Geral do Grêmio, Popular do Inter, A 10, Loucos pelo Botafogo, 105 Minutos, Núcleo 1914, Alma Alvirrubra, Guerreiros do Almirante,, Sempre Vitória, Brava Ilha, Povão Coxa Branca, Fenômeno Azul, Legião Tricolor... Cada vez mais as arquibancadas brasileiras se acostumam ao surgimento das “barras”, grupos de torcedores que, inspirados nos argentinos, apóiam incondicionalmente seus times. Um movimento que vai ganhando amplitude e já deve ser tratado como algo mais sério.
O princípio das barras é extremamente atrativo para o torcedor fanático que não quer se envolver no mundo quase religioso das torcidas organizadas. Esse novo tipo de grupo, não há filiação, não há mensalidade, não há predisposição a guerrear com o rival, não há auto-referência e, principalmente, não há cantos que evocam a violência. Pelo contrário, os participantes se organizam informalmente para cantar em exaltação ao time. Além disso, são incentivados a se tornarem sócios do clube e a sempre comprarem produtos oficiais.
O pacote parece perfeito. Ainda que haja divergências internas, como o fato de algumas deixarem clara a inspiração platina ao cantar em espanhol, o que desagrada os grupos mais nacionalistas, parece o pouco lado bom das torcidas organizadas (a possibilidade de formar uma massa para cantar em conjunto) sem o lado ruim. O que fez que os movimentos crescessem rapidamente e começassem a rivalizar com as tradicionais e inchadas organizadas.
Aí começam os problemas. Ao mesmo tempo em que a experiência de ir ao estádio se torna mais agradável pelo clima mais alegre e menos bélico, as barras passam a ter estrutura interna. O que é meio passo para se tornarem organizadas em certo sentido. No Rio de Janeiro, a Urubuzada oficializou sua transformação em mais uma organizada do Flamengo. Em outras, o processo é mais sutil. O que não impede que se fale em alianças com barras de outros clubes e se crie uma certa rejeição em quem não segue a filosofia do grupo. Mesmo que não exista violência no processo, já é o embrião de intolerância.
Isso fica mais claro no Rio Grande do Sul. Barras gremistas e coloradas cresceram muito, ofuscaram as uniformizadas tradicionais e passaram elas a ser a massa dominante. As diretorias apóiam tais movimentos, pois eles não criam cantos de contestação, não têm participação política e dão dinheiro ao clube ao não pedir ingressos gratuitos e a comprar produtos oficiais.
O problema é que essa relação começa a dar uma sensação de poder para as barras, que já agem de modo diferente do imaginado inicialmente. Membros da Geral do Grêmio, Alma Castelhana (também gremista) e Popular do Inter já foram envolvidos em vandalismo e intimidação em Gre-Nais. As torcidas negam, mas fica o alerta de que, com o crescimento, o grupo pode perder o controle de alguns integrantes.
Por enquanto, as barras são um fenômeno positivo para o futebol brasileiro e precisam ser tratadas com carinho para não se desvirtuarem. As arquibancadas precisam de mais torcedores festivos e alegres, não de outras organizadas.
Ubiratan Leal
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