Camp Nou, 9 de março de 2008. O Barcelona enfrenta o Villarreal no duelo do segundo com o terceiro colocado do Campeonato Espanhol. Os blaugranas precisam da vitória para manter em 5 pontos a distância para o líder Real Madrid. No entanto, fazem uma apresentação terrível. Nada dá certo e até um atacante esforçado (e só isso) como Gille Franco é capaz de fazer a diferença. O mexicano sofreu o pênalti convertido por Marcos Senna. As incursões dos catalães eram estéreis, até porque Gonzalo Rodríguez e Godín anulavam o trio Ronaldinho-Eto’o-Henry (Messi estava contundido).
No segundo tempo, Iniesta, um dos poucos jogadores capaz de dar um fiapo de criatividade aos catalães em uma noite particularmente infeliz, avançou pela esquerda e cruzou para Xavi empatar a partida. No entanto, nada melhorou para o time de casa. A nove minutos do final, Tomasson aproveitou um contra-ataque e confirmou a vitória dos castellonenses. Melancolia em Les Corts, pois, novamente, o time mostrara impotência diante de seus problemas e via o rival Real Madrid se distanciar na classificação.
Ainda não é oficial, mas deve ser assim que ficará registrada a última partida de Ronaldinho com a camisa do Barcelona. Depois desse jogo, o meia-atacante foi excluído de algumas partidas do Barça por estar fora de forma ou por opção do técnico não justificada. Quando estava previsto seu retorno, o brasileiro sofreu uma suspeitíssima contusão muscular que – segundo o clube – o tirou do resto da temporada.
A trajetória de Ronaldinho é sintomática a respeiito da temporada 2007-08 do Barcelona. Foi um ano longo, quase uma procissão, que, enfim, já é passado. Em três dias, os culés perderam as chances matemáticas de conquistar o Campeonato Espanhol e foram eliminados da Liga dos Campeões. Desse modo, não há mais nada a disputar, a não ser cumprir tabela e evitar uma improbabilíssima perda de vaga na próxima LC.
Em outras palavras, é momento de ação. Não adianta mais tergiversar, não há mais motivos para fingir que não há uma crise de relacionamento. O Barcelona precisa mudar, e muito, para a próxima temporada. Quanto antes começar, mais tempo terá para fazer um trabalho bem feito, com negociações cuidadosas e sem tantas interferências políticas.
A primeira atitude é diretiva. Joan Laporta precisa tomar as rédeas do clube. No caso, assumir a autoria da reformulação, bancando as alterações diante de torcida e imprensa. Há o evidente risco de, se algo der errado, o presidente do Barcelona se queimar às vésperas de eleições. Mas é algo necessário em um clube sem comando, em que todos fazem o que bem entende. A partir daí, é preciso identificar quem deve ficar e quem deve sair. Rijkaard e Ronaldinho são os dois alvos mais óbvios.
Não é de hoje que se sabe que não havia clima para Ronaldinho no Camp Nou. Foi um processo que se iniciou em 2005, quando os atritos políticos entre o presidente Joan Laporta e seu ex-vice Sandro Rosell respingaram no elenco. Publicamente, essa divisão interna do elenco blaugrana já era sabida desde a temporada passada, quando Eto’o estourou em uma entrevista coletiva e disse tudo o que podia e o que não podia sobre os conflitos no clube.
A falta de pulso do técnico Rijkaard só piorou o problema. Assim, o que se viu nesta temporada foi apenas um reflexo do que restou de Ronaldinho nesta briga. Sem prestígio com a diretoria, o meia-atacante simplesmente se negou a jogar. Ainda que não tenha feito isso declaramente, o fez psicologicamente. Fisicamente, ele foi titular em 13 partidas e entrou em outras quatro nas 31 rodadas do Campeonato Espanhol. Além disso, foi titular em quase todos os jogos da Liga dos Campeões. Mentalmente, Ronaldinho fez meia dúzia de jogos. No resto, sua cabeça já estava longe.
Um sinal de que o problema é mais psicológico do que de lesão – versão oficial do Barcelona – é como já pululam clubes interessados nos serviços do brasileiro. Se Ronaldinho realmente tivesse passado tanto tempo no departamento médico, ele estaria com problemas físicos crônicos e qualquer eventual comprador teria um pé atrás antes de colocá-lo na lista de compras do verão. Mas não é isso o que ocorre. Motivado para jogar, o gaúcho tem totais condições de recuperar o título de melhor do mundo. A Europa inteira sabe disso.
Mas há mais gente para sair. Zambrotta já é veterano e não tem muito a acrescentar a um clube em que não se encontrou. A falha no gol do Manchester United que desclassificou o Barça da LC serve apenas de uma motivação a mais para liberar o italiano. Thuram é outro que pode deixar Les Corts, até pela necessidade de renovar o elenco. Outros jogadores que não estão felizes na Catalunha e têm mercado internacional, como Deco e Rafa Márquez, também poderiam sair.
Se a política for mais radical, o Barcelona poderia até vender alguns jogadores que pouco contribuem tecnicamente, como Ezquerro e Gudjohnsen, e outros como Eto’o e Henry. No caso dos dois últimos, seria um meio de mostrar real intenção de criar um novo projeto, praticamente do zero. Eto’o tem o apoio quase incondicional de Laporta, mas ficou evidente que ele exerce um poder de valor duvidoso nos vestiários. Henry não teve um grande desempenho e, por ainda ter mercado, seria um meio de o clube ganhar alguns milhões.
Com a lista de negociáveis fechada, a diretoria tem uma certa previsão do quanto poderá gastar em reforços. Não é pouco, ainda mais se os nomes mais midiáticos do atual elenco blaugrana estiverem envolvidos. Se não tiver pudor em investir em quantidade, dá para remontar o elenco e, com a base que permanecer (Xavi, Messi, Iniesta, Bojan, Puyol, Valdés...), ter um time razoável para a temporada 2008/9 e competitiva dali para frente.
É um processo trabalhoso, pela cobrança que envolve, pelas medidas duras e impopulares que exige e pelas especulações que a imprensa soltará a cada dia. Tudo isso pode tirar o foco da diretoria, que terá de se esforçar muito para não repetir o erro de um ano atrás: fingir que ia mudar, mas manter tudo como estava e agravar os problemas.
Ubiratan Leal
CLIQUE AQUI PARA COMENTAR OU LER OS COMENTÁRIOS