 x 1 imposto pelo Atlético-MG no Mineirão. O time permaneceu invicto nos clássicos estaduais, derrotando Santos e Palmeiras e empatando com o São Paulo. Quando acaba a primeira fase da João Havelange, o Timão é o líder da tabela, com o Cruzeiro em segundo lugar.
O primeiro mata-mata é visto pelos corintianos como mera formalidade. Afinal, o modesto Malutrom, campeão dos módulos verde e branco, não teria como fazer frente ao vice-campeão da América.
Mas não é o que ocorre. O Malutrom surpreende no Paraná e vence o Timão por 1 x 0. Os corintianos reclamam da arbitragem que teria invalidado gol legal de Euller, mas o resultado é mantido. Ainda assim, nada de desespero. Seria impossível aquele time não vencer os modestos paranaenses pelo placar simples em São Paulo.
Só que o time pára na capital paulista. A disposição que marcou o Timão na Libertadores e na primeira fase da João Havelange some. A torcida faz sua parte, incendeia o estádio, mas os jogadores parecem não mostrar interesse pelo jogo. O Malutrom marca uma vez no primeiro tempo e outra no segundo. Malutrom 2 x 0, uma das maiores zebras da história do futebol brasileiro, e o Corinthians eliminado da João Havelange.
Ainda nos vestiários do Pacaembu jogadores e comissão técnica corintiana sentem a pressão da torcida. Para deixar o estádio foi preciso reforço policial. E na reapresentação dos atletas, cenas assustadoras, com os carros de Edílson, Marcelinho, Vampeta e Oswaldo de Oliveira sendo cercados pelos torcedores.
Nas semanas seguintes – que têm o Cruzeiro levantando a taça da João Havelange após derrotar o Vasco de Joel Santana na final – o Corinthians que encantara o Brasil se desmonta. Edílson e Vampeta pedem para deixar o clube e acertam com o Flamengo, que espera se reerguer em 2001. Oswaldo de Oliveira é demitido e vai para o Santos, que procurava um técnico de ponta para substituir Carlos Alberto Parreira. E o Corinthians fecha com Luxemburgo.
Olavo Soares (colaboração especial)
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