Boca Juniors e River Plate, River Plate e Boca Juniors. Para os mais desatentos, o futebol argentino parece uma eterna briga a dois. Nos últimos anos não tem sido assim. Estudiantes e San Lorenzo conquistaram os títulos na temporada 2006-07. Mas, no final de 2008, esse fenômeno ganhou contornos ainda mais inusitados com o Lanús conquistando seu primeiro Campeonato Argentino. Uma prova de que um planejamento de longo prazo bem feito pode ajudar a levantar clubes médios, mesmo na espinhosa realidade do futebol sul-americano.
Esse trabalho começou no Apertura 2005. Após 13 rodadas, os granate tinham apenas 14 pontos e ocupavam a 15ª posição. O time acabara de ser goleado pelo River Plate (que não vinha bem no torneio) por 4 x 1. A crise se instalou no clube, que decidiu trocar de comando. Néstor Gorosito saiu e, na falta de algum nome mais confiável, a diretoria promoveu Ramón Cabrero, comandante das categorias de base.
A escolha de Cabrero dava indicações clara que o Lanús queria incentivar a promoção de jogadores da categoria de base. O treinador entendeu o recado e, aos poucos, foi dando oportunidades aos jovens cujo potencial ele conhecia como poucos. A dúvida era: tal geração amadureceria rápido e traria resultados aos grenás ou só explodiria depois de ir à Europa.
A resposta veio logo no torneio seguinte. No Clausura 2006, o time mostrou enorme crescimento e ficou com um surpreendente vice-campeonato. Jovens como Pelletieri já faziam parte da equipe titular, mas a base ainda era o time do ano anterior, formado por jogadores sem grande destaque e trazidos a custos convidativos.
A temporada 2006-07 foi para consolidação do trabalho. Revelações como Fritzler, Valeri e Biglieri se juntaram a nomes mais experientes, como Bossio, Graieb e Sand. O que ficava evidente é que Cabrero apostava na experiência para ter líderes na defesa e talento no meio-campo e no ataque.
O desempenho foi bom, mas discreto: sexto lugar no Apertura e no Clausura, sendo que, no Apertura, os granate tiraram o título do Boca Juniors ao vencê-los em La Bombonera e forçá-los a realizar um jogo-extra contra o Estudiantes. Na Copa Sul-Americana 2006, o Lanús caiu apenas nas quartas-de-final, diante do Pachuca. No caminho, deixou Vélez Sársfield e Corinthians. Nada mal para quem tinha um time que misturava “refugos” e garotos recém-lançados dos juniores.
O fato de as campanhas terem tido bons momentos, mas sem uma conquista mais midiática foi positivo para os granate. Isso deu tranqüilidade para Cabrero e confiança aos jogadores que haviam subido para o profissional, mas não era o suficiente para motivar os clubes europeus a levá-los prematuramente.
O resultado pôde ser visto no Apertura 2007. Com 16 jogadores (do elenco de 25) revelados em suas categorias de base, o Lanús jogou como um grande. Depois de um início de campanha titubeante, os granate produziram uma série de bons resultados, como as vitórias sobre San Lorenzo (então o campeão argentino, por 4 x 3), Rosario Central (fora de casa, por 4 x 1) e Banfield (principal rival, por 2 x 1). Um sinal da consistência da equipe de Cabrero é que ela perdeu apenas uma partida contra um adversário pequeno, o Colón, além de ter o melhor ataque e a quinta melhor defesa.
Foi a primeira vez que o clube conquistou um título nacional (até então, a maior glória era uma Copa Conmebol). A empolgação foi tamanha na cidade que o clube conseguiu manter seus principais jogadores, sobretudo o meia ofensivo Valeri, principal candidato a craque do elenco. O objetivo é fazer uma grande campanha na Libertadores. Talvez seja um exagero, mas o campeão argentino sempre tem direito a sonhar alto no cenário sul-americano. Ainda mais depois de ter comprovada a qualidade do trabalho feito nos últimos dois anos e meio.
Ubiratan Leal
CLIQUE AQUI PARA COMENTAR OU LER OS COMENTÁRIOS