Os 1º de abril são perigosos para os jornalistas. Veículos do mundo inteiro entram na brincadeira do “Dia da Mentira” e divulgam várias notícias falsas. Em geral, são caricatas o suficiente para o leitor saber que se trata de uma brincadeira. Mas há momentos em que se erra a mão. Parecia o caso da manchete “Altitude mata!” na capa da edição carioca do Lance de 1º de abril de 2008. Mas não era. A chamada era real. Ou algo perto disso.
A notícia vinha sob medida. Na semana seguinte, o Flamengo tem um decisivo duelo contra o Cienciano em Cuzco. Será a primeira partida do Rubro-Negro nos Andes depois do drama contra o Real Potosí na Copa Libertadores 2007. Assim, a expectativa para o jogo e, principalmente, para a reação dos jogadores flamenguistas é grande. A ponto de a diretoria do clube carioca ter transformado a luta contra jogos na altitude em causa pessoal e de tentar vetar o jogo em Cuzco até o último momento.
Por isso, muitos rubro-negros ficaram de água na boca ao ver uma reportagem que afirmava que a altitude já havia matado um jogador. Era o que dizia um fax que o Flamengo diz ter recebido de médicos bolivianos e mexicanos. Na mensagem, o clube era informado que um jogador havia morrido por causa da altitude em uma partida amadora em Potosi, mas o governo da Bolívia teria abafado o caso para evitar que o fato fosse usado como argumento contra os jogos a mais de 3 mil metros acima do nível do mar.
O problema é que as informações eram frágeis. De acordo com a denúncia do Lance, o tal jogador defendia um clube de Oruro e morreu em Potosi. Por si só, essa história já é estranha, pois a diferença de altitude das duas cidades é de 265 m (3.967x3.702). Em um caso extremo, essa diferença pode até causar algum desconforto, mas dificilmente levaria um jogador à morte. Além disso, os tais médicos não se identificavam – alegavam medo de perseguições – e não davam o nome do jogador e dos clubes envolvidos na partida.
A notícia era tão suspeita que ninguém embarcou. Os outros veículos brasileiros apenas disseram que o diário Lance publicara uma reportagem sobre a morte de um jogador em Potosi. O próprio Flamengo ficou em cima do muro. O clube admitiu que recebeu tal fax, mas o clube sequer colocou essa informação na Agência Fla (agência/site de notícias oficiais do Rubro-Negro). A única menção se deu como reprodução de uma notícia publicada pelo Globo Esporte.com. O clube não bancou oficialmente a informação.
De acordo com Pedro Trengrouse, advogado do Flamengo e responsável pela ação que os clubes brasileiros movem no TAS (Tribunal Arbitral do Esporte) contra os jogos na altitude pela Libertadores, o Rubro-Negro não pôs para frente a denúncia do fax por falta de provas de sua autenticidade. Ele mesmo afirmou que a publicação da tal morte foi precipitada por parte do Lance.
De algum modo, o conteúdo do fax chegou ao jornal, que decidiu dar a bombástica manchete sem averiguar o caso devidamente. No dia seguinte, o diário esportivo baixou o tom e não repercutiu demais a notícia. Aparentemente, foi um blefe ou trote.
Foi o suficiente para aumentar a tensão de Bolívia e Peru com o futebol brasileiro. Os bolivianos disseram que o Flamengo inventara a morte do jogador e reiteraram que jamais alguém teria morrido em campo por torneios amadores de Potosi. Além disso, informaram que o único estrangeiro que participaria dos estudos do governo boliviano sobre a atividade esportiva na altitude seria equatoriano. Nunca teria havido mexicanos na comissão.
No dia seguinte à publicação da notícia, o próprio Flamengo admitiu a derrota diplomática na tentativa de mudar o local da partida contra o Cienciano, marcada para o próximo dia 9. Mais que isso, as federações nacionais filiadas à Conmebol se uniram e votaram na aprovação dos jogos na altitude. Não apenas na Libertadores e na Sul-Americana, mas também nas Eliminatórias da Copa. A CBF foi a única entidade a ir contra a corrente, alegando “razões internas” para se abster. A Conmebol ainda pediu para os clubes brasileiros retirarem a ação que movem no TAS (Tribunal Arbitral do Esporte). Uma derrota diplomática contundente.
O Lance não tem culpa da mobilização da Conmebol, mas tem da publicação de uma notícia precipitada. Tudo porque a tentação de dar uma notícia bombástica para vender falou mais alto que a necessidade jornalística de checar os fatos.
Ubiratan Leal
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