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22/01/08

O mundo não é uma bola...

Fim do G-14 pode ser bom para os clubes

Uefa_Platini.jpg

Quando foi eleito presidente da Uefa, Michel Platini foi tratado como se fosse um dirigente comum, um personagem que não podia mais ser relacionado com o brilhante jogador que foi. Talvez não possa, mas é inegável que, como cartola, o francês também é habilidoso. Desde que assumiu o poder, tem feito ginástica para implementar suas várias promessas e, surpresa!, tem obtido sucesso. Mudou a fórmula da Liga dos Campeões ara ela se tornar mais democrática e, nesta semana, concretizou um acordo com os clubes que pode mudar a estrutura do futebol mundial nos próximos anos.

Desde que a Media Partners, empresa de marketing esportivo, sugeriu ao G-14 (grupo de 18, originalmente 14, grandes clubes europeus) a criação de uma liga européia, os grandes clubes europeus descobriram o poder que teriam juntos. Dobraram a Uefa e conseguiram aumentar a Liga dos Campeões, que passou a ter segundos, terceiros e até quartos colocados de campeonatos nacionais.

Desde então, o futebol europeu viu um enorme duelo entre clubes e federações. Um clima de animosidade quase imparável, em que dirigentes de clubes não tinham pudor em desafiar o poder das entidades e diziam abertamente que as seleções nacionais não tinham espaço no futuro.

A principal reclamação era sobre ceder gratuitamente seus atletas para as federações lucrarem com jogos entre seleções. Também havia casos de clubes pedindo indenização por jogadores que voltaram contundidos por compromissos pelas equipes nacionais. Havia base jurídica para a reclamação dos clubes, tanto que pipocavam processos na Justiça européia.

Ciente disso, federações como a alemã e a equatoriana já deram parte dos lucros da Copa de 2006 para seus clubes. A federação inglesa chegou a ressarcir o Newcastle por uma contusão de Owen pelo English Team. Ainda assim, era real o risco de as relações entre as instituições trombarem definitivamente e emperrarem o futebol europeu e, por conseqüência, o mundial.

Havia, porém, margem de manobra. O G-14 contava com muita força no uso da Justiça (como empregadores), mas tinha pontos fracos. Por mais poderosos que fossem seus integrantes, faltava legitimidade à associação. O grupo não defendia o interesse dos clubes, mas dos clubes grandes, deixando evidente que queriam elitizar o futebol europeu. A possibilidade de acabar com campeonatos nacionais no futuro não era uma idéia das mais populares entre torcedores em geral e imprensa.

Assim, a Uefa usou isso para desarmar o G-14. Platini deixou a entidade aberta a negociar com clubes, desde que esses fossem representados por uma associação mais ampla, que contemplasse equipes de diversos tamanhos e de diversos países. Se isso acontecesse, o francês prometeu, a idéia de dar aos clubes uma parte do lucro de jogos entre seleções seria estudada com mais carinho.

O G-14 aceitou a proposta. Retirou as ações que tinha contra as federações e se implodiu para que uma nova associação de clubes se formasse. Assim, surgirá um grupo com mais de 100 membros, sendo, no mínimo, um de cada país filiado à Uefa (são 53 no total). Em contrapartida, a entidade colocará os clubes na partilha dos lucros de competições como a Eurocopa. A Fifa não demorará para ter o mesmo tipo de relação com os clubes.

Pode parecer apenas uma questão burocrática, mas, se o acordo der certo, as competições entre seleções viverão uma nova fase. Como os clubes terão interesse no lucro delas, podem ajudar na promoção de eventos como a Copa do Mundo e a Eurocopa com ações de marketing casando competições clubísticas e de seleções. As federações perderão parte de seu filão, mas não é injusto dar aos clubes que cedem jogadores uma parte dos lucros dos grandes torneios.

Por mais que a verdadeira paixão do torcedor seja pelo clube, o futebol só se tornou um esporte global pela existência de referências locais. No caso, as seleções nacionais. Se clubes e federações souberem entender isso e trabalharem em conjunto, a chance de o futebol atingir novos mercados se torna mais real. Ainda bem.

*

O G-14 foi fundado em 2000 por Ajax, Barcelona, Bayern de Munique, Borussia Dortmund, Internazionale, Juventus, Liverpool, Manchester United, Milan, Olympique de Marseille, Paris Saint-Germain, Porto, PSV e Real Madrid. Em 2002, foram incorporados Arsenal, Bayer Leverkusen, Lyon e Valencia.

Ubiratan Leal

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