Portugal não dá espaço para os médios. Ver Benfica, Porto e Sporting se revezarem nas três primeiras posições da Superliga é quase uma regra. Por isso, quando aparece um intruso é sempre visto com espanto. E sempre merece uma análise. Como ocorre com o Vitória de Guimarães, que está firme na disputa por uma vaga portuguesa na Liga dos Campeões. Um feito espantoso para um time que, há um ano, estava na segunda divisão lusitana.
O principal nome desse crescimento repentino é Manuel Cajuda. Ex-jogador sem grande destaque, o olhanense construiu sólida carreira como treinador de equipes médias do país. Por exemplo, ele comandou o Braga duas vezes ao quarto lugar no campeonato nacional, o Marítimo a uma sexta posição e a União de Leiria a uma final da Taça de Portugal. Além dos bons resultados, o treinador ficou conhecido pela personalidade forte e declarações polêmicas, sobretudo na crítica aos três grandes portugueses.
Cajuda foi chamado pelo Vitória de Guimarães na segunda metade da temporada 2006-07. O tradicional clube vimaranense estava na Liga de Honra devido a uma grave crise financeira. O time sofreu com atrasos de salários e sucateamento do elenco e acabou rebaixado. Ainda assim, tinha torcida e tradição suficiente para fazer um bom papel na Segundona portuguesa. O retorno foi natural, conquistado na penúltima rodada com uma vitória sobre o Gondomar fora de casa.
Para esta temporada, a experiência do técnico se mostrou fundamental. Acostumado a lidar com as limitações financeiras e as cobranças das equipes médias portuguesas – como Braga, Belenenses e Marítimo –, Cajuda sabe como aproveitar os recursos que tem à disposição.
O resultado é uma equipe simples e funcional, que conta com jogadores-chave para dar solidez ao conjunto. No meio-campo, a principal figura é o volante Flávio Meireles. Forte na marcação, ele trabalha atrás de modo a dar liberdade para João Alves, o outro volante do time, aparecer no ataque. Além disso, permite que o setor de armação, liderado por Fajardo, atue com mais tranqüilidade. No ataque, o sérvio Mrdakovic fica como referência na conclusão das jogadas.
No geral, não é um time brilhante. O ataque é razoável e a defesa mantém um mínimo de segurança. Ainda assim, no geral, a seqüência de resultados é consistente e o time consegue se manter no mesmo ritmo de Benfica e Sporting. Ainda que a dupla lisboeta esteja em temporada particularmente claudicante, o desempenho vimaranense é notável.
Foi o suficiente para despertar a paixão do torcedor de Guimarães pelo clube. A média de público é alta para os padrões locais, com cerca de 19 mil torcedores por partida (o estádio Dom Afonso Henriques tem 30 mil lugares). Sinal de que o clube tem de onde buscar a recuperação financeira, ainda não conquistada.
Esse bom desempenho dos vitorianos pode ser isolado e, na próxima temporada, o clube volta a fazer companhia a Belenenses, Boavista e Braga. Aliás, é o mais provável. De qualquer modo, é bom ver um clube tradicional renascendo com base na organização e no envolvimento com a comunidade local. Ainda mais se isso ocorre pouco depois de uma quase falência técnica e institucional.
Ubiratan Leal
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