Time equatoriano: usa bem a altitude quando joga em casa, mas mostra sua fraqueza como visitante. Até certa fase do campeonato, consegue avançar com os pontos conquistados no alto da montanha. Esse é o clichê de 90% das análises sobre a LDU Quito (ou qualquer equipe do Equador) em competição internacional. Pois o estereótipo não cabe para a equipe blanca que surpreende as Américas com uma campanha sólida na Libertadores.
Independentemente do que venha a ocorrer até o final do torneio, os blancos já são fortes candidatos a surpresa positiva da competição. Das oito equipes que sobrevivem no torneio, é a única que foge das potências Brasil, Argentina e México. E os quitenhos conseguem isso mostrando um futebol realmente competitivo, que vai muito além do chavão da altitude.
A LDU Quito (para quem não sabe, é preciso discriminar o nome da cidade para diferenciá-la de outras LDUs: as de Cuenca, Portoviejo e Loja) é o clube mais rico do Equador na atualidade. Parece algo insignificante, mas não é. Como a economia equatoriana está dolarizada, os clubes locais têm poder aquisitivo razoável para os padrões sul-americanos. Não se comparam a Brasil e Argentina, mas são melhores que os de Peru e Paraguai, por exemplo.
Desse modo, os blancos conseguem reduzir o impacto do êxodo de jogadores para centros mais importantes e podem manter a mesma base há várias temporadas. Como resultado lógico, sobra entrosamento e solidez tática ao time. Ainda mais porque o argentino Edgardo Bauza está no comando da equipe desde 2006.
O treinador montou um time com peso grande do meio-campo. O sistema tático é algo parecido com um 3-3-3-1. O objetivo é congestionar o caminho do adversário com muita marcação, mas ter saída rápida para o contra-ataque.
O goleiro Cevallos não é dos mais seguros, mas é um dos melhores à disposição no Equador (o que diz muito a respeito da qualidade dos camisas 1 do país). Diante dele, Jayro Campos, Norberto Araújo e Calderón formam um trio defensivo que raramente avança. Urrutia, Enrique Vera e Ambrossi são os responsáveis por proteger a defesa. A essas duas linhas de três homens se somam Guerrón, Manso e Bolaños, que ajudam no primeiro combate. Só Bieler fica mais à frente
Parece uma retranca, mas é só o modo de a Liga de Quito preparar seu pulo. Urrutia é um volante com poder de liderança e muita visão de jogo. Desse modo, ele avança para iniciar os contra-ataques e organizar as jogadas. Ambrossi, lateral-esquerdo de origem, abre pela ponta, onde articula com Bolaños, que joga no meio-campo, mas é atacante. Guerrón, pela direita, também ajuda nos contra-ataques. O time passa a jogar em um 3-5-2 ou 3-3-1-3.
Desse modo, a equipe consegue mudar com muita rapidez sua formação defensiva para a ofensiva. Essa mobilidade compensa a falta de capacidade técnica do elenco e permite que o time surpreenda os adversários, mesmo quando joga fora de casa. Foi assim que a LDU arrancou bons resultados na Argentina, vencendo o Arsenal na fase de grupos, empatando com o San Lorenzo nas quartas-de-final e conseguindo um gol para eliminar o Estudiantes nas oitavas-de-final.
Quando joga em casa, a postura é diferente, ainda que o time-base seja o mesmo. A diferença é que Bolaños e Urrutia ficam mais adiantado, permitindo uma pressão maior sobre o oponente. Claro, os 2.850 m de altitude de Quito são utilizados como arma, tanto que o aproveitamento da LDU na Casa Blanca é de 83% na Libertadores.
Se mantiver esse futebol competitivo e, principalmente, o desempenho em casa, a LDU Quito passa pelo San Lorenzo e chega às semifinais, repetindo as campanhas de 1975 e 76 (na época, a Libertadores tinha triangulares semifinais), as melhores do clube na principal competição das Américas. Isso não transformaria o time equatoriano em favorito. Ele continuaria sendo zebra, mas uma zebra que merece cada vez mais respeito.
Ubiratan Leal
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