O início de temporada foi tétrico para os santistas. Rapidamente, o time acusou a saída de algumas figuras de 2007 e deixou evidente que a adaptação a um novo trabalho não seria simples e rápida. As reclamações da torcida não tardaram, o técnico Leão chegou a acusar alguns jogadores de fazer corpo mole e as arquibancadas andam mais vazias do que deveriam. Para completar, a presença na zona de rebaixamento do Paulistão. Está claro que 2008 será um ano bem longo para o Santos.
Apenas o mais iludido ou otimista dos santistas vai achar que o Peixe de hoje é uma potência nacional. No entanto, com um pouco de calma, o tal sofrimento não precisa tomar conta da Vila Belmiro como uma doença inevitável. Basta o torcedor, a imprensa e a diretoria terem noção que o clube vive um novo momento histórico e não pode investir como vinha fazendo nos últimos anos.
O time atual não é dos melhores. As saídas de nomes como Maldonado, Marcos Aurélio e Pedrinho ao final de 2007 não foram repostas à altura. Isso é agravado pelo fato de o time nunca ter se recuperado das perdas de Zé Roberto e Cléber Santana em julho último. Mas a saída mais sentida é a de Vanderlei Luxemburgo.
A grande questão da mudança de técnico não é a eventual diferença de qualidade entre o anterior e Leão, o atual. Até porque Luxemburgo não esteve particularmente inspirado na última passagem pela Vila Belmiro, oscilando entre boas sacadas e momentos de apatia e resignação. O problema é o estilo de gestão de Luxemburgo. O atual treinador do Palmeiras gosta de controlar todo o clube, impondo sua filosofia e seu estilo em todos os setores do departamento de futebol. Desde o comando do time em si ao sistema de busca por reforços, passando pelo modo como é feita a preparação física e psicológica do elenco.
Com a saída de Luxemburgo, levando junto sua comissão técnica, para o Parque Antarctica, o Santos ficou órfão. Fora a estrutura física construída nos últimos anos, o legado era pequeno. O conhecimento acumulado nos dois últimos anos se foi e toda a estrutura teria de ser refeita. Um processo muito trabalhoso, que inevitavelmente demanda tempo e tem reflexos no desempenho em campo. Desse modo, o cenário santista no começo de 2008 era dos mais negativos.
Menos mal para o Santos que ainda havia alguns elementos que permitiriam a reconstrução da equipe. Jogadores como Fábio Costa, Rodrigo Souto, Adaílton, Kléber e Kléber Pereira formariam a espinha da nova base que surgiria. A eles se juntam a geração campeã paulista sub-20, com jovens de talento como Carleto, Tiago Luís, Alemão e Paulo Henrique. Com mais alguns reforços, era possível ter um time de porte médio para o Brasileirão.
Foi mais ou menos isso que o Santos de Leão fez. Fabão desperta dúvida pela condição física e Betão é perseguido pela identificação com o Corinthians, mas são dois zagueiros dentro do padrão brasileiro de hoje. Marcinho Guerreiro não é um grande volante, mas tem a confiança de Leão e isso deve significar alguma coisa. Os estrangeiros Molina, Quiñónez, Trípodi e Pinto têm currículos interessantes, ainda que só o primeiro tenha mostrado bom futebol por um período de tempo mais longo.
Uma equipe como essa do Santos não tem condições de se colocar como uma das favoritas ao Brasileirão. No entanto, não é muito pior que mais da metade dos times da Série A. A venda, no meio do ano, de um ou outro jogador valorizado pode ajudar ainda mais se o dinheiro for investido com inteligência.
Se a torcida parar com a cobrança surreal e o time admitir que está no estágio inicial de sua reconstrução, tornando Libertadores e Paulistão torneios inatingíveis, dá para ter um segundo semestre razoável. Caso contrário, essa fase de reestruturação será eterna e o Santos viverá uma seqüência de crises com intervalos marcados por esporádicos bons jogos. E o fundo da tabela do Brasileirão não ficará tão distante assim.
Ubiratan Leal
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