O conceito de “bom público” é cultural e psicológico. Até os primeiros anos da década de 1990, era possível ver estádios no Brasil com mais de 90 mil torcedores. Acontecia mesmo em jogos de primeira fase de campeonatos estaduais. Bastava haver algum tempero no jogo para as arquibancadas ficarem apinhadas. Com a violência das torcidas organizadas e falta de segurança estrutural, públicos de 40 mil passaram a ser tratados como multidões no início deste século. Pois há um ensaio de que a tendência pode se reverter a partir do Brasileirão 2007. E é importante clubes, torcedores e imprensa entenderem que esse pode ser o início de fenômeno.
No Brasil, ir a um estádio é uma atividade problemática. Por mais que a pessoa goste do seu time, sabe que enfrentará vários desconfortos e desrespeitos. Horários inconvenientes, falta de transporte público decente, dificuldade para estacionar, insegurança... São tantos itens negativos que muitos só vão ao estádio esporadicamente, em partidas com apelo especial. A série de bons públicos em 2007 mostra que isso pode estar mudando.
Não houve melhora significativa na infra-estrutura oferecida ao público. A diferença, então, é que os torcedores simplesmente estão achando que vale a pena ir ao estádio. E, depois de ir duas ou três vezes em seguida, a cultura de tratar o futebol como um programa inerente ao fim-de-semana volta a aparecer. É aí que está o filão que precisa ser aproveitado.
É fundamental que os clubes que têm um aumento significativo no público em 2007 façam uma pesquisa de mercado com seus torcedores para entender o que fez muitos deles voltarem às arquibancadas. Pode ser algo difícil de controlar, como a situação financeira do país. Mas pode ser algo mais palpável, como melhoria na política de venda de ingressos ou maior entendimento do regulamento de pontos corridos.
Para isso, é preciso realizar entrevistas, uma pesquisa de campo de verdade. Assim, é possível saber o que pode melhorar, o que está bom e o que é inócuo. Um estudo com profundidade muito maior do que se limitar a pegar a média de público de cada time e imaginar que ela aumentou por causa da campanha da equipe ou do regulamento.
Conhecendo os detalhes do aumento de público em 2007, é possível trabalhar nesses pontos nos próximos anos para tornar a dia ao estádio um programa novamente viável para 60 mil ou 70 mil pessoas todo fim-de-semana. Caso contrário, a oportunidade de ganhar novo impulso será perdida. E 2007 será um ano isolado de bom público no meio de outros com médias aquém da sonhada em um país como o Brasil.
Ubiratan Leal
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