O representante da imprensa esportiva argentina de maior projeção no Brasil é o Olé. As capas provocativas do jornal causam indignação de boa parte dos brasileiros, muitas vezes com razão. No entanto, a fama do Olé não pode ofuscar a história de outro veículo importante na história do futebol argentino. A revista El Gráfico, com quase 90 anos de vida e mais de 4.300 edições, tem papel fundamental no desenvolvimento do esporte no país.
A publicação surgiu em 1919 como uma revista sobre assuntos diversos, incluindo notas policiais e roteiro cultural de Buenos Aires. Só na década de 1950 a El Gráfico passou a se dedicar exclusivamente a esportes. A partir daí, o semanário se tornou referência para o torcedor argentino, tanto que foi o grande responsável na elaboração da mitologia do futebol local.
Esse passado até hoje dá sustentação à publicação. Não que a revista seja de história. Hoje, transformada em mensal (solução para fugir da crise financeira em 2002), perfis de jogadores e reportagens mais profundas ou “frias” (atemporais) têm mais espaço que acompanhar o dia-a-dia dos clubes argentinos ou dar o relato da rodada do fim-de-semana. Mas há inteligência na forma de usar o acervo fotográfico e de textos para se mesclar com o material novo.
Um exemplo disso foi a entrevista com Diego Maradona da edição de dezembro de 2007. Todas as páginas dedicadas à conversa são recheadas com fotos de vários momentos da vida do craque. Todas vindas do arquivo da revista.
Também merece destaque o fato de a revista ter um tom menos debochado que o Olé (para os brasileiros, vai ser mais agradável pela ausência de provocações), mas sem perder o estilo do jornalismo argentino, com textos quase ensaísticos. Além disso, a revista reflete a cultura poliesportiva da Argentina, pois há destaque razoável para outros esportes, como rúgbi, tênis e, sobretudo, automobilismo, que até tem um suplemento especial mensal.
Claro, podia haver melhoras. Por exemplo, a quantidade de perfis é um pouco grande. Se alguns fossem substituídos por reportagens sobre cultura do futebol, a El Gráfico ficaria mais completa. Mais atenção ao Ascenso (segunda divisão para baixo) e todo seu espírito de bairro também seria bem-vindo.
Por toda sua história e pela qualidade da revista no presente, a El Gráfico merecia mais destaque no Brasil como importante representante da imprensa esportiva argentina. Até porque não tem as polêmicas do Olé, algo que pode levar a uma imagem exagerada do tom do jornalismo praticado na margem ocidental do rio da Prata.
Mais informações
A El Gráfico é publicada mensalmente pela editora Revistas Deportivas e tem 124 páginas. A edição custa ARS $ 8,80.
Ubiratan Leal
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