Ronaldo é um craque de destaque mundial. Se ele aparece na delegacia de polícia com acusação de briga com travestis e consumo de drogas, vai aparecer nos noticiários. Ainda que se discuta o que é de interesse privado e o que é público, a realidade é que alguém daria essa informação. E os outros veículos, para não ficarem atrás, reproduziriam e repercutiriam. Até aí, tudo bem. O problema é usar esse fato como justificativa para expor preconceitos e fazer piadinhas de gosto duvidoso impunemente.
A questão não é se Ronaldo traiu ou não a noiva ou se consumiu ou não cocaína. Pelas investigações da polícia, já ficou evidente o que ocorreu e o que não ocorreu. O jogador, de fato, contratou os serviços de três garotas que, depois, se viu que eram travestis. A acusação de consumo de drogas ficou como versão das prostitutas, que foram enquadradas por extorsão.
Ficou evidente como as atitudes do atacante fora de campo contribuem para a abreviação de sua carreira. Ou, no mínimo, como o milanista não está com a cabeça em dia, algo fundamental para quem precisa se recuperar física e tecnicamente. Tudo o que Ronaldo errou está nesses parágrafos. Mas os comentários foram mais longe.
A maioria não conseguiu deixar de lado a vontade de tirar um sarro machista. Algo na linha de “o cara poderia sair com modelos famosas e quis ficar com um travesti?” ou “o sujeito quer sair com travesti. Sei não...”. Esse tipo de crítica é comum em conversas informais, mas não deveriam invadir os meios de comunicação. O problema não é invadir ou não a privacidade do jogador, é ser preconceituoso.
Há homens que gostam de loiras, de morenas, de gordas, de magras, de altas, de baixas, de negras, de brancas, de orientais, de faladoras, de quietas, de mulheres, de outros homens. Gostar de feias ou bonitas também é questão de gosto. Se ficar com modelos não satisfaz Ronaldo, é problema dele. Se ele gosta de travestis ou não, é um direito dele. Se o atacante gosta de mulheres feias ou não, é direito dele também. Se ficar com modelos não o satisfaz, é problema dele.
Fazer comentários maldosos com isso é ignorar o direito de uma pessoa escolher com quem quer ter relacionamento. Isso se torna muito pior pelo modo como o tom é particularmente mais jocoso pelo fato de Andréia ser travesti. Já se passa do limite de preconceito com homossexuais.
Quem está na condição de emitir opiniões e influenciar outras pessoas deveria estar acima disso.
Ubiratan Leal
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