O jornal Corriere di Livorno teve sua primeira edição em 9 de setembro. No caderno de esportes, a principal notícia era o empate em 0 x 0 entre Itália e França pelas Eliminatórias da Eurocopa. Na seção de notas para os jogadores, o atacante italiano Cristiano Lucarelli recebeu 5,5, considerado de regular para ruim. Até seria normal se o jogador não fosse o dono do diário.
Esse fato já mostra como o centroavante do Shakhtar Donetsk é um figuraça. Alto e forte, é o típico centroavante italiano de técnica aceitável que tem um talento impressionante para colocar a bola dentro do gol adversário. No Livorno, seu último clube na Bota, Lucarelli fez 92 gols em 146 jogos. Uma média considerável para a Serie A.
No entanto, o que o diferencia é a personalidade acentuada. Lucarelli é comunista declarado, a ponto de tatuar uma foice e um martelo no braço. Nascido em Livorno, só conseguiu jogar pelo clube da cidade – do qual é torcedor declarado – em 2003, aos 28 anos. Antes disso, teve uma carreira instável, com passagens por Perugia, Cosenza, Atalanta, Valencia, Lecce e Torino. Para jogar no clube amaranto, Lucarelli chegou a recusar uma proposta melhor financeiramente do Torino. Anos depois, também recusou oferta do Tottenham para continuar em casa.
Sua ligação com Livorno é tão grande que o jogador usava a camisa 99, referência ao ano de fundação da Brigate Autonome Livornesi, grupo de ultras do time com ideologia de esquerda. Em 2006, o jogador até ajudou a bancar a viagem de volta dos torcedores amaranto que foram a Roma acompanhar o time em uma partida contra a Lazio.
Sua saída do Livorno no último verão europeu causou polêmica. Alguns torcedores consideraram traição. Mas ele deixou um pé em sua cidade. Mesmo sem ter o segundo grau completo, Lucarelli achou importante dar à cidade um jornal de peso. Investiu € 2 milhões no negócio e diz que a redação tem liberdade editorial. Inclusive para dar nota baixa ao ilustre dono.
Ubiratan Leal
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