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3/04/08

Cultura & Mídia

Sociedade não precisa saber da vida de Casão

Jornalistas sabem de muito mais as coisas do que o público imagina. Em Brasília, não é segredo para os repórteres quais parlamentares têm atitudes comprometedoras na vida pessoal e quais têm rabo preso com determinados lobistas ou lideranças políticas. No meio artístico, fala-se quem é picareta ou quem tem caso com quem. Nos clubes de futebol, é papo corrente que Fulano é traíra e Beltrano abusa na noitada. Nem é difícil imaginar como isso ocorre. Dois ou três jornalistas ficam sabendo e, nas conversas com colegas, a informação se espalha pelas principais redações do país.

Mesmo assim, muita coisa é filtrada e o público só fica sabendo de parte dos fatos. Em alguns casos, a não-divulgação tem motivo claro: trata-se de acusação ou denúncia e o veículo tem de provar o que publicar. É o caso da lista de parlamentares ligados a lobistas ou de técnicos e dirigentes de futebol que ganham comissão em venda de jogadores. Nos demais casos, e não são poucos, o motivo é outro. O público simplesmente não precisa tomar conhecimento do fato até ele se tornar socialmente relevante.

Como qualquer profissão, o jornalismo existe porque há uma demanda da sociedade pelos serviços que os jornalistas prestam. No caso, a função social é permitir que a população fique informada para ter mais base para tomar decisões no dia-a-dia. Ou então, dar informações para que as pessoas enobreçam seu espírito com o acúmulo de cultura. Falando nesses termos, parece mais pomposo do que é. Para simplificar a argumentação, dá para comparar isso ao fato de existirem encanadores porque as pessoas precisam ter vazamentos consertados ou de haverem médicos para manter a saúde da população.

Tendo em vista o interesse público da função jornalística, fica difícil entender o motivo de um veículo como a Placar ter publicado uma reportagem revelando problemas pessoais do ex-jogador Casagrande. A revista, em sua edição de abril, conta o drama pessoal do comentarista da Globo, como está seu tratamento de dependência de drogas e expõe problemas de sua vida pessoal. Chega ao cúmulo de revelar seu salário – ainda pago – e publicar ataques da ex-mulher de Casão à ex-namorada dele.

Deixando claro que “interesse público” significa “função social”, e não “curiosidade do público”, qual a importância para as pessoas de saberem das mazelas de Casagrande?

(Obs.: um exemplo para mostrar a diferença entre público e privado. Enquanto Renan Calheiros tinha caso com Mônica Veloso, era um problema apenas da família de ambos. Casos amorosos no Congresso há aos montes e os jornalistas em Brasília conhecem muitos deles. No momento em que houve suspeita e uso de dinheiro público para se pagar pensão alimentícia do filho de Mônica Veloso, virou assunto de interesse público. O mesmo vale para Maradona entre o momento em que seu vício era algo pessoal e o momento em que foi pego no exame antidoping)

Considerando que Casão foi afastado do trabalho sem causar danos aos telespectadores e o tratamento de desintoxicação não é pago pelo governo, seu problema não diz respeito aos “consumidores” de seus comentários ou os contribuintes em geral. Além de sua própria família, os únicos prejudicados com o vício do ex-jogador foram as pessoas que se envolveram no acidente automobilístico que o levou à última internação. Aí, era questão de as partes resolverem os problemas como lhes conviessem. A Justiça existe para isso. De resto, é uma informação privada, não importa o quão famoso seja o ex-jogador.

Isso ficou claro pelo fato de, em nenhum momento, o comentarista e sua família terem procurado a Placar para revelar o problema, como fazem algumas “celebridades” do mundo artístico ou como fez Maradona. Ou seja, era algo que eles preferiam manter oficialmente na esfera privada. Por esse motivo, o fato de Casagrande estar em tratamento esteve longe das manchetes por meses. Boa parte dos jornalistas esportivos de São Paulo sabia do caso desde que a Globo o afastou das transmissões. Havia o consenso de que não se trataria de informar o público, mas de expor desnecessariamente a tragédia pessoal de um cidadão.

Se fosse realmente importante saber dos detalhes das vidas das pessoas apenas porque elas são conhecidas (“pessoas públicas”), não haveria argumento para o fato de Casagrande ter sido “escolhido”. Há milhares de pessoas mais importantes e famosas no Brasil. Quase todas teriam algum fato comprometedor em sua vida particular se fossem investigadas a fundo.

Foi um grande erro jornalístico da Placar ter apostado nesse tipo de reportagem. Ainda que seja comercialmente boa (houve menção em vários veículos, o que pode ajudar a alavancar as vendas neste mês) e tecnicamente bem feita (muitas pessoas foram entrevistadas, pescou-se fiapos de informações de vários lugares até se montar a história completa...), ela não consegue se transformar em serviço de utilidade pública. Em todo momento, fica entre “fofoca” e “exposição gratuita e não-consentida da vida privada de uma pessoa”. Uma impressão que se reforça pelo fato de a revista ter usado uma imagem deprimente (o comentarista drogado, sendo tendido por médicos) para abrir o texto.

Isso não é jornalismo em sua essência. É sensacionalismo, ainda que travestido em reportagem bem apurada e publicada em veículo normalmente sério.

Ubiratan Leal

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