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5/05/08

Histórias

Campeão informal. E daí?

Atletico-MG x Munchen 1860.jpg

“Nós somos campeões do gelo, o nosso time é imortal.” O verso do hino do Atlético-MG cria uma questão polêmica. O que seria o tal “campeão do gelo”? De fato, não houve nenhum “Campeonato do Gelo” e tal título é puramente simbólico. Ainda assim, não significa que não tenha seu valor. Considerando o contexto da época e os resultados obtidos, é natural que a imprensa e a torcida atleticana considere a excursão do Galo à Europa como um título.

Em 1922, o Paulistano foi à Europa, conquistou grandes resultados e foi chamado pela imprensa francesa de “Reis do Futebol”. Desde então, ir ao Velho Continente ganhar um dinheiro, projetar seu nome e ganhar experiência se tornou uma prática comum aos clubes brasileiros. Aliás, não apenas era comum, como era desejada e valorizada. Não havia competições internacionais regulares e era um bom modo de medir forças com equipes de outros lugares.

Foi assim até a década de 1960, quando o brasileiro teve a convicção de que tinha o melhor – ou um dos melhores – futebol do mundo e as competições internacionais de clubes se tornaram mais comuns. Um caso claro da importância dessas viagens era a Fita Azul, prêmio concedido pela CBD (depois pelo jornal “A Gazeta Esportiva”) para os clubes brasileiros que voltavam invictos de excursões ao exterior.

Foi dentro desse universo que o Atlético-MG viajou à Europa em 1950. O time vivia um de seus melhores momentos e dominara o futebol mineiro na década de 1940. Assim, aceitou o convite para realizar uma série de amistosos na Alemanha e alguns países vizinhos, como Bélgica, Áustria e França. O Campeonato Mineiro foi interrompido para que o Galo viajasse sem prejudicar seus compromissos no Brasil.

A delegação atleticana foi composta por Kafunga, Mão de Onça, Afonso, Oswaldo, Juca, Moreno, Vicente, Zé do Monte, Haroldo, Barbatana, Vicente Perez, Márcio, Lucas, Lauro, Cezinho, Alvinho, Vavá, Nívio, Vaguinho e Murilinho. O técnico era Ricardo Diez. O time teria pela frente adversários, de fato, fortes. Schalke 04 e Hamburg, por exemplo, haviam sido campeões de suas regiões e disputaram a fase final, nacional, do Campeonato Alemão de 1950-51.

Pela época do ano, entre novembro e dezembro, o hemisfério norte se preparava para a chegada do inverno e o frio já era intenso. Muitas das partidas do Galo foram disputadas na neve. Ainda assim, os resultados foram bons, com seis vitórias, dois empates e duas derrotas. Estavam ainda previstas quatro partidas, mas o responsável por agenciar a excursão fugiu com o dinheiro e deixou a delegação alvinegra abandonada em Paris.

Atletico-MG_campeao do gelo.jpg

O Atlético voltou para o Brasil com dois troféus, sendo apenas um de um torneio: um quadrangular com München 1860, Hamburg e Werder Bremen. Os demais jogos foram amistosos isolados. Isso não importava muito. O bom retrospecto foi tratado em Belo Horizonte como uma prova da força do futebol mineiro como um todo. A torcida recebeu a delegação como se o time tivesse conquistado um título, com direito a desfile em carro aberto pelas ruas da capital mineira. Antes disso, os alvinegros já haviam sido homenageados pela CBD no Rio de Janeiro.

Como forma de homenagear a façanha daqueles jogadores, o time foi chamado de “campeão do gelo” (referência óbvia às condições climáticas enfrentadas). Ainda que não se tratasse de um título oficial, para os padrões da época, era algo equivalente. A ponto de o compositor Vicente Motta ter orientação clara para mencionar a excursão na letra do atual hino do clube (de 1969).

*

Veja os resultados da excursão do Atlético-MG à Europa em 1950: 4 x 3 München 1860, 4 x 0 Hamburg, 1 x 3 Werder Bremen, 3 x 1 Schalke 04, 0 x 3 Rapid Viena, 2 x 0 Saarbrücken, 2 x 1 Anderlecht, 3 x 3 Eintracht Braunschweig, 3 x 3 Luxemburgo e 2 x 1 Stade Français.

Ubiratan Leal

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