Hipersegmentação. Essa é a palavra que o Lance usou para explicar sua nova cartada: o “Jornal Vencer”, ou “Vencer, Vencer, Vencer”. O recém-lançado diário tem uma proposta incomum para o Brasil. É um jornal dedicado apenas ao Flamengo, com pautas sobre o dia-a-dia do clube da Gávea ou assuntos com alguma ligação com o Rubro-Negro. Ou seja, uma publicação que busca atingir apenas a parte flamenguista do estado do Rio de Janeiro e Juiz de Fora.
A idéia é intrigante e polêmica. Em princípio, não haveria restrições. O “Vencer” não é uma publicação oficial do Flamengo e, em teoria, tem independência editorial para criticar o clube ou tocar em assuntos delicados. Jornais como esses já foram feitos na Europa e não houve problemas. Ainda assim, se estabelece uma relação muito próxima entre o Lance e o clube da Gávea, algo que pode ser contornado, mas que precisa de cuidados extras.
Ultrapassado esse obstáculo, fica um dilema ainda maior. Um jornal voltado exclusivamente a um clube depende demais do ânimo desse torcedor. Ou seja, se o time estiver em má fase, em crise ou de férias, a tendência óbvia é faltar assunto e, pior, vontade dessas pessoas de comprarem jornais. As vendas flutuariam demais, pois o torcedor brasileiro médio só consome futebol nos bons momentos.
Um modo de reduzir esse risco é procurar sempre enfoques positivos. Essa já é uma diretriz básica de jornais e revistas esportivas brasileiras, mas é mais fácil ser sempre otimista quando se trata de vários assuntos. Se um clube está em crise, outro está bem e compensa. Com um veículo flamenguista (no “Vencer”, há apenas uma página de “Os outros”), é mais difícil ter alternativas. Até porque há um desvirtuamento das prioridades jornalísticas quando se procura notícias boas onde pode não haver.
De resto, o Lance procurou dar uma cara bastante popular ao “Jornal Vencer”. A linguagem é simples, mas não destoa tanto com a utilizada no próprio Lance. Essa busca por um público de renda mais baixa fica evidente em outros aspectos, como o preço de capa (R$ 0,50) a presença de uma “musa do Fla” por dia e na seção “Fora de campo” (notícias gerais, sem ligação com o esporte), em que prevalece o noticiário policial e fofocas de celebridades. Pode ser a melhor saída de mercado, mas significa uma maior segmentação, pois até os rubro-negros mais conservadores podem rejeitar a publicação.
No geral, é um jornal editorialmente fraco, mas que não esconde qual é seu público. E, neste sentido, até tem algum valor. Além disso, há o mérito de apostar em um novo tipo de produto. Se der certo, pode ser o início de uma série de outros veículos com esse enfoque. Aí, espera-se que o “Vencer” passe por ajustes, naturais após o acúmulo de experiência.
Mais informações
O “Jornal Vencer” é publicado pelo Lance todos os dias, com distribuição para o Estado do Rio de Janeiro e a cidade de Juiz de Fora. Tem entre 16 e 24 páginas e custa R$ 0,50.
Ubiratan Leal
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